((o))eco 15 anos: hora de erguer os olhos e olhar pra frente
Fernando Fernandez
Biólogo, PhD em Ecologia pela Universidade de Durham (Inglaterra). Professor do Departamento de Ecologia da UFRJ, seu principal interesse em ensino e pesquisa é a Biologia da Conservação.

((o))eco 15 anos: hora de erguer os olhos e olhar pra frente

Fernando Fernandez
domingo, 25 agosto 2019 18:06
Arte: Júlia Lima.

Parabéns, ((o))eco!! 15 anos de vida. Agora você é um adolescente. 15 anos é aquela idade na qual a vida parece irresistivelmente atraente, mas ao mesmo tempo cheia de perigos e mistérios.

Mas você não é um adolescente típico: amadureceu cedo. Já passou por tanta coisa, conheceu momentos maravilhosos nessa vida, outros duros, e agora chega à adolescência sob um brutal choque de realidade. Parece mais com o pós-adolescente daquela letra de música que dizia “a porta dos meus 15 anos não tem mais segredo”.

Seu pai, Marcos Sá Corrêa, deve estar orgulhoso de você. Você foi um filho muito desejado, você sabe. O Marcos sempre amou bichos e plantas, e lugares de natureza rica e bem conservada, como o Itatiaia, tão especial para ele. Marcos sentia falta, no jornalismo brasileiro, de um espaço em uma mídia moderna para falar simplesmente da conservação da biodiversidade e das áreas protegidas que ele tanto amava. Aquelas maravilhas estavam sob intensa pressão, e se nada fosse feito rápido, a geração seguinte – a sua, ((o))eco – já teria perdido muita coisa. Ele percebia que a luta pela conservação da natureza era o que de mais importante e decisivo estava acontecendo no planeta, mas o assunto era quase ignorado pela grande mídia. Me lembro bem do Marcos dizendo aquela frase maravilhosa, “Hoje em dia, jornalismo que não é ambiental não é jornalismo”.  Foi por isso, ((o))eco, que você nasceu.

O Marcos não tinha dinheiro para criar você, mas com uma boa ajuda dos tios lá de Curitiba – o Miguel Milano, a Malu Nunes, e outros – foi possível lhe dar um bom início nessa vida, um head start, vamos dizer. E eles sempre continuaram a ajudar depois disso, você tem que ser muito grato a eles. Nos seus primeiros anos, os tios do Rio – o Sérgio Abranches e o Kiko Brito – ajudaram muito a cuidar de você, até que você conseguisse andar com as próprias pernas. Mais tarde, eles trilharam caminhos diferentes, assim como outros também saíram, mas assim é a vida. Depois houve aquela época de vacas magras – você lembra? – lá para 2008. Você era garoto ainda, e não havia dinheiro para nada, confesso que chegamos a temer pelo pior. Mas nós passamos por essa, você passou por essa, e todos aprendemos uma valiosa lição: é superar as dificuldades que nos torna melhores, é superar as dificuldades juntos que nos torna mais unidos.

“Seu pai, Marcos Sá Corrêa, deve estar orgulhoso de você. Você foi um filho muito desejado, você sabe.”

Ao longo desses anos, passamos juntos por momentos difíceis. Você denunciou e enfrentou cotidianamente milhares de agressões, pequenas e grandes, contra a natureza que nós amamos. Você presenciou e enfrentou os desmandos ambientais de sucessivos governos, sem ter sido partidário e sem ter se omitido do seu dever de informar. Você levou também as maravilhas aos seus leitores, e tem ajudado a formar uma comunidade no Brasil de pessoas interessadas em informação ambiental de qualidade e com conteúdo original. Fez até um filme, quem diria, e que filme maravilhoso, “Sob a pata do boi”, ganhador de prêmios, graças à parceria do Paulo Barreto, lá do Imazon – aliás um de seus melhores amigos nesses últimos anos. Foi também através de você que conheci um de meus melhores amigos, o Eduardo Pegurier, aquele economista que queria ter sido biólogo, mas trabalha com jornalismo. Quanta coisa eu aprendi esse tempo todo com o Eduardo. E quanto eu aprendi a admirar a Daniele Bragança, o Paulo André Vieira, o Rafael Ferreira e a Duda Menegassi. Também houve, claro, mais momentos difíceis pelos quais passamos juntos – por exemplo, quando o Vandré Fonseca nos deixou, tão cedo, tão sem sentido, deixando muita saudade.

“Ergue os olhos, ((o))eco. Você tem que erguer seus olhos para o que está acontecendo agora lá em cima, na Amazônia. Todos nós temos que olhar para lá. A Amazônia é o grande campo de batalha pelo planeta hoje em dia.”

Hoje, ((o))eco, o que eu posso lhe dizer? Você não está fazendo 15 anos numa época fácil, nem um pouquinho. Aquelas ameaças à natureza, aquelas agressões, isso tudo nunca esteve pior, pelo menos em nosso país. Esse grau de desprezo pela questão ambiental do atual governo, isso é inédito nesse tempo todo. A política atual do Ministério do Meio Ambiente, de desmantelar os mecanismos de proteção ambiental pelos quais deveria estar lutando, isso também é inédito. O retrocesso, a destruição de conquistas ambientais que custaram décadas de árduas lutas para conseguir, é assustador.

Ergue os olhos, ((o))eco. Você tem que erguer seus olhos para o que está acontecendo agora lá em cima, na Amazônia. Todos nós temos que olhar para lá. A Amazônia é o grande campo de batalha pelo planeta hoje em dia. Lá grileiros, madeireiros, garimpeiros e outros se aproveitam do momento favorável para destruir a floresta o mais rápido possível. O governo luta obstinadamente contra a realidade negando dados que mostram o óbvio. No mundo inteiro, o Brasil se torna o vilão ambiental, se isola, desperdiça qualquer chance de ter alguma relevância geopolítica, perde mercados e com isso afunda ainda mais sua economia.

Ergue os olhos, ((o))eco, ergue os olhos. Eu queria, como Carlitos para Hannah, poder lhe dizer agora que estivéssemos saindo das trevas para a luz. Infelizmente, as trevas hoje parecem mais fortes do que nunca, parecemos estar vivendo mesmo num momento de anti-iluminismo. Mas o que eu posso lhe dizer é: já passamos por várias outras épocas muito ruins, mesmo antes de você nascer, e estamos aqui. Se há alguma coisa que a gente aprende nesse mundo é que tudo na vida passa. Isso, esse pesadelo de hoje, também vai passar. A nossa luta agora é para que quando isso acontecer este ainda seja um país lindo e biodiverso para seus próprios filhos, e a Amazônia ainda tenha a floresta, os bichos e o papel no ecossistema planetário que merece e precisa ter. Há muito o que fazer, mas vamos lá, com 15 anos você ainda é jovem e cheio de energia! As trevas vão passar, vamos lutar juntos por um futuro melhor. Ele ainda está ao nosso alcance, mas depende de todos nós.

Parabéns, ((o))eco, pelos seus 15 anos, e bola pra frente, que a vida continua e a grande virada pela conservação ambiental vai continuar!

 

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2 comentários em “((o))eco 15 anos: hora de erguer os olhos e olhar pra frente”

  1. "A política atual do Ministério do Meio Ambiente, de desmantelar os mecanismos de proteção ambiental pelos quais deveria estar lutando, isso também é inédito."
    Mais um que estava dormindo quando criaram o Instituto Chico Mendes.

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