Vídeo com mensagem falsa compartilhado por Salles usou imagens do Greenpeace sem autorização

Wanessa Alves e Erick Mota
domingo, 13 setembro 2020 17:28
Ricardo Salles, ministro compartilha vídeos com fake news sobre queimadas na Amazônia. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

O vídeo com informações falsas sobre as queimadas na Amazônia, compartilhado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pelo vice-presidente Hamilton Mourão, utilizou imagens antigas do Greenpeace, sem autorização. Os autores das imagens e a ONG repudiam o uso indevido das imagens. O vídeo foi apagado das redes sociais por violar direitos autorais. 

Além da legenda que afirmava que o bioma não está em chamas, o vídeo apresentava entre as imagens um Mico-Leão-Dourado, animal endêmico da Mata Atlântica. De 01 de janeiro até 12 de setembro, foram registrados 60.675 focos de incêndio na Amazônia brasileira, é o pior ano de queimadas desde 2010, segundo dados do Programa Queimadas, do INPE. Por se tratar de uma floresta úmida, a queimada na Amazônia está diretamente vinculada ao desmatamento. Quando o desmatamento aumenta, os focos de queimada também vão lá para cima. 

Imagens antigas

Parte das imagens utilizadas foram gravadas em 2015, para uma campanha feita pelo Greenpeace em parceria com os povos Mundurukus, em campanha pela demarcação das terras. Algumas das imagens foram produzidas pelo fotógrafo Fábio Nascimento. “Além das minhas imagens feitas para o Greenpeace, tem imagens de outras pessoas. Tem imagens que são de outros lugares que eu não sei dizer de quem é a autoria”, explica o fotógrafo. 

Fábio Nascimento conta que ficou sabendo da vinculação das filmagens na manhã seguinte após o vídeo ter viralizado na internet. “Eu imediatamente entrei em contato com o Greenpeace, e eles já estavam tomando as devidas providências”, conta. 

Em agosto,  Salles se encontrou com garimpeiros que exploram áreas de garimpo na região dos povos Munduruku. Segundo Fábio Nascimento, as imagens dos indígenas feitas por ele são na mesma região em que acontecem a atividade de exploração de minério. “Isso é uma das principais formas de violação de direitos ao território nesse momento”. 

O fotógrafo diz que o vídeo divulgado pela AcriPará tem o objetivo de distorcer o que ocorre na Amazônia. “A tentativa desse vídeo de desviar o foco do que realmente está acontecendo”. 

O cansaço do brigadista no combate chamas em Rio Branco, no Acre. Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real/20/08/2020.

Uso da imagem dos indígenas 

No vídeo aparecem imagens aéreas de rios e florestas. Duas dessas imagens são de autoria da documentarista Fernanda Ligabue feitas em 2016, para a campanha do Greenpeace Salve Tapajós. “Duas imagens eu verifiquei que são minhas, uma é a do amanhecer no rio Tapajós, na aldeia Sawré Muybu (Munduruku), e a outra é um sobrevoo de drone, também no Tapajós, de crianças Munduruku  mergulhando no rio”, relembra Fernanda. 

De acordo com o artigo 5° da portaria 177 da Fundação Nacional do Índio (Funai),  “a captação, uso e reprodução de imagens indígenas dependem de autorização expressa dos titulares do direito de imagem indígena”. Fernanda Ligabue explica que a ONG recebeu autorização da aldeia Sawré Muybu (povo Munduruku) para filmá-los e utilizar o material exclusivamente na campanha.

“A campanha do Greenpeace durou uns dois meses e nós ficamos na aldeia durante esses dois meses. Então todos da aldeia tinha autorizado para essa campanha contra as usinas hidrelétricas do rio Tapajós. O Greenpeace tem direito de uso de imagem para esse fim”, explica a documentarista. “Quando filmamos eles, eles cederam o uso de imagens para uma campanha em favor deles. E agora está totalmente deturpada o uso das imagens”, conclui. 

Segundo o presidente da AcriPará, Maurício Fraga, o vídeo foi feito para rebater a campanha da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “Esse vídeo foi feito para contrapor um vídeo divulgado por uma ONG, que fazia campanha contra o consumo de produtos agropecuários brasileiros. Nosso dever como entidade do setor produtivo e como brasileiro é essa”, conta. 

No começo dessa semana o vídeo feito pela Apib ganhou ainda mais repercussão após Leonardo DiCaprio compartilhá-lo no Twitter em apoio às causas da Amazônia.

Vídeo retirado

O vídeo com a mensagem falsa foi retirado do ar na tarde de sábado (12), após as redes sociais terem sido notificadas pelo Greenpeace sobre violação dos direitos autorais. 

Greenpeace x Salles

Apesar de ter compartilhado campanha com imagens do Greenpeace, o ministro do Meio Ambiente tem problemas legais com a ONG. Em meio à catástrofe das manchas de óleo que poluíram as praias brasileiras em 2019, o  ministro afirmou, também via Twitter, que o Greenpeace seria o responsável pelo desastre. Mais de um ano após o ocorrido, nem Salles e nem o governo Bolsonaro foram capazes de apontar os verdadeiros culpados.

Por essa acusação feita no dia 24 de agosto, o Greenpeace moveu ação por difamação contra o ministro. 

Nota de repúdio do Greenpeace 

Confira na íntegra a nota enviada à reportagem.

Enquanto o governo perde seu tempo propagando vídeos fakes nas redes sociais, a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal estão queimando em níveis alarmantes como consequência da política de destruição do governo, colocando não somente o meio ambiente, mas a economia e a vida das pessoas em risco. Somente na Amazônia, foram quase 30 mil focos de calor em agosto e já são 10.797 nos primeiros 8 dias de setembro, um aumento de 118% em relação ao mesmo período do ano passado. Considerando o problema que o satélite AQUA, referência utilizado pelo INPE como número oficial para as queimadas, está apresentando, esses números devem ser ainda maiores. No Pantanal, a situação é desesperadora. Na primeira semana  de setembro foram de 1.889 incêndios. Em todo o mês de setembro de 2019 ocorreram 2.800 incêndios. Além de destruir nosso patrimônio ambiental, as queimadas colocam em risco o futuro do planeta, já que são fontes de emissão de gases de efeito estufa. Com sua agenda antiambiental, o governo escolhe ignorar, também, que esses incêndios são criminosos e ilegais. 

Talvez o ministro e o vice presidente não estejam sendo sufocados pela fumaça em Brasília, porém, essa não é a realidade de cidades da Amazônia como Belém, Porto Velho e Rio Branco. Com a pandemia, os hospitais no interior da Amazônia já estão sobrecarregados e a fuligem e fumaça das queimadas atacam o sistema respiratório, agravando ainda mais a crise da saúde pública. É suja a tentativa do governo em tentar desviar a atenção do que está acontecendo, ainda mais com a utilização ilegal de imagens de terceiros, desrespeitando as leis de direitos autorais e as regras de uso de imagem. Muitas das imagens utilizadas no vídeo foram produzidas pelo Greenpeace Brasil, que expressamente estabelece a proibição de uso fora de contexto, sem autorização e sem os devidos créditos. Valorizamos e respeitamos o trabalho dos profissionais que fazem o trabalho de documentação, dando sempre o crédito aos profissionais.

Sobre a notificação do vídeo

Nesta quinta-feira (10), ao tomar conhecimento do vídeo com produzido pela Associação de Criadores do Pará (Acripará) negando a realidade das queimadas na Amazônia, o Greenpeace Brasil notificou as principais mídias sociais (YouTube, Twitter, Facebook), e a própria associação, para que retirassem o vídeo do ar por infração de direitos autorais. Muitas das imagens do vídeo são do Greenpeace Brasil e foram usadas sem autorização, fora de contexto, com o objetivo de promover fake news para desviar a atenção pública da grave situação por que passa a Amazônia.

 O Greenpeace Brasil valoriza o trabalho de documentação de seus profissionais, sempre creditando as imagens aos respectivos autores, e zelando para que elas sejam usadas dentro do propósito a que foram produzidas: conscientizar a sociedade e proteger a biodiversidade em todas as suas formas.

*Wanessa Alves e Erick Mota, da Agência Regra dos Terços, especial para ((o))eco

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