“O oceano nos mantém vivos e nós devemos retribuir esse favor”, diz Sylvia Earle

Duda Menegassi
quarta-feira, 7 março 2018 0:15
Sylvia Earle abre os braços em visita ao Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes. Foto: Júlio Cardoso/Projeto Baleia à Vista.

Sylvia Earle é a rara e equilibrada combinação de sonhadora e realista. Com 82 anos e a maior parte de sua vida dedicada aos mares, ela conhece de perto os estragos que causamos. Desde a perda de 90% da população dos peixes explorados comercialmente, como atum, peixe-espada e tubarões, à morte de metade dos corais do mundo. Ela é uma testemunha dessas perdas. Dito isso, ainda assim ela é uma sonhadora. Ela acredita que somos capazes de reverter esse quadro. Porque se há 80 anos sabíamos muito pouco sobre a grande massa azul que cobre 70% do planeta, hoje temos dados suficientes para entender não apenas sua importância, mas a dimensão dos impactos humanos sobre ela. “Agora nós sabemos”, repete incessantemente Earle. “E agora é nossa responsabilidade fazer algo a respeito e proteger os oceanos”, completa. A bióloga marinha que já presidiu a NOAA (Agência americana que estuda os oceanos e a atmosfera) e foi considerada a primeira heroína do planeta pela Times, atualmente percorre o mundo para aconselhar governos sobre a conservação marinha e orientá-los a proteger seus mares. A última parada de Earle foi o Brasil, onde encontrou com o presidente Temer ontem.

Antes de sua conversa com Temer, Sylvia Earle visitou o Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes (SP) e participou do evento de lançamento da versão em português do seu livro “A Terra é Azul – Por que o destino dos oceanos e o nosso é um só?”, de 2009. O auditório lotado que a aplaudiu de pé formado por pessoas de todas as gerações, de jovens estudantes à comandantes da Marinha do Brasil, confirma o status de celebridade mundial de Earle. Ela é a voz e o rosto do movimento pela conservação dos oceanos. Com mais de 7 mil horas de mergulho, talvez não haja no mundo alguém tão íntimo do oceano quanto ela.

Sylvia Earle durante a palestra no lançamento do seu livro “A Terra é Azul”. Foto: Duda Menegassi.

Durante sua palestra, a bióloga frisou que a hora de agir é agora. “Nós temos o dom de saber coisas que antes nós não sabíamos, nem podíamos saber. Essa é uma era de aprendizados, mas também de perdas”, alerta, para em seguida complementar “ainda não é tarde demais”. O caminho para recuperação, de acordo com Earle, depende da criação de santuários marinhos intocáveis. São as zonas de “no-take”, como chama Earle, onde nenhum tipo de exploração é permitida e os ecossistemas marinhos e as populações de peixes podem se regenerar.

Nesse sentido, a proposta inicial dos mosaicos de áreas protegidas marinhas brasileiros no arquipélago de São Pedro e São Paulo (PE) e em Martim Vaz e Trindade (ES), compostos por pequenas unidades de proteção integral abraçadas por vastas Áreas de Proteção Ambiental (APA) talvez seja mais permissiva do que o ideal. APA é a categoria de unidade de conservação com regras mais liberais do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), onde é permitido o uso sustentável dos recursos.

“As evidências mostram: se você tem áreas de uso sustentável, bem, fica bonito no papel, mas não gera o tipo de mudança que causamos quando deixamos um lugar intacto, sem nenhum tipo de uso destrutivo. Você pode tirar apenas fotos, nada mais. O oceano nos mantém vivos e nós devemos retribuir esse favor. E para isso deveríamos criar não pequenas, mas grandes áreas sem nenhum tipo de extração. Atualmente, apenas 3% dos mares do planeta têm esse tipo de proteção”, ressalta Earle.

Apesar disso, Earle pontua que a estratégia de criar unidades de proteção integral (no takes) circundadas por áreas maiores que permitem o uso sustentável “são um passo na direção certa, mas nós precisamos dar passos maiores e mais corajosos para conseguir a proteção total, porque nós temos evidência de que essas áreas de proteção integral realmente funcionam”. Se os mosaicos propostos forem aprovados, mais de 20% do mar brasileiro estará protegido em algum grau para fins ambientais.

“áreas maiores que permitem o uso sustentável “são um passo na direção certa, mas nós precisamos dar passos maiores e mais corajosos para conseguir a proteção total”.

Adiantando talvez parte do discurso que faria frente ao presidente Temer, ela acrescenta: “além de implementar as áreas marinhas propostas, o que mais está na mesa? Quando Obama declarou a Reserva Marinha Papahanaumokuakea [Havaí], eu estava na praia para parabenizá-lo e ele me disse que havia mais tinta na caneta dele. E ele usou essa tinta algumas semanas depois para declarar a primeira área no-take do Atlântico Norte. Talvez o presidente Temer tenha mais tinta na caneta dele também”, provoca.

Mas nem só de presidentes com canetas-tinteiro precisa o oceano. “Ninguém é impotente. Uma pessoa sozinha não pode fazer tudo, mas cada um de nós deve fazer algo”, convoca. E convida também todos a mergulharem e conhecerem por si próprios as riquezas que se ocultam debaixo d’água e que tão urgentemente precisamos proteger.

((o))eco ouviu Sylvia Earle sobre alguns dos principais tópicos em discussão na conservação marinha:

Áreas marinhas de proteção integral

“As pessoas têm a impressão de que quando você tem uma área no-take, o não tem uma conotação ruim, mas na verdade, essas áreas são um presente para todo mundo. Quando você tem lugares que permanecem salvos, os recursos se restauram e se recuperam. Pense no oceano como o coração azul do planeta. Quanto do seu coração você está disposto a proteger? Quanto você está disposto a dar? E no-take deveria significar devolver. Devolver aos oceanos, devolver aos humanos. Se nós queremos ter peixes, sejam vivos ou no seu prato, você precisa garantir que eles tenham santuários intocáveis. E não são apenas peixes, mas sim todas as formas de vida marinha.

Durante sua visita a Alcatrazes, a bióloga foi recebida com continência pela Marinha. Foto: Júlio Cardoso/Projeto Baleia à Vista.

Ter a habilidade de garantir proteção tem que começar com tendo algo para proteger. Nós primeiro precisamos fazer o compromisso de proteger, como uma grande conta poupança para o futuro. Sim, vão haver pessoas que vão tentar burlar essa proteção, mas você não pode proteger o que não existe, então o primeiro passo é reconhecer essas áreas, fazer a declaração ‘esse é um parque azul’. E hoje existem tecnologias que facilitam a fiscalização dessas áreas”.

A Meta de Aichi de proteger 10% dos mares do planeta até 2020

“Apenas nas últimas semanas, houve um progresso tangível no nível de proteção dos oceanos. No México houve a criação da maior área protegida do Atlântico Norte, o Parque Nacional do Arquipélago Revillagigedo, com 150 mil km²; o Chile criou outras 5 áreas protegidas marinhas; Seychelles, no Oceano Índico, declarou a criação de duas grandes reservas marinhas; e agora o Brasil está prestes a consolidar – espero – a criação de dois grandes mosaicos marinhos de proteção. É como uma onda de energia ao redor do mundo despertando pessoas e países para a conservação dos oceanos. Se as novas áreas protegidas marinhas propostas no Brasil foram aprovadas, 20% do Brasil azul será assegurado e o total global talvez chegue à 4%. Ainda não é tarde demais. Não há lugar como o nosso lar e 70% do nosso lar são os oceanos, e nós precisamos protegê-los”.

A proteção do alto-mar

O livro “A Terra é Azul”, de Sylvia Earle, agora disponível em português. Foto: Duda Menegassi.

“As Nações Unidas (ONU) estão finalmente conscientes de que metade do mundo realmente importa e irá dedicar seus esforços para descobrir como proteger grandes áreas desse bem global. Ninguém é dono do alto-mar, está além da jurisdição nacional dos países. E atualmente existem uns poucos países extraindo em excesso no alto-mar, enquanto ele deveria ser um patrimônio regido pelos interesses globais. Se nós pudermos proteger o alto-mar, que é o coração azul do nosso planeta, vamos dar um passo fundamental para proteção dos oceanos. Os países precisam unir forças para assegurar que o alto-mar será protegido porque proteger áreas da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) é apenas o primeiro passo. Nós precisamos pensar em normas e regulações para proteger também o alto-mar. Essa é uma discussão que aconteceu aqui mesmo, no Brasil, durante a Rio+20 [2012]”.

Conectividade de áreas marinhas protegidas

“Algumas espécies marinhas viajam grandes distâncias entre recifes de corais, como os tubarões, por isso também precisamos pensar nessas áreas como peças de uma rede de conservação e não áreas isoladas. Eu chamo essas áreas críticas para proteção do oceano de hope spots, portanto, digo que é preciso criar uma rede de esperança”.

A postura de Trump com relação ao meio ambiente

“Os Estados Unidos como um todo continuam comprometidos com os parques nacionais, que são controlados pelo Sistema Nacional de Parques [National Park System]. Independente do que a cúpula de governo em Washington diz, as pessoas não estão recuando. E os americanos apoiam os parques, tanto em terra quanto no mar”.

 

 

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