Abertura da Estrada do Colono ampliará caçadas no Parque Nacional do Iguaçu, diz pesquisa

domingo, 4 abril 2021 20:31
Destruição de acampamento de caçadores no Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Divulgação / Polícia Federal.

Pesquisadores denunciam que abrir uma via de terra ou asfalto aumentará caçadas e outros impactos no Parque Nacional do Iguaçu. Em busca de capital político, congressistas ignoram decisões judiciais e seguem assinando projetos para cortar ao meio a última grande reserva de Mata Atlântica do interior do país. 

Um dos primeiros levantamentos sobre potencial de caça usando sons em todo o mundo revela que construir uma estrada de 18 quilômetros cortando o Parque Nacional do Iguaçu, no oeste do Paraná, facilitará a matança de animais nativos. Propostas para a obra tramitam na Câmara e no Senado. 

Durante seu doutorado junto à Universidade Nacional de Córdoba (confira o quadro), aprovado no ano passado, a bióloga Julia Martinez Pardo espalhou gravadores atentos a disparos em 91 pontos de florestas entre Brasil, Argentina e Paraguai. Tiros foram captados em 43 locais (47%). 

A maioria dos registros foi em estradas ou trilhas desprotegidas e ao longo de cursos d’água, mas também dentro e nos arredores de reservas ambientais. No Parque do Iguaçu, tiros foram gravados inclusive desde o antigo leito da “Estrada do Colono”. A via de terra está fechada pela Justiça desde os anos 1980. 

Em seguida, Julia Pardo usou fórmulas científicas para estimar as chances de caçadas dentro e fora das áreas naturais. Ela concluiu que o crime cresce quanto mais fácil for o acesso de pessoas ao interior de locais preservados (imagem abaixo), especialmente por rotas pouco ou nada fiscalizadas. 

Por tudo isso, a pesquisadora pede para que não sejam abertas novas estradas nas unidades de conservação regionais.

“A via teria um impacto negativo muito alto na conservação da fauna do parque brasileiro, inclusive de onças-pintadas. Uma estrada nunca é sustentável. Não importa que tipo de estrada seja, ela gera efeitos como aumento de atropelamentos, da caça e da fragmentação de ambientes para numerosas espécies”, ressaltou a bióloga. 

Ao mesmo tempo, pesquisadores de universidades federais e estaduais, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação reforçam que forçar a abertura de uma estrada no parque brasileiro causará estragos ainda maiores. O alerta é de estudo publicado na revista científica AMBIO (Suécia), em julho de 2020. 

“Os danos serão sentidos ao longo de gerações. Modificar ambientes naturais traz perdas significativas para animais e plantas, aumenta atividades ilegais e afeta serviços ecossistêmicos. Chuvas, clima, controle biológico e polinização (de plantas nativas e comerciais) podem ser prejudicados pela modificação da paisagem natural”, destacam os especialistas. Eles pediram para ser identificados coletivamente. 

Já em parecer técnico de setembro de 2019, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade avisou que abrir uma estrada no Parque do Iguaçu afetará diretamente 54 hectares da reserva e que ela será invadida por plantas exóticas e animais domésticos. O parque também sofrerá com poluição sonora e dos escapamentos dos veículos e há risco de derrames de químicos tóxicos transportados pela via.

“A abertura da estrada implicaria em um impacto considerável no Parque nacional do Iguaçu, unidade de conservação de proteção integral, reconhecida como o Sítio do Patrimônio Mundial e considerada uma das maiores maravilhas do mundo, como o agravante dos impactos relativos a fragmentação da paisagem e risco a fauna”, descreve o documento obtido pela reportagem via Lei de Acesso à Informação.

Áreas mais (vermelho) e menos (azul escuro) propensas à caça criminosa na região do Parque Nacional do Iguaçu. Na elipse (preta), o trecho que seria cortado pela “Estrada do Colono”. Imagem: Julia Martinez Pardo / O Eco.

Ponta do lápis

Brasil, Argentina e Paraguai proíbem a matança de animais selvagens, mas na região muitos caçam para comer, vender carnes exóticas e até por lazer. Catetos, queixadas e outras presas de onças-pintadas estão sempre na mira. Sem o alimento natural, os grandes felinos podem ser mortos ao atacar rebanhos. Também são caçados como troféus ou para o tráfico de peles e dentes

Os números não mentem. Forças policiais e ambientais apreenderam 195 itens para caça no Parque do Iguaçu só nos últimos 2 anos, como armadilhas, jaulas, acampamentos, barcos, cevas e saleiros para atrair animais. Também confiscaram cutias, veados e outros bichos mortos, armas e cartuchos disparados. As 31 pessoas detidas no período estão livres.

Especialistas também discordam de uma queixa da população regional quanto ao alargamento de distâncias entre municípios desde o fechamento da chamada “Estrada do Colono”.

Na prática, o trecho entre Capanema e Serranópolis do Iguaçu passou de 50 quilômetros para 180 quilômetros sem o atalho da via ilegal. A “Estrada do Colono” foi recoberta pela verde nas últimas três décadas. Mas, na ponta do lápis, o caminho mais curto pode não ser o mais rápido ou barato, sobretudo para cargas. Na região se produz especialmente soja, frangos e suínos.

“Segundo propostas, a estrada seria usada apenas de dia e por carros pequenos, com velocidade controlada e pagamento da travessia (do Rio Iguaçu) via balsa em horários determinados. Cargas seguiriam pela rota normal, sem redução de custos. Há sérias dúvidas de que o trajeto pelo parque seja mais rápido se forem respeitadas as normas em discussão”, destacaram os cientistas que assinam o trabalho na AMBIO. 

Com tais cartas na mesa, eles apontam alternativas à abertura de uma estrada no parque brasileiro. Pelo menos 20 hectares de florestas seriam eliminados pela obra.

Segundo eles, é possível facilitar e baratear o trânsito de veículos duplicando rodovias ao redor da reserva e isentando ou barateando pedágio para moradores locais. Outras ações para aquecer economias regionais são ampliar o turismo ambiental e rural em áreas públicas e privadas no entorno do Iguaçu e reforçar a produção e venda de orgânicos.

“Há maneiras para se reduzir os problemas sem abrir a estrada, mas parece que destruir uma floresta é sempre o caminho mais fácil e lucrativo. Benefícios individuais ou de pequenos grupos não podem se sobressair a interesses coletivos. A população deve perceber a importância das áreas protegidas e cobrar alternativas sustentáveis de lazer e de renda”, ressaltaram os pesquisadores. 

Marcha legislativa

Projetos de lei para abrir uma via no Parque do Iguaçu alterando a legislação federal para criar a figura das “estradas-parque” tramitam há duas décadas no Congresso. Se forem aprovados, reservas ambientais no país todo poderão ser retalhadas por rodovias, perder tamanho ou capacidade de manter espaços naturais em bom estado.

Um texto está pronto para votação na Comissão de Meio Ambiente do Senado. Uma proposta do deputado federal Vermelho (PSD-PR) tramita na Câmara. Se forem aprovados, dependerão de sanção presidencial para se tornarem leis federais.

Reunido com o parlamentar em 10 de março, o presidente Jair Bolsonaro renovou seu apoio à obra. Informe distribuído pela assessoria de Vermelho e replicado pela mídia afirma que Bolsonaro ligou e pediu apoio político e recursos para a empreitada ao diretor-geral da Itaipu Binacional, o general Joaquim Silva e Luna. 

A empresa não confirmou à reportagem o contato de Bolsonaro e disse não estar envolvida em projetos para abertura de uma estrada no parque nacional. A O Eco também comentou que a obra “precisa ser devidamente estudada pelas entidades representativas de diferentes segmentos da sociedade organizada, sobretudo das áreas de meio ambiente e de turismo”.

Mas em julho de 2019, Silva e Luna declarou à Rádio Cultura de Foz do Iguaçu (PR) que a empresa poderá arcar com a estrada. O aceno veio após reunião com o governador Ratinho Junior. O diretor-geral de Itaipu não tem formação em qualquer tema ligado à Biologia ou conservação da natureza, mas acredita que a “Estrada do Colono” pode ser sustentável. Confira a sonora abaixo.

A Itaipu Binacional financiou uma segunda ponte entre o Brasil e o Paraguai, com 760 metros e orçada em R$ 323 milhões. A obra segue. Como mostramos em março de 2020, uma ponte de 600 metros ligando a “Estrada do Colono” à outra margem do Rio Iguaçu foi estimada em pelo menos R$ 50 milhões pelo Ministério Público Federal.

Enquanto isso, o cenário político federal segue azeitando a aprovação de propostas anti-ambientais.

Capitaneada pelo “Centrão”, bloco político fisiologista sempre buscando benefícios de qualquer governo, a Câmara está mobilizada para liberar a mineração em terras indígenas, afrouxar o licenciamento ambiental e legalizar a grilagem de terras públicas. Reservas ambientais e a conservação da natureza são alvos de aproximadamente 40 propostas no Congresso, levantou este repórter.

Vários projetos cruzarão por uma Comissão de Meio Ambiente da Câmara liderada pela deputada Carla Zambelli (PSL-SP). Membro da tropa de choque bolsonarista, ela defende o uso indiscriminado de armas e acusou ONGs de atearem fogo na Amazônia, sem provas. A parlamentar também mentiu em uma live sobre preservação da Amazônia, desmatamento e regularização fundiária, informou o Fakebook.eco.

Além disso, um balanço da União Internacional para a Conservação da Natureza mostra que o Brasil é um dos países do mundo onde a marcha-a-ré socioambiental tem mais força durante a pandemia de Covid-19. A lista inclui o menor orçamento em 21 anos para a pasta ambiental, ataques redobrados a defensores ambientais e o desmonte de órgãos e ações de fiscalização. 

Tal realidade política põe em xeque os projetos de lei no Congresso que pintam com cores sustentáveis a abertura de uma estrada através do Parque do Iguaçu, ressalta a pesquisadora Julia Pardo. Para ela, a grande maioria dos políticos não tem um interesse genuíno na conservação da biodiversidade, como pede a Constituição Federal.

“O fato de que eles prometem a sustentabilidade deste caminho e, ao mesmo tempo, fazem o possível para diminuir os recursos destinados à conservação ambiental, indica uma falta de coerência. Me parece que eles estão tentando silenciar os vários grupos conservacionistas para que possam construir esta estrada, mas duvido muito que, se a fizerem, ela seja sustentável”, finalizou.

Fã confessa de armas, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) é a nova presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados. Imagem: Reprodução Youtube / Carla Zambelli para a campanha eleitoral de 2018.
ONÇAS NA CORDA BAMBA

A onças-pintadas podem estar com os dias contados na Mata Atlântica do Alto Rio Paraná. Elas sobrevivem apenas em grandes espaços bem preservados, mas a região perdeu 85% do verde original desde 1973, mostra a tese de Doutorado da bióloga Julia Martinez Pardo, que avaliou ameaças e sugeriu medidas à conservação do grande felino. A vegetação nativa encolheu no período de 129,5 mil km2 para 42 mil km2. Os 87,5 mil km2 eliminados equivalem ao município de São Félix do Xingu (PA). O esforço revelou que a agropecuária é a maior fonte de desmatamento regional nas últimas 5 décadas. E o que não desapareceu virou uma colcha de retalhos (mapa). A média de perdas de conectividade ecológica no Brasil, Argentina e Paraguai foi de 84%. Problemas como esses ameaçam a extinção de seis em cada dez espécies de grandes carnívoros no planeta. Todos precisam de grandes áreas íntegras para viver, se alimentar e reproduzir. Predadores como onças controlam as populações de outros animais e mantêm florestas saudáveis. Daí a importância de se restaurar ambientes naturais e de conectar o que resta do verde regional.

Remanescentes fragmentados (verde escuro) de Mata Atlântica somam apenas 15% na região do Alto Rio Paraná (verde claro). Imagem: Di Bitetti et al. 2003, Julia Pardo.

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7 comentários em “Abertura da Estrada do Colono ampliará caçadas no Parque Nacional do Iguaçu, diz pesquisa”

  1. "ASSUNTO ELEITOREIRO"
    *a cada 04 Anos Temos Novas Investidas NESTA QUESTÃO,..ora, Como Conhecedor deste PARQUE TRANS-NACIONAL (no Brasil o Que Esta é na Mira é a EXPANÇÃO AGRÍCOLA/MONO-CULTURA, de Soja a Caça, Tráfico de Animais, e Outros), este IMPORTANTE PARQUE juntamente com o PARQUE NACIONAL DO TURVO são Parques são Parques Estratégicos Para a PRESERVAÇÃO DO QUE RESTA DE NOSSA FAUNA SILVESTRE, neste Contexto deve Acontecer um Movimento Para TOMBAR COMO PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE.

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  2. A abertura dessa estrada será um desastre ambiental. O PNI iria sofrer muito com isso. Por muito menos, recentemente, um ministro da suprema corte paralisou a construção de uma importante ferrovia na Amazônia.
    Apenas um reparo a duas afirmativas do jornalista, uma completamente mentirosa (Zambelli defende o uso indiscriminado de armas) e outra ignorante e preconceituosa na legenda da foto (fã confessa de armas), como se gostar de armas, tal como atletas de tiro olímpico, atiradores desportivos, etc., fosse demérito. E ainda acusa a deputada de mentir, segundo avaliação de um certo "fakebook". Tudo compreensível quando vemos que o jornalista faz parte do Intercept…

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  3. Só se fala em destruir a natureza neste país, e falando sempre que e pra desenvolver, mas que o desenvolvimento. Isso nada mais e que interesse de mineradoras e grileiros.

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