A Travessia das Sete Quedas: uma caminhada pela imensidão do Cerrado

A Travessia das Sete Quedas: uma caminhada pela imensidão do Cerrado

Duda Menegassi*
domingo, 11 junho 2017 18:43
Foto: Duda Menegassi.
Foto: Duda Menegassi.

Certas vastidões só existem no Cerrado. A possibilidade de conhecê-lo de forma próxima, quase íntima, através de uma trilha de longo curso foi um convite irresistível para uma carioca que conhecia o bioma apenas por fotografia. Os 23 quilômetros da Travessia das Sete Quedas, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO), me esperavam. Na saída, logo pela manhã, o nosso grupo ganhou a benção de um casal de araras que cruzou o céu. Começamos bem.

A expedição, a primeira das dez que serão feitas no ano em comemoração ao décimo aniversário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), reuniu aproximadamente 40 pessoas. Para facilitar a caminhada, o grupo foi dividido em times menores. Saí em um dos últimos, com a câmera na mão e o olhar ávido por ver (e registrar) as miudezas da paisagem dos 17 quilômetros que compõem o trajeto do primeiro dia da travessia.

O meu pelotão era formado pelo gestor do Parque Estadual Serra Nova (MG), um monitor ambiental da Reserva Extrativista do Chico Mendes (AC), dois representantes do Instituto Brasília Ambiental e um condutor de turismo especializado em trilhas. Estes três últimos já conheciam a travessia, mas a sinalização e o manejo fizeram todo o trabalho de nos guiar, independente de conhecimento prévio do caminho. A trilha foi planejada para ser autoguiada e o risco de alguém se perder é baixíssimo.

A vegetação é um dos aspectos mais impressionantes do Cerrado. Nos primeiros quilômetros, predominou o verde. Árvores de pequeno e médio porte, assim como arbustos, que encontraram ali, em proximidade com os cursos d’água um local propício para florescer. Estamos no início de junho, época da seca, quando a estiagem praticamente secou os menores afluentes do Rio Preto, o principal curso d’água de Veadeiros. Ainda assim, no caminho passamos por algumas pontes construídas pela administração do parque. O cuidado de manejo nesse trecho inicial reflete o fato de que os primeiros quatro quilômetros da travessia são compartilhados com a Trilha dos Cânions (12km ida e volta), que pode ser feita o ano inteiro. A Travessia das Sete Quedas só é aberta à visitação quando o volume do Rio Preto está baixo suficiente para garantir uma passagem segura.

Grupo se orienta na placa com mapa durante a travessia. Foto: Duda Menegassi.
Grupo se orienta na placa com mapa durante a travessia. Foto: Duda Menegassi.

É preciso cuidado, aliás, para não se confundir com a sinalização. O trecho compartilhado está sinalizado com setas vermelhas, padrão que indica o caminho dos cânions. Na bifurcação que separa as trilhas, uma placa aponta a continuidade do nosso caminho, à direita. Adiante, outra bifurcação, dessa vez ricamente ilustrada com um mapa do percurso e o famoso “você está aqui”, quando somos enfim apresentados às setas laranjas, que acompanham a travessia. Antes de segui-las, entretanto, não resistimos ao pequeno desvio, à esquerda, para conhecer o cânion 1. São dez horas da manhã e o sol começa a mostrar sua força, o que torna o ponto de banho ainda mais bem-vindo. Lá encontramos alguns outros grupos, que saíram antes de nós, já aproveitando a parada.

O atrativo se divide, por assim dizer, em dois. A parte das cachoeiras, de fácil acesso, e a do cânion, em si. Para chegar nesse último é preciso percorrer cerca de 300 metros pelas rochas, rio acima, basta seguir as setas. Eu fui descalça mesmo, ainda com a roupa de banho. O trecho não é difícil, mas exige atenção para não pisar em pedras soltas ou escorregar. O desvio vale a pena quando você se vê entre dois paredões de pedra por onde o rio esculpiu seu caminho.

De volta à travessia, com o espírito renovado e alma lavada, percebemos que nosso grupo ficou, mais uma vez, por último. Não importa, valeu a pena, como diria um poeta português. Sem perder mais tempo, colocamos a cargueira nas costas e o pé novamente na trilha.

Caminhamos por aproximadamente três quilômetros, agora sob o sol impiedoso das 11 horas, até reencontrar outro grupo, já parado debaixo de uma rara sombra, às margens de um trecho volumoso do Rio Preto, e se preparando para mais um mergulho. Existe algo com relação à água no Cerrado, ou talvez seja apenas na Chapada dos Veadeiros, eu não saberia dizer, que a torna irresistível. Talvez seja sua transparência ou talvez apenas uma consequência do forte calor, mas a verdade é que eu mergulhei em toda ocasião em que foi possível durante os dois dias de travessia. E toda vez a água pareceu querer me transformar em peixe, porque a vontade era não sair de lá.

Para aproveitar o pequeno oásis e a fome que, automaticamente bate por volta do meio-dia, montamos o nosso “almoço”. Sanduíches, frutas, barrinhas de cereal, biscoitos, cada um desembalava sua própria pequena refeição, quando o condutor de turismo, Rafael Teixeira, tirou da mochila uma cafeteira e um jogo com cinco xícaras de ferro e perguntou “quem quer café?”. Mineiro e acostumado a conduzir grupos em travessias, ele nunca deixa faltar o cafezinho, não importa a altitude ou a quilometragem. Não bastasse, tirou também um queijo trazido diretamente da Serra da Mantiqueira para acompanhar. Puro luxo. Se eu contar que o açúcar era mascavo, ainda por cima, vão achar que estou mentindo, mas há testemunhas.

O condutor Rafael surpreendeu a todos ao tirar cinco xícaras, uma cafeteira e um queijo da mochila. Foto: Duda Menegassi.
O condutor Rafael surpreendeu a todos ao tirar cinco xícaras, uma cafeteira e um queijo da mochila. Foto: Duda Menegassi.

Com os estômagos cheios e o estoque de cafeína reabastecido – afinal, esse é o combustível dos jornalistas – retomamos a caminhada. Estamos à nove quilômetros do camping e a aproximadamente um quilômetro do ponto onde atravessaremos o Rio Preto. É interessante observar o estilo de sinalização que a equipe do parque adotou para orientar os visitantes sobre qual a melhor direção para cruzar o rio. Em cada margem está uma barra de ferro com 1 metro e meio de altura, pintada de forma zebrada com as cores laranja e preta, que compõem a identidade visual de toda sinalização. Dessa forma, antes de atravessar o leito do rio, o caminhante identifica do outro lado onde ele precisa chegar para continuar a trilha. São menos de cem metros entre as margens, mas que precisam ser percorridos com passos vagarosos e cuidadosos para não escorregar. Eu guardei a minha câmera nem um pouco à prova d’água na bolsa lateral e rezei para que meu costumeiro andar estabanado não resolvesse dar às caras.

Calculando até as minhas respirações, soltei um suspiro aliviado quando cheguei do outro lado com nada molhado, além do sapato – felizmente impermeável. Do lado de lá do Rio Preto, a paisagem começou a ganhar os aspectos de savana mais característicos do Cerrado, com sua vastidão a perder de vista no horizonte. É um exercício de atenção acompanhar como a savana monocromática ganha respingos de cores com flores roxas, laranjas e amarelas. Ou como a vegetação ganha contornos inesperados com palmeiras, como o buriti e a canela-de-ema. Ou mesmo com a presença das fotogênicas sempre-vivas, mais conhecidas como chuveirinho.

Massagem natural nas quedas do Rio Preto. Foto: Duda Menegassi.
Massagem natural nas quedas do Rio Preto. Foto: Duda Menegassi.

O caminho plano transforma a trilha em um verdadeiro passeio a esta altura. Seguimos sem fazer mais paradas, a não ser para repintar as setas e as barras zebradas que desbotaram sob o sol ao longo do último ano. A equipe da unidade faz a manutenção anualmente, sempre às vésperas da reabertura da travessia à visitação, e dessa vez eles ganharam o reforço dos participantes da oficina de sinalização realizada no parque.

Depois de quase oito horas de caminhada, chegamos no camping sob as luzes finais do astro rei. Corri para garantir um bom lugar para assistir ao pôr-do-sol. O espetáculo naturalmente belo foi ampliado pelo espelho d’água que transformou o outrora Rio Preto em rio laranja, rosa e azul. Como boa carioca, acostumada com a etiqueta do Arpoador, aplaudi o show solar. Agora, pensei, é a vez das outras estrelas terem vez. De fato, o céu estrelado dividia seu brilho apenas com a lua crescente. Comemorei o final do primeiro dia de travessia com uma bela macarronada preparada no fogareiro e um brinde com meus companheiros de trilha.

Vale mencionar que no camping existe um banheiro seco. Ganhei uma rápida aula com o engenheiro sanitarista Richard Smith, que acompanhava a expedição, sobre como essa técnica permite que mesmo em lugares remotos não haja contaminação dos lençóis freáticos ou do solo pelo famigerado “número dois”. E também sobre todos os cuidados que precisam haver de manutenção para garantir essa boa funcionalidade. Mas essa conversa fica para uma outra matéria, quem sabe.

O segundo dia

Meus melhores sonos costumam ser dentro de barracas sob o som de cigarras e do vento nas folhas. Com a bateria devidamente recarregada, acordei animada para desbravar os próximos seis quilômetros que fecham a travessia. Antes de colocar o pé na trilha, entretanto, a proximidade do camping com o rio fez outro convite irresistível para um mergulho, com direito a massagem gratuita oferecida pelas quedas d’água. O cronograma do segundo dia, pela quilometragem menor, permite uma certa folga para desfrutar dos atrativos ao longo do caminho.

Chuveirinho na beira da trilha. Foto: Duda Menegassi.
Chuveirinho na beira da trilha. Foto: Duda Menegassi.

Ainda de chinelo, deixei a bota pendurada na cargueira, pois havia sido avisada de que, a menos de 300 metros dali, atravessaríamos o rio pela segunda, e última vez. Alternei os passos nas pedras com pegadas submersas e cruzei o Rio Preto, agora um companheiro conhecido, com mais segurança do que pela primeira vez. A mesma sinalização zebrada indicava o caminho, e segui atrás das setas laranjas. Não sem antes me despedir do curso d’água, claro, e aproveitar o último ponto para abastecer e garantir a hidratação do resto da trilha, pois partiríamos agora em direção oposta a ele.

O segundo dia de travessia, ao contrário do primeiro que é majoritariamente plano, possui alguns trechos de subida. Ao longo do percurso, ganhamos cerca de 200 metros de altitude, conforme medição do meu aplicativo. Nada muito assustador para as panturrilhas, afinal de contas, estamos no planalto central.

A paisagem no caminho ganha contornos inesperados com a presença de rochas nos mais variados formatos que ladeiam a trilha. Com alguma imaginação, é possível ver rostos, objetos e até animais. Me pego em devaneios sobre que tipos de acasos ou de erosões aconteceram ali para lhes esculpirem de forma tão diversa. Como estamos na Chapada dos Veadeiros, alguém sempre sugere a hipótese dos alienígenas – essa conexão extraterrestre faz parte da mística da região.

Ao final desse museu rochoso à céu aberto, a paisagem do cerrado rupestre retorna e a trilha vira um passeio cinematográfico nos últimos quatro quilômetros. A imensidão é quebrada apenas pelos imponentes chapadões e montanhas no horizonte distante. Uma delas, a Montanha da Baleia – nome dado pela sua semelhança à uma – está no território somado ao parque pela ampliação. Enquanto eu fazia a travessia, às vésperas dessa, então apenas possível (e já provável), conquista, eu olhava para essa grande baleia de rocha e solo como um símbolo pela ampliação das fronteiras da conservação. Um símbolo de crescimento e de abertura. Algo que aprendi ao longo da minha curta vivência como jornalista ambiental é que as unidades de conservação (UCs) só conseguirão se fortalecer com o apoio da sociedade. E o primeiro passo é elas abrirem as suas portas e nos convidarem para entrar. Como diz aquela frase feita repetida à exaustão, porém extremamente verdadeira, é preciso “conhecer para conservar”.

De fato, a cada passo que eu dava dentro desse mundo que antes eu só conhecia por fotos, o meu coração gritava em polvorosa “é preciso cuidar desse patrimônio natural! ”. Talvez por ter ouvido o meu clamor, ainda que silencioso, um veado-campeiro se apresentou, como quem diz “apoiado”. Depois de desfilar na frente do nosso grupo, que o acompanhou extasiado entre sorrisos, sussurros e cliques, ele saltitou de volta à camuflagem da vegetação calmamente, como quem sabe que está entre amigos.

Veado-campeiro atravessa calmamente o nosso caminho. Foto: Duda Menegassi.
Veado-campeiro atravessa calmamente o nosso caminho. Foto: Duda Menegassi.

Esse presente no último quilômetro da travessia, quando já podíamos ver à distância a estrada onde finalizaríamos a nossa jornada, fez ainda mais forte em mim o sentimento de dever com a conservação. Quando cruzei o portão que marcava os limites do parque, por volta do meio-dia, sabia que alguma parte de Veadeiros vinha comigo. De fato, voltei para casa com mais de mil fotos da viagem, ricos registros de algo que eu tive a chance de sentir na pele, quando fui apenas mais um ponto de uma paisagem a perder de vista que me fez perder o fôlego.

 

Travessia das Sete Quedas
Onde: Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO)
Distância: 23 quilômetros
Pernoite? Sim. Área de camping com capacidade para 30 barracas.
Para realizar a travessia é necessário fazer um pré-agendamento  no site
(veja o  Guia de Bolso da Travessia, disponível online para mais informações)

 

*Duda Menegassi é jornalista de ((o)) eco e à convite do ICMBio irá acompanhar as dez travessias em unidades de conservação que serão realizadas em comemoração aos dez anos do órgão ambiental.

 

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4 comentários em “A Travessia das Sete Quedas: uma caminhada pela imensidão do Cerrado”

  1. É realmente uma grande tristeza a situação da fauna na região. Os animais ficaram tão raros que conseguir ver algum bicho é motivo para comemorar…

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