Uma ave de rapina com dentes

Peter Moon
quarta-feira, 25 março 2020 11:37
Pelagornis chilensis. Ilustração: ©Carlos Anzures/Museo Nacional de Historia Natural.

Os dinossauros não se extinguiram há 66 milhões de anos. As aves são suas descendentes. Na China, há fósseis de aves de 110 milhões de anos que exibem bicos com dentes. Achava-se que as aves dentadas tinham sumido com os dinossauros. A ideia foi abandonada com a descoberta de um “albatroz” gigante, em 2010. Entre 10 milhões e 5 milhões de anos atrás, este monstro pairava nos céus do Chile.

De asas abertas, Pelagornis chilensis tinha quase 5,2 metros, tanto quanto uma girafa. E possuía dentes, ou melhor, pseudo-dentes, na verdade projeções pontiagudas e afiadas dispostas ao longo do bico. “O fóssil preenche uma lacuna de 100 milhões de anos. As aves dentadas viveram quase até o presente”, diz o paleontólogo David Rubilar Rogers, do Museu de História Natural, em Santiago, um dos autores do artigo científico no qual esta ave extinta foi descrita.

Apesar da semelhança com os albatrozes e os pelicanos, Rubilar diz que o Pelagornis era aparentado dos patos e gansos. E usava seus dentes para comer peixes e lulas. Com seu longo bico e dentes afiados, aquela ave era capaz de sobrevoar imensas extensões de oceano em busca de comida.

Entre 10 e 5 milhões de anos atrás, Pelagornis ocupava um lugar no topo da cadeia alimentar entre as aves dos céus chilenos. Do outro lado da cordilheira, uma outra ave gigante e sua contemporânea, o “condor gigante” Argentavis magnificens, reinava soberano nos céus da Patagônia e do Pampa.

Comparação. Ilustração: Museo Nacional de Historia Natural.

Diferentemente de Argentavis, cujos fósseis só foram achados na Argentina, Pelagornis era uma ave migratória cosmopolita, jargão usado pelos paleontólogos para descrever uma espécie extinta com distribuição mundial. Além do Chile, seus fósseis foram achados nos Estados Unidos, França, Marrocos, Nova Zelândia, Portugal e Venezuela. Em função de todos estes achados, sabemos que a criatura podia alcançar uma envergadura de asas de até 7,4 metros. Trata-se, portanto, da maior ave voadora que existiu, sendo o segundo colocado justamente Argentavis, com envergadura de asas de 6 metros o dobro da envergadura do condor andino (Vultur gryphus), que é a maior ave voadora vivente.

Mas se entre os espécimes conhecidos de Pelagornis o exemplar chileno (com 5,3 metros) não é o maior, ele é de longe o mais completo. Os paleontólogos estimaram que, em vida, a criatura pesasse entre 15 e 28 quilos, muito pouco para uma ave de seu tamanho. “Em combinação com as asas muito estreitas, essas estimativas de baixo peso atestam a alta capacidade de vôo de Pelagornis, que deve ter sido uma das aves com maior eficiência no voo de longa distância,” lê-se no artigo

O fóssil foi encontrado em 2004 por caçadores de fósseis num barranco no deserto do Atacama, norte do Chile. Contrabandeado para a Europa, acabou nas mãos de um colecionador. Ao perceber sua importância, o colecionador vendeu-o por U$ 30 mil ao Museu Senckenberg, de Frankfurt. O paleontólogo alemão Gerald Mayr, coautor do estudo, repatriou o fóssil ao Chile.

No período Mioceno, o litoral do Pacífico da América do Sul deve ter sido tão ou mais piscoso do que o dos nossos dias. Nas mesmas formações rochosas de onde saíram os resto de Pelagornis, os paleontólogos acharam fósseis de uma porção de espécies extintas de pinguins, algumas delas maiores que o pinguim-imperador, o maior existente.

Já o oceano era um território de caça dividido entre o Carcharocles megalodon, um tubarão branco gigante de 18 metros de comprimento (o triplo do tubarão branco atual), e o cachalote Livyatan melvillei, de 17 metros, que exibia na mandíbula fileiras de presas afiadas de quase 40 cm de comprimento.

David Rubilar e o Pelagornis Chilensis. Foto: MNHN/CL.

 

 

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