Soja e silvicultura tornam o Pampa o 2º bioma mais ameaçado do país

Fernanda Wenzel
domingo, 17 junho 2018 17:08
A imagem clássica do Pampa, aqui próximo a Quaraí (RS), cada vez mais rara. Foto: Fabio Olmos

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduy
E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer

(Canto Alegretense, de Nico Fagundes e Bagre Fagundes)

 

A imagem descrita em uma das canções mais tradicionais do Rio Grande do Sul é a típica do Pampa: campo, vegetação rasteira, gado e, no meio de tudo isso, um gaúcho a cavalo. Mas quem viaja hoje por algumas regiões do Estado tem dificuldade de encontrar essa paisagem. Cada vez mais, o Pampa vem sendo tomado por outras culturas, em especial soja e a silvicultura.

O Pampa é um dos seis biomas brasileiros, e o único presente em apenas um Estado da Federação. Além do Rio Grande do Sul, se estende por todo Uruguai e por partes do Paraguai e Argentina. A paisagem campestre, que caracteriza esse bioma, já dominou 63% do território gaúcho. Hoje, mais da metade do Pampa é área degradada. Em termos proporcionais, é o segundo bioma mais devastado do Brasil, perdendo apenas para a Mata Atlântica.

As causas desse processo ficaram evidentes na estudo realizado em parceria entre pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Unilasalle. Após um mapeamento criterioso utilizando imagens de satélite, eles compararam o uso do solo do Rio Grande do Sul em 2002 e em 2009. Concluíram que, neste período, a área de campo encolheu em 23%. São mais de 1,3 milhão de hectares que deixaram de ter vegetação nativa, o equivalente a 26 municípios de Porto Alegre. O comparativo pode ser observado nos mapas abaixo, onde as áreas em verde claro correspondem aos campos. Em verde escuro, estão as áreas de silvicultura, enquanto o rosa mais claro diz respeito às lavouras de sequeiro (formadas principalmente pela soja):

Dos mais de 1,3 milhão de hectares perdidos pelo campo, quase 500 mil foram transformados em lavouras. Outros quase 300 mil tornaram-se florestas cultivadas, principalmente por eucalipto e pinus. As imagens abaixo mostram a evolução destas duas culturas no Rio Grande do Sul. Em vermelho estão as áreas em que a atividade perdeu território. Em verde, as áreas que se mantiveram estáveis, e em azul as áreas onde a atividade se expandiu entre 2000 e 2009.

 

Um dos responsáveis pela pesquisa é Gabriel Hofmann, geógrafo, doutor em Ecologia e professor do Mestrado em Avaliação de Impactos Ambientais da Unilasalle. Ele explica que o período analisado (2002-2009) foi marcado por dois processos decisivos para a deterioração do Pampa: uma política estadual de incentivo à silvicultura, com a atração de grandes empresas transnacionais, e a alta do preço das commodities, que estimulou o cultivo da soja em uma região historicamente dedicada à pecuária. O mapeamento de 2015 está quase concluído, e os pesquisadores adiantam que o processo de deterioração do Pampa continua, ainda que em ritmo menor.

O abandono de uma vocação

Aquilo que na Amazônia e no Cerrado é um problema ambiental, no Pampa é a solução. A pecuária não só convive bem com as espécies nativas como até auxilia na conservação da biodiversidade, explica Eduardo Vélez, pesquisador da Rede Campos Sulinos: “A pecuária no campo é sustentabilíssima. A vegetação campestre evoluiu com grandes herbívoros. Era um ecossistema que já tinha herbívoros no passado, a chamada megafauna, que existiu há dez mil anos. Então quando o gado europeu é introduzido de alguma forma ele substitui o papel funcional que esses organismos tinham. Vários estudos mostram que se for bem manejada [a pecuária], você consegue ter alta produtividade de carne e mantendo a vegetação campestre”.

Ao contrário da maioria das monoculturas, a pecuária no Pampa não necessita de agrotóxicos. Além de ecologicamente sustentável, a criação de gado tem alto potencial econômico. A maioria da vegetação nativa é composta por plantas forrageiras, que garantem uma nutrição de alta qualidade para os animais. Segundo o biólogo e pesquisador da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, Glayson Bencke, faltam políticas públicas que explorem os diferenciais da carne gaúcha: “Tem um grande valor agregado. No resto do planeta cada vez mais o gado é criado em sistemas de confinamento, que geram gases do efeito estufa, concentração de resíduos e a necessidade de plantar milho e outras culturas para fazer ração. Enquanto nós temos aqui uma paisagem inteira que permite uma pecuária de altíssima tecnologia de manejo de gramíneas nativas, com uma carne de excelente qualidade que certamente tem um mercado garantido, inclusive em outros países”.

Pampa: vocacionado para a pecuária. Foto: Secretaria de Turismo, Esporte e Lazer do RS.

Além disso, o clima do Rio Grande do Sul é propício para a criação do gado europeu, cuja carne tem qualidade superior à dos zebuínos criados nas regiões mais quentes do Brasil: “É um total contrassenso. Derrubar floresta amazônica para plantar capins africanos para criar um gado de carne de baixa qualidade”, afirma Glayson.

Mas se a pecuária é a vocação Pampa, por que cada vez mais o gado cede espaço para outras culturas? A explicação fica ainda mais difícil quando descobrimos que o Pampa é uma região de risco para a produção de soja, já que se caracteriza por períodos de escassez de chuvas. No último verão, por exemplo, as lavouras foram prejudicadas pela estiagem. Na cidade de Bagé a estimativa era colher 1,7 milhão de toneladas de soja, mas a safra acabou ficando em 1,4 milhão, segundo dados da Emater. Em Pelotas, a expectativa de colher 984 mil toneladas do grão também foi frustrada, e a colheita ficou em 652 mil toneladas.

Justamente por ser um negócio de alto risco, a produção de soja no Pampa oscila ao ritmo do mercado internacional e da perspectiva de lucro de quem vem de fora para cultivar nesta região: “Quando o preço tá alto, o produtor vai lá, arrenda, lavra, planta e tira o lucro. Quando o preço não está favorável, ele abandona aquela área”, explica Gabriel Hofmann. Mas a terra que o proprietário recebe de volta já não é mais a mesma após alguns anos de cultivo. Segundo Glayson Bencke, na maioria da vezes, o campo é devolvido totalmente exaurido: “Uma área que foi soja tem muito efeito da erosão porque eles cultivam de uma maneira que não é conservacionista. Eles visam tirar o máximo no menor prazo possível. Em um ano tu ganhas bem e nos outros dois tu ganhas mal. Mas daí o arrendatário já está em outro lugar. Quem fica com o prejuízo é o proprietário da terra”.

O resultado é um campo degradado.

Neste processo, muitas espécies nativas se perdem e são substituídas por outras invasoras, como o capim-annoni (Eragrostis plana Nees). Trazido da África, este capim tem qualidade nutricional muito inferior às espécies nativas e já é considerado uma praga no Rio Grande do Sul, como explica Gerhard Overbeck, coordenador do Laboratório de Estudos em Vegetação Campestre da UFRGS: “O capim annoni é a planta invasora mais problemática no bioma Pampa. Ela reduz a produtividade do sistema, e toma o lugar das espécies nativas. É um sintoma das mudanças no uso da terra, uma resposta à degradação ambiental”.

Plantação de soja em Tupanciretã, RS. Foto: Governo do RS/Flickr.

No caso da silvicultura, uma das principais preocupações é com a alta demanda de água das florestas cultivadas, em uma região com recursos hídricos já limitados. Além disso, as árvores reduzem a oferta de luz e impedem o desenvolvimento das gramíneas. Mas para Eleandro José Brun, engenheiro florestal e professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, o maior problema é o manejo inadequado da produção.

Em suas andanças pelo campo, Eleandro já viu proprietários plantarem 10 mil mudas de árvores em apenas 1 hectare. Ele acredita que é possível reduzir o dano ambiental da silvicultura com a diversificação das propriedades: “O cara que tem a floresta plantada, que tenha também a produção de pastagem com a produção de gado leite e de corte, que tenha o seu pomar, um açude para piscicultura, que tenha apicultura, que é tão importante”.

Contraponto

Para o Presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, Gedeão Pereira, falar de “degradação” do Pampa é uma postura ideológica. Para ele, o que está acontecendo é uma mudança no uso da terra no sentido de gerar mais riqueza na região. Gedeão afirma que a soja veio para ficar: “O desafio hoje é fazermos com que tenhamos a convivência cultura da pecuária de corte com as novas tecnologias que estão chegando da soja, e enriquecermos essas duas atividades. E isso é totalmente factível”.

Gedeão Pereira destaca práticas que aliam o cultivo da soja com a pecuária. Quando a soja está perto de ser colhida, o produtor planta sementes de forrageiras e então introduz a criação do gado: “Assim nós temos no período de maior escassez forrageira, que é o inverno, uma forrageira de altíssima qualidade”.

Serra do Sudeste. Foto: Eduardo Vélez.

O presidente da Farsul admite que existem desafios ao plantio de soja no campo em função do alto risco imposto pelas condições climáticas. Por isso, orienta os produtores a seguirem três princípios: o uso da pecuária como segurança, fazer um seguro da produção e investir em irrigação. O outro desafio é em relação aos arrendatários que vem para o Estado, plantam soja por algum tempo e depois vão embora: “Não interessa a ninguém esse tipo de situação. O produtor que vem é pra ficar. Ou então o produtor daqui mesmo”. Segundo o Gedeão, o vai e vem das lavouras é consequência da “inquietude” que ainda existe em relação à produtividade da soja no Pampa, e pode ser superada com mais investimentos em tecnologia.

Um bioma negligenciado

O Pampa foi o último dos biomas brasileiros a ser reconhecido pelo IBGE, o que aconteceu apenas em 2014. Em um país onde a biodiversidade sempre foi associada à imagem da floresta, a paisagem do pampa passou anos sendo negligenciada pela legislação ambiental.  Em 2008, entrou em vigor no Rio Grande do Sul o Zoneamento Ambiental da Silvicultura, que limitou o cultivo de florestas. Mas não existe nenhuma legislação específica para a agricultura além da reserva legal, que deve ser de 20% (na floresta amazônica é de 80%). Mesmo assim, essa área de reserva não precisa ser necessariamente de campo, podendo ser contabilizadas áreas de preservação permanente, como a mata ciliar, na beira de rios, por exemplo.

Em estudo publicado na revista Diversity and Distributions, Gerhard Overbeck e outros pesquisadores mostraram que o bioma Pampa é o que possui o maior Índice de Risco à Conservação na comparação com todos os biomas brasileiros. O índice é resultado da diferença entre a quantidade de áreas degradadas (barra vermelha) e de áreas protegidas pela legislação (barra azul).

Fonte: Overbeck et al (2015).

Mas se engana quem pensa que o Pampa é pobre em biodiversidade. Pelo contrário, são cerca de 2150 espécies vegetais. Um único metro quadrado de campo nativo pode conter mais de 50 espécies diferentes de plantas. Os campos também abrigam uma grande diversidade de animais. São 95 espécies de aves, muitas delas exclusivas das paisagens campestres. Outras 25 espécies de mamíferos habitam os campos: 14 de forma exclusiva. Mas muitos destes animais estão próximos da extinção, como é o caso do veado campeiro e do lobo guará.

Além da biodiversidade, o Pampa presta uma série de serviços ecossistêmicos essenciais aos seres humanos. Segundo Glayson e Gerhard, o campo bem manejado com atividade pastoril é um importante reservatório de carbono, evitando o efeito estufa. Além disso, a diversidade de flores garante a presença de insetos polinizadores, essenciais a diversos tipos de cultivos.

A degradação do Pampa também coloca em risco um potencial turístico ainda pouco explorado. Enquanto mostra uma foto de uma paisagem da Serra do Sudeste do Rio Grande do Sul, Eduardo Vélez comenta: “A gente olha esse relevo mais acidentado e diz: ‘não, isso não é pampa. Pampa não é plano, não é coxilha?’ Mas tem essas regiões que são bem conservadas e pouco conhecidas. Tem um potencial enorme: de turismo de aventura, turismo ecológico, trekking, turismo rural. Para criar parques e reservas também”.

Entre as tantas riquezas ameaçadas do Pampa, Glayson Bencke destaca aquela cantada em diversas músicas, como o famoso Canto Alegretense: “Temos uma cultura do gaúcho que pode ser modificada, ser modernizada, mas ela não precisa ser simplesmente extirpada. Temos uma cultura baseada na criação do gado sobre o campo nativo. Toda a indumentária, as canções, a poesia, etc. Tudo é ligado a essa figura do gaúcho, do Pampa”.

*Edição feita às 21h do dia 17/06/2018. 

 

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6 comentários em “Soja e silvicultura tornam o Pampa o 2º bioma mais ameaçado do país”

  1. Todas os nossos campos e savanas poderiam ter ruminantes sobre elas, uma pena que as pessoas responsáveis pela criação do SNUC, não tiveram a habilidade técnica para admitir outras categorias de manejo que protegesse de alguma forma estas "pastagens" naturais. Infelizmente isto também ocorreu com outras categorias que existiam em áreas úmidas da região sul do Brasil… hoje estão todas convertidas em rizicultura!

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    • A caça esportiva de patos/marrecas poderia ser uma alternativa de manejo, suportando economicamente os banhados para não serem obrigados a converter-se pra rizicultura

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  2. Sem dúvida o bioma Pampa ficou de lado e merece atenção. Venho do meio pecuária e conheço muito bem o campo nativo, mas não acredito que pecuária seja a única solução, porque o gado degrada por três motivos:
    1) o gado alterou a vegetação nativa. O campo era coberto por arbustos (Vassouras, alecrin-da-cerra, carquejas…) e macegas (barba-de-bode, capim-limão, cola-de-sorro, capim-caninha….) e não pouco tinha de Paspalum notatum, Axonopus afinis e outras gramas. Isto pode ser visto na tese do Pott na década de 70. Meu avô falava que os campos eram cobertos de vassoura-branca e vassoura-vermelha. O fogo e o pastejo alteraram radicalmente o ambiente.
    2) o gado degrada nascentes e sangas. Na nossa propriedade eu conheço sangas que ficam a mais de dois metros de profundidade do relevo original, completamente gramadas. Achei que sempre fosse assim, mas pelo relato dos mais velhos fiquei sabendo que era uma várzea e o relevo foi erodindo e formou uma sanga. Em muitas propriedades fica quase impossível tirar o acesso dos animais das nascentes.
    3)Avanço da capim-anoni – É nas áreas alteradas pelo pastejo ou pela agricultura que o capim-anoni se expande. Ele ocupará todo o campo nativo em algumas décadas. Conheço esse capim desde 1968. Arranquei muito. Ele não penetra na vegetação nativa original, sem pastejo. O gado acelera o processo e ainda distribui sementes.
    O grande problema do RS é modo tradicional que se explora a pecuária e a menor capacidade competitiva em relação ao centro e norte do Brasil. A pecuária começou a declinar no RS quando grandes áreas de Cerrado foram abertas e com a chegada da Brachiaria, que se expandiu na década de 80, permitiu que o rebanho nessas regiões fosse aumentado imensamente. No Centro Oeste, pode-se produzir carne tão macia quanto no Sul, basta querer, porém com taxas de lotação e desfrute de 5 a 20 vezes maior que no campo nativo do RS. Com isso, pecuária só irá declinar. É preciso outras fontes de renda. A soja poderá ser uma, a fruticultura pode ser outra. Infelizmente quem manda é quem está ganhando dinheiro com estas atividades. Elas também degradam, mas o poder do dinheiro patrola tudo.

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  3. Sem desmerecer tais ambientes, mas Pampa não é bioma, e sim uma formação aberta da Mata Atlântica, como também o Pantanal não é bioma, e sim um Cerrado que inunda.

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