Sem floresta, o agro não é nada. Entenda a importância dos colossais “Rios Voadores”

Observatório de Justiça & Conservação
terça-feira, 7 abril 2020 9:45
Os Rios Voadores passam sobre nossas cabeças, atravessam estados e países e distribuem chuva e umidade. Crédito: Projeto Rios Voadores.

Imagine rios ainda maiores que o Rio Amazonas, com bilhões de toneladas de água, cortando vários estados brasileiros e passando sobre nossas cabeças. Sim. “Rios Voadores” existem.

O termo descreve um fenômeno real, cujo impacto é gigantesco em nossas vidas e determinante para o equilíbrio do ecossistema e da biodiversidade. Eles são formados por imensos volumes de vapor de água levados pelos ventos, muitas vezes, acompanhados por nuvens. Apesar de não os enxergarmos, os Rios Voadores têm cerca de três quilômetros de altura e milhares de quilômetros de extensão.

A importância desses fluxos de água se popularizou no Brasil após a “Expedição Rios Voadores”, criada pelo aviador e ambientalista Gerard Moss. O projeto foi idealizado depois de longas conversas que tiveram início em 2006 entre Moss e o professor Antonio Donato Nobre. Também contou com a colaboração do professor Eneas Salati e de outros cientistas envolvidos no tema, como José Antonio Marengo, Pedro Dias e Reinaldo Victoria. Gerard Moss voou milhares de quilômetros seguindo as correntes de ar e pegando amostras de vapor de águas para comprovar e registrar, na prática, o que os pesquisadores já haviam descoberto sobre o fluxo e a formação dos chamados Rios Voadores.

Essas correntes de ar e água, invisíveis para nós, passam sobre áreas de campos, florestas e cidades carregando umidade da Bacia Amazônica para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e sul do Brasil. O processo de formação dos Rios Voadores começa originalmente no Oceano Atlântico. A floresta amazônica funciona como uma bomba d’água. Ela puxa para dentro do continente a umidade evaporada no mar. Já em terra, a umidade cai como chuva sobre a mata.

Mosaico de imagens de satélites evidencia, em rosa, o desmatamento mapeado na Amazônia Legal, que afeta todo o ciclo das chuvas. Crédito: Inpe

Com a transpiração das árvores e das plantas, a mata devolve a água da chuva para a atmosfera na forma de vapor. É um ciclo constante, com o ar sempre recarregado com mais umidade. A grande massa de umidade é transportada rumo ao oeste pelos ventos. Parte dela cai novamente como chuva durante o percurso, mas enormes quantidades de vapor de água seguem até se chocar com a Cordilheira dos Andes. Nesse encontro, a cadeia de montanhas recebe uma porção generosa dessa umidade, formando as cabeceiras dos rios amazônicos. Mas ainda há muito vapor de água sendo levado pelas correntes de vento. Ao se depararem com um paredão de quatro mil metros de altura formado pelos Andes, os Rios Voadores fazem a curva e partem em direção ao Sul, rumo a estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Eles também regulam as chuvas em países vizinhos, como a Bolívia e o Paraguai. A chuva trazida pelos Rios Voadores irriga as lavouras, enche rios e represas e, por tudo isso, sustenta a economia brasileira.

“Os Rios Voadores explicam o mistério para a região que vai de Cuiabá a Buenos Aires e São Paulo ser verde e úmida. Esse quadrilátero representa 70% do PIB da América do Sul, com hidrelétricas, indústrias, agricultura e grandes centros que dependem do equilíbrio climático e da provisão de água para existir. Os rios aéreos de vapor que a Amazônia exporta para essas áreas contraria a tendência normal dessa região de ser desértica. Essa imensa usina de serviços ambientais é o maior parque tecnológico que a Terra já conheceu”, explica Antônio Donato Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Científicas (Inpe).

Estima-se que existam cerca de 600 bilhões de árvores na Amazônia. As árvores grandes da floresta têm raízes muito profundas, bombeiam água do lençol freático, a 50, 60 metros de profundidade, e as folhas fazem a evaporação. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) mostram que uma única árvore frondosa, com copa de 20 metros de diâmetro, pode transpirar mais de mil litros de água por dia. Em toda a Amazônia, é um volume que chega a 20 bilhões de toneladas de água diariamente. Uma porção maior que a do Rio Amazonas, responsável por 17 bilhões de toneladas de água.

As imensas correntes de vapor de água são responsáveis também pelo equilíbrio, ou desequilíbrio, das chuvas nas cidades. Crédito: Tiago Latesta – Projeto Brasil das Águas.

O prejuízo do desmatamento

A substituição de florestas por agricultura e pasto, assim como as queimadas e a abertura de clareiras para mineração, provocam alterações dramáticas ao clima da América do Sul. Ao avançar cada vez mais por dentro da floresta, o agronegócio tende a causar a redução da chuva essencial para as plantações.

O impacto humano e predatório sobre a floresta já tem mudado o ciclo das chuvas em todo o país, fato que prejudica o bom desempenho da economia brasileira e o clima global.

O Brasil tem uma situação privilegiada no que diz respeito aos recursos hídricos. Porém, o ciclo da água no país depende da floresta amazônica e, devido ao desmatamento e a diminuição das áreas verdes, o bioma pode ter chegado a um ponto irreversível de recuperação, com consequências muito graves. Satélites do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) provam que muitas áreas na Amazônia já não são mais florestas; viraram savanas.

“A Amazônia produz seu próprio clima, favorável à sua existência e equilíbrio. Com o desmatamento, esse benefício se perde. Estamos transformando uma usina de serviço ambiental em CO2. A conclusão mais lógica é que estamos matando a ‘galinha dos ovos de ouro’. O agravamento do clima, decorrente do desmatamento, é algo irrefutável. Diversas regiões da Terra estão sofrendo impacto semelhante por conta da supressão de áreas verdes. Perdeu floresta, se prepare para um clima inóspito, pois, tirou a árvore, tirou aquele serviço ecossistêmico, que também é muito importante para a sobrevivência da população”, adverte Antonio Donato Nobre.

Ilustração: Tom Bojarczuk.

E, nesse cenário, não é só a agricultura que acaba prejudicada. O desequilíbrio causado pelo desmatamento na Amazônia interfere no clima das grandes cidades. O conceito dos Rios Voadores surgiu também das pesquisas do climatologista José Antonio Marengo, coordenador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Inpe, que trabalha com desastres naturais. Para ele, é preciso observar o que ocorre com a situação climática, pois, no Brasil, as catástrofes naturais estão relacionadas com a água; tanto diante de chuvas intensas que causam deslizamentos de terra e inundações quanto de secas intensas. “Isso nos preocupa. Se houver chuvas mais intensas em áreas vulneráveis como São Paulo ou Rio de Janeiro, aumenta a possibilidade de, no futuro, ocorrerem ainda mais desastres naturais associados a fortes chuvas, como deslizamentos de terra e inundações em áreas urbanas e rurais, por exemplo. No Brasil, esses fenômenos causam a perda de muitas vidas”, afirmou Marengo, em entrevista para a BBC Mundo.

As florestas bombeiam umidade e são fundamentais para que os Rios Voadores sigam seus cursos e distribuam as chuvas de forma equilibrada ao longo do caminho. E os resultados das pesquisas mostram que esses rios são tão vulneráveis às ações humanas quanto os outros rios que conhecemos. Representam um sistema totalmente conectado e dependente da preservação florestal.

 

Republicado do Observatório de Justiça e Conservação através de parceria de conteúdo.

 

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Jornal Justiça & Conservação – Terceira Edição.

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18 comentários em “Sem floresta, o agro não é nada. Entenda a importância dos colossais “Rios Voadores””

  1. Conhecendo humanos em sistema de VIDA predatória como o do capitalismo, penso que só nos resta educar para evitar armadilhas do capital especulativo, que explora e logo abandona local e povo a própria sorte…acho Possível mudar por escolhas mais sensatas

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      • Esses paises desmataram no seculo 17, 18 quando não havia conhecimento, científico co.o temos hoje. Muitos deles promoveram o reflorestamento como a Suecia, a Noruega dentre outros, inclusive, a Alemanha e E.unidos. A ciencia alerta para o que pode acontecer com dados obtidos mediante pesquisas e investimento de tempo, muito suor e dinheiro. Ciencia não e achismo. O Brasil tambem ja desmatou horrores não so a amazonia como tambem outros biomas como a mata atlantica e o cerrado e dia a dia sente-se diferenças no clima. Voce tem visto garoa em São Paulo? não era a terra da garoa? O Rio de Janeiro não teve que replantar toda a sua floresta porque havia se tornado insuportavel viver la devido ao calor? Haviam derrubado a mata atlantica para cultivar cafe.
        Sugiro, sinceramente que voce se informe melhor a respeito, pare com achismos e repense suas posições para o seu bem e de todos nós que habitamos este planeta.

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    • Depois de ver como as coisas andam no Brasil, com todas essas queimadas, seja ano passado, seja esse ano, é difícil imaginar que ainda reste alguma solução, ainda mais vendo como tem gente que ainda apoia esse DesGoverno lixo.

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  2. Poisé eu não entendo, porque os países super desenvolvidos podem remover todas as matas vegetação etcc…para expansão do agro etcc….porque os países super desenvolvidos podem remover nativos seja passivamente ou não…etcc….e o Brasil tem que ficar com esse blabla de amazônia…o mundo vem precionar o Brasil com blabla de amazônia…e o fim da picada….

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  3. Esses documentários onde só presam pela manutenção da floresta, como se o uso de parte da região amazônica causaria problemas gigantescos, isso tem conotação defendida por países que querem se apoderar da região devido a riqueza que lá existe principalmente no subsolo. E essas pessoas que só defendem a preservação sem que o Brasil possa explorar as riquezas que lá existem, estão servindo de massa de manipulação. Ou querem contrariar o governo que defende a exploração econômica sustentável dessa região. Por tudo isso sou mais Brasil, sou mais Bolsonaro.

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    • Desde quando por fogo é explorar de forma sustentavel? Explorar de forma sustentavel é extrair riquezas sem destruição, preservando o que existe para que outra e outras vezes possam ser exploradas. Pela cabecinha de prego que voce tem, não precisava declarar sua ideologia, pois ela é latente nas suas infelizes, exdruxolas e irracionais posições. So um admirador desse verme que esta nesse desgoverno teria esse tipo de posição porque voces são iguais. Pobre Brasil.

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    • Você leu o texto explicativo da importância fa florrsta para o clima, os recursos hídricos e o agronegócio brasileiro? Entendeu? Este é um problema que afeta antes de todos a nós brasileiros. Ficar retrucando que europeus ou o escambau acanaram com sias florestas é inútil! Argumento de criança! Primeiro porque não é verdade, você conhece o interior da Europa, visitou sia natureza longe das cidades? O agronegócio deles é completamente diferente é baseado em minifúndios, bem diferente do nosso. A recuperação de florestas na Alemanha, Escandinávia, no Reino Unido são desconhecidas dos brasileiros, principalmente quando há má vontade. Depois, não se pode comparar um deflorestamento ocorrido há mais de dois séculos com o que seguimos fazendo hoje aqui. Provado o erro pela humanidade, persistir é burrice. Eles reconheceram que erraram, e nós? E vamos parar de usar desculpas para justificar visões equivocadas!

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    • Quem defende o meio ambiente e a manutenção da floresta em pé, não tem interesse no subsolo, simplesmente porque é inviável explora-lo sem a destruição tanto da biomassa quanto do solo propriamente dito. A mineração é a atividade humana mais impactante que existe. Logo, é uma falácia argumentar que ambientalistas estão de olho nos minérios. Isto é um engodo do governo e bolsonaro nem é original, lula dizia o mesmo. Transformar a biodiversidade da floresta em minas, garimpos, plantações de monoculturas e pecuária é a maior imbecilidade humana dos tempos modernos. A floresta esconde muitos principios ativos que a ciência ainda não descobriu, é um laboratorio da vida e da Criação. Onde estão os tementes a Deus? Hipócritas de igrejas caça níqueis e venda de absolvições falsas. E a água? Um dia ainda irão beber urina. Ah! E com mercúrio.

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  4. Estas informações são importantes, são idéias que devem se juntar à outros conhecimentos, que também interferem no clima, nas chuvas, como o fenómeno el niño e lá nina.
    Se a postura política de governos, atual e passados, influenciaram nas ações na região amazônica, cabe a quem tem formação científica reconhecer essa realidade e trabalharem apreciando todos os cenários, todas as idéias, todos os conhecimentos já produzidos sobre o assunto.
    O triste é ver uma indução ao medo, ao temor de uma catástrofe que se abateria sobre todos; ciência, conhecimento, pesquisa, recursos financeiros e humanos existem essencialmente para esclarecer e sugerir atitudes responsáveis da sociedade, não para implantar terror.

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  5. Rios voadores ? Rios são rios, o termo não é científico e sim sensacionalista.
    A floresta amazônica está ainda com infiltração das águas pluviais e evapotranspiracao mais evaporação das águas dos rios a formar chuvas próprias do regime de chuvas da floresta equatorial super úmido. Independem as chuvas sobre a floresta da chegada de frentes frias. No sul do Brasil as chuvas como as da serra do mar estão relacionadas a evaporação das águas dos mares . Os aquecimentos ainda são regionais devido ao desmatamento .regional e local.
    Como é o caso do monte Kilimanjaro onde houve redução da calota de gelo.e o valor ou ilhas de calor nas capitaisetropolitanas.
    Se em Belo Horizonte não se infiltrarem mais as águas pluviais de verão haverá total seca dos rios tais como o Ribeirão arrudas e seus afluentes da sua margem direita. O Ribeirão arrudas secou. Não e mais perene . As enchentes e enxurradas revelam a falta de infiltração e a sequidão de nascentes. Não há chuvas que ao cair sobre rios e represas e até nas veredas do cerrado sejam capazes de preencher veredas e rios a torna los perenes. Tudo depende da manutenção da infiltração nos aqüíferos para a manutenção de nascentes perenes do Brasil tropical semi úmido do cerrado o berço das águas. Ainda que o acesso de vapor d'água em fluxos direcionados para o sul do Brasil que devem ser anuais como o é o regime de chuvas da Amazônia de clima super úmido porque esses rios voadores não tornam o regime de chuvas durante todo o ano aonde quer que cheguem ao sul? No Brasil tropical sub úmido com chuvas de verão dependem desses rios voadores? Há muita informação interessante no texto, mas por favor rios voadores não são rios. Melhor utilizarem termos do rico idioma português como fluxos ou circulação de massas de ar úmidas e quentes como sempre foi denominados outos rios voadores! Né não? A floresta amazônica tem de ser preservada e não são rios voadores a surpreender ou a chamar mais atenção que justificariam a preservação da floresta amazônica .óbvio que no seu entorno regional e até no semi árido nordestino a massa quente e úmida das foresta amazónica espondiam por inundações no nordeste da caatinga. No centro do Brasil as contribuições da evapotranspiração e da evaporação das águas de rios são importantes e isso deve ser reconstruído. Ainda que haja a contribuição das chuvas da floresta amazônica. Apenas a preservação da floresta amazônica é ineficaz para os problemas do Brasil tropical com chuvas de verão e chuvas de inverno. Espero que rios voadores sejam substituídos por nomes apropiados e científicos. Nós brasileiros não somos todos idiotas. Nós poupem de rios voadores . Por favor. Certo?

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    • O termo Rios Voadores não só é aceito na ciência como tmb é utilizado, assim como Rios Atmosféricos que é basicamente sinônimo, da mesma forma as informações contidas nesse texto já foram profundamente estudadas e não tem nada de sensacionalismo, tem muitos artigos disponíveis sobre o assunto, aqui vai um: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_artte

      "O transporte de umidade das fontes oceânicas para os continentes estabelece a conexão entre a evaporação oceânica e a precipitação continental. Nesse sentido, o fluxo de umidade do Atlântico Equatorial associado com os ventos alísios é a principal fonte de umidade para a Amazônia. O transporte de vapor d'água que alimenta a bacia ocorre de leste para oeste durante todo o ano. A Amazônia também se configura uma importante fonte de umidade para o sudeste da América do Sul, região Central e Sudeste do Brasil, e bacia do Prata, sobretudo durante a primavera e o verão. O vapor d'água fornecido a partir da evapotranspiração da floresta é transportado pelos ventos predominantes, e a precipitação decorrente da evapotranspiração aumenta de nordeste para sudoeste na bacia. Parte da umidade é interceptada pelos Andes e transportada através dos JBNs para a bacia do Prata, no qual 70% da precipitação nesta região é de origem terrestre."

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    • Eita! quanta prepotência, heim Dirce? Pra que esse tipo de disputa, mulher? Vai desqualificar as informações publicadas só porque você desconhece a utilização pela ciência do nome "rios voadores"??? Que feio! Mesmo que a ciência não usasse esse nome, que importância tem isso diante do fenômeno? Parece que você está mesmo desinformada! Que pena…

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  6. A informação dos pesquisadores deve chegar aos professores e aos alunos de todas as escolas brasileiras. As crianças podem protagonizar uma mudança de atitude em todos nós adultos. Eles serão as vitimas deste desastre, desta bomba relógio que estamos montando com a maior estupidez e cara de pau. Aqui, no interior do Pará, a nossa Associação ABAA está sentindo na pele o desastre do desmatamento que está matando nossos plantios. Aqui estamos fazendo o dever de casa, montando sítios economicamente viáveis e ecologicamente corretos. Cada um faça a sua parte para o bem do nosso Brasil e da nossa casa comum, o PLANETA TERRA. Ainda não existe "plano B".

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