O mundo perdeu uma área do tamanho da Suíça de florestas tropicais em 2019

Morgan Erickson-Davis, para o Mongabay
quinta-feira, 25 junho 2020 18:14
A perda de florestas primárias no Brasil em 2019 foi maior do que nos últimos 13 anos. Acima, desmatamento no Amazonas. Foto: Carlos Eduardo Young.
    • No último ano, o mundo perdeu cerca de 119.000 quilômetros quadrados de cobertura florestal, de acordo com dados de satélites coletados pela Universidade de Maryland divulgados no começo de junho pelo World Resources Institute (WRI). Quase um terço dessa perda veio de florestas tropicais primárias e úmidas.
    • Brasil, República Democrática do Congo e Indonésia ocupam as três primeiras posições em termos de perdas absolutas de florestas primárias, seguidos por Bolívia, Peru e Malásia. Os dados também mostram algumas histórias de sucesso, com o desmatamento em queda em diversos países como Colômbia, Madagascar, Gana e Costa do Marfim.
    • Para conseguir parar o desmatamento, pesquisadores dizem que o foco deve ser mudar os incentivos que motivam a derrubada da floresta no âmbito local.
    • Pesquisadores também se preocupam em como a crise causada pelo Covid-19 pode afetar as florestas em 2020.

No último ano, o mundo perdeu cerca de 119.000 quilômetros quadrados de cobertura florestal uma área do tamanho do Nicarágua de acordo com dados de satélites coletados pela Universidade de Maryland (UMD) divulgados no começo de junho pelo World Resources Institute (WRI). Quase um terço dessa perda uma área do tamanho da Suíça , veio de florestas tropicais primárias e úmidas, que abrigam a maioria das espécies de plantas e animais do planeta e desempenham um papel importante na regulação do clima.

Uma análise dos dados de 2001 a 2019 mostra um aumento geral no desmatamento de florestas primárias no ano passado em comparação a 2018, encerrando assim uma queda de dois anos consecutivos e se tornando o terceiro ano com maior perda de florestas primárias desde a virada do século. Brasil, República Democrática do Congo e Indonésia ocuparam as três primeiras posições em termos de perda absoluta de florestas primárias, seguidos pela Bolívia, Peru e Malásia. Os dados também mostram algumas histórias de sucesso, com o desmatamento caindo em vários países.

Enquanto o que acontece em 2020 ainda se desenrola, os pesquisadores temem que as histórias contidas nos dados da Universidade, juntamente com os impactos da crise do Covid-19, possam ser o presságio de mais um ano difícil para as florestas do mundo.

Fonte: Global Forest Watch/World Resources Institute.

Fortes influências

Como em anos passados, o Brasil conquistou o primeiro lugar como o país que sofreu a maior taxa de desmatamento geral. Cerca de 46% ocorreram dentro de florestas primárias, com 14.000 km² desmatados em 2019. Com as exceções dos recordes de 2016 e 2017, quando o desmatamento foi alavancado pelos incêndios florestais, a perda de florestas primárias no Brasil em 2019 foi maior do que nos últimos 13 anos.

Em termos de perda geral de cobertura arbórea, o que inclui as florestas secundárias, as florestas secas e também ocasionais plantações de árvores, o Brasil caiu um pouco a partir de 2018, com 27.000 km² perdidos no ano passado. Os dados mostram que o Brasil perdeu 11% de sua cobertura de árvores desde 2000, e a perda de florestas aumentou ligeiramente na Bacia Amazônica como um todo.

As causas por trás do desmatamento no Brasil são muitas, como a exploração de madeira, a mineração, o agronegócio e os incêndios, todos causando enormes prejuízos às florestas do país. Fontes locais dizem que o discurso do presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, está atiçando as chamas e incentivando madeireiros, fazendeiros e garimpeiros a invadir florestas inclusive em áreas protegidas. Os pesquisadores estão preocupados que a perda de florestas vá aumentar em 2020, com incêndios usados para limpar as áreas que já foram desmatadas em 2019 para avanço da agricultura que possam atingir as florestas próximas.

Na sequência está a República Democrática do Congo que perdeu 4.750 km² de floresta primária em 2019 e 12.000 km² de cobertura florestal como um todo no ano passado. Embora tanto a perda de cobertura arbórea geral quanto de florestas primárias tenham diminuído um pouco entre 2018 e 2019, os números ainda estão pairando em torno do pico atingido em 2016-2017.

Um desfiladeiro na República do Congo. Foto: Rhett A. Butler / Mongabay.

A agricultura em pequena escala parece estar impulsionando a maior parte do desmatamento na República Democrática do Congo e em outros países da Bacia do Congo. No entanto, os pesquisadores alertam que uma “nova onda” de desmatamento industrial pode estar no horizonte e que a Bacia do Congo perderá toda a sua floresta primária até o final do século, se as taxas de desmatamento não diminuírem.

A Bolívia teve um ano marcante para o desmatamento em 2019, perdendo mais florestas desde 2001, ano em que a Universidade de Maryland começou a coletar os dados. No geral, o país perdeu 1,3% de sua cobertura florestal no ano passado, com incêndios recordes se espalhando fora de controle na segunda metade do ano. Os incêndios foram sentidos de maneira particularmente aguda nas florestas secas de Chiquitania, no departamento de Santa Cruz, que perderam quase 3% de sua cobertura de árvores no intervalo de alguns meses.

“Pode levar 100 anos para que as florestas da Chiquitania se recuperem”, disse a gerente de projetos da World Resources Institute (WRI), Mikaela Weiss, responsável pela plataforma de monitoramento on-line da WRI, Global Forest Watch [Monitoramento Global de Florestas, em tradução livre], que visualiza os dados da Universidade.

As autoridades atribuem os incêndios à queima intencional para converter florestas em terras agrícolas. Fontes dizem que essa prática aumentou depois que o ex-presidente Evo Morales assinou um decreto, no início de 2019, que expandiu as terras para a produção pecuária e para o setor de agronegócios. Apesar da queda de Morales em novembro, os conservacionistas apontam que a Bolívia pode viver outra temporada de incêndios intensos em 2020.

Outro país que sofreu incêndios recordes é a Austrália. Apelidado como o “Verão Negro”, a temporada de incêndios do final de 2019 e início de 2020 devastou cerca de 186.000 km², matando pelo menos 34 pessoas e potencialmente mais de um bilhão de animais. Pesquisadores dizem que os incêndios danificaram o habitat de 648 espécies ameaçadas apenas no estado de Queensland.

Fogo em Queensland, na Austrália, em 2010. Foto: Wikimedia Commons.

O fogo não é incomum em muitas florestas da Austrália, e algumas das famosas espécies de árvores de eucalipto do país até dependem dele para espalhar suas sementes. Mas a escala e a intensidade da temporada de incêndios de 2019-2020 foram sem precedentes e também afetaram ecossistemas que não são tão tolerantes ao fogo.

“Enquanto os incêndios normais podem queimar a casca de uma árvore, os incêndios do ano passado transformaram as árvores em carvão”, disse Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI.

Pesquisadores dizem que as mudanças climáticas e as práticas precárias de manejo florestal provavelmente contribuíram para a gravidade dos incêndios. O governo do estado de Victoria anunciou recentemente que proibirá a extração de madeira em 2030, mas pesquisadores dizem que permitir a extração de madeira nesse meio tempo abrirá florestas para futuros incêndios.

Pontos positivos

Mais uma vez, a perda de florestas caiu na Indonésia, marcando 2019 como o terceiro ano consecutivo em que o desmatamento diminuiu. A perda de florestas primárias no país embora ainda ocupe o terceiro lugar no ranking mundial teve uma queda significativa, atingindo o menor número desde 2003.

Os pesquisadores atribuem essa desaceleração às políticas bem-sucedidas de proteção florestal adotadas após a crise de incêndio sem precedentes que ocorreu em 2016 no país. No entanto, os analistas do WRI alertam que nuvens e neblina podem ter ocultado alguns eventos de desmatamento que ocorreram no final de 2019, o que significa que o nível real de perda de floresta pode ser maior.

Na África Ocidental, os dados mostram que a perda de florestas primárias caiu 50% em Gana e na Costa do Marfim em 2019, após ter um pequeno aumento no ano anterior. Os analistas do WRI dizem que essa queda provavelmente se deve à eficientes iniciativas e compromissos de conservação dos países e das principais empresas de chocolate para acabar com o desmatamento.

A Colômbia mostrou sua primeira redução na perda de florestas primárias em cinco anos, com uma queda de 35%, depois de bater as taxas mais altas dos últimos 17 anos em 2018, e ficou no patamar mais baixo do país desde 2016. Pesquisadores dizem que a crescente taxa de desmatamento da Colômbia nos últimos anos foi alimentada pela desmobilização do grupo rebelde das FARC, que permitiu que o agronegócio se mudasse para áreas de floresta que antes estavam fora do alcance. Entretanto, dados preliminares para 2020 indicam que o desmatamento na Colômbia pode estar novamente em ascensão, e fontes relatam que pequenos agricultores e grupos armados estão invadindo parques nacionais.

Depois de ganhar a infeliz honra de perder proporcionalmente a maior cobertura florestal em 2018, Madagascar parece ter se recuperado. Os dados mostram que o país reduziu sua taxa de perda de florestas primárias quase pela metade, estabelecendo-se no nível mais baixo desde 2012. No entanto, como na Indonésia, as nuvens podem ter ocultado os eventos de desmatamento no final de 2019 dos olhos dos satélites.

Floresta tropical em Masoala, Madagáscar. Imagem: Rhett A. Butler.

Tempos incertos

“2020 deveria ser o ano em que reduzimos o desmatamento pela metade, mas estamos indo na direção errada”, disse Frances Seymour, uma pesquisadora sênior do WRI e especialista em desenvolvimento sustentável.

Em uma postagem no blog que acompanhou a divulgação dos dados de 2019, Seymour aponta três coisas que podem ter grandes impactos na redução do desmatamento: reconhecimento legal dos direitos e territórios indígenas; aplicação e fiscalização efetiva da lei; e apoio de mercados internacionais e instituições financeiras.

Então, se sabemos o que funciona, por que não está funcionando?

Tudo se resume a dinheiro, ao que parece. Em um post escrito em 2018 em resposta a mais um ano de altos números de desmatamento, Seymour diz que culturas comerciais como soja, óleo de palma e carne bovina recebem uso preferencial da terra, impulsionadas por políticas que incentivam o uso de commodities para alimentação de origem animal e biocombustíveis. As autoridades corruptas fecham os olhos para a exploração madeireira ilegal, com alguns funcionários do governo supostamente envolvidos diretamente no comércio ilegal de madeira. Enquanto isso, as comunidades indígenas, como mostram frequentemente as pesquisas são os manejadores florestais mais eficazes, e muitas vezes não são reconhecidas como donas da terra em que vivem há gerações – e acabam assassinadas quando enfrentam invasores.

“A situação me lembra os muitos filmes que mostram um trem descontrolado: o acelerador da demanda global por commodities foi acionado e os freios da aplicação da lei e da governança indígena foram desativados”, diz Seymour em seu post. “A única maneira de evitar um acidente de trem desastroso é o herói (ou heroína) entrar na cabine do condutor, remover o tijolo do acelerador e pisar no freio de emergência”.

Para apertar os freios de emergência no trem do desmatamento, Seymour diz que a ênfase deve ser colocada na mudança dos incentivos que levam à perda de florestas em nível local.

Seymour também está preocupado com a forma como a pandemia e o desmatamento do Covid-19 podem se relacionar. Ela alerta que os incêndios florestais podem piorar a condição das pessoas afetadas pelo vírus cujos pulmões estão mais sensíveis à poluição por fumaça e diz que os governos não devem relaxar a proteção florestal como forma de se recuperar financeiramente da pandemia. Ela também antecipa um aumento dos meios de subsistência dependentes da floresta à medida que os empregos são perdidos e alerta a necessidade da criação de empregos “amigos da floresta” e transferências temporárias de renda.

“Pensar nas florestas nos esforços de recuperação da pandemia determinará se os números de perdas de cobertura de árvores aumentam ou diminuem nos próximos anos”, disse Seymour em seu post. “Em vez de adiar uma transição já atrasada para economias mais resistentes e de baixo carbono para evitar a crise iminente das mudanças climáticas, os governos agora têm a oportunidade de acelerá-las”.

 

*Essa publicação é original do Mongabay e republicada por ((o))eco através de um acordo de colaboração. Tradução: Duda Menegassi. 

 

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