O maior crocodilo que existiu era baiano

Peter Moon
domingo, 19 janeiro 2020 10:01
Foto: Divulgação

Quem visitar os museus de história natural de Paris ou de Veneza, ou ainda o Museu Australiano em Sydney, poderá apreciar embasbacado os enormes esqueletos de um crocodilo gigante chamado Sarcosuchus. Trata-se do maior crocodilo que existiu. O bicho viveu no tempo dos dinossauros, no período Cretáceo inferior.

Entre 130 e 110 milhões de anos atrás, o sarcosuchus dominava os rios e lagos do que são hoje o Nordeste brasileiro e o Saara ocidental. À época, aquelas regiões ainda se encontravam unidas. Faltava pouco para a América do Sul e a África terminarem de se separar, dando lugar ao Atlântico Sul.

Os primeiros fósseis de Sarcosuchus, duas mandíbulas parciais e um punhado de dentes, foram encontrados no século 19 na região da Baía de Todos-os-Santos. Em 1867, nos arredores de Salvador, o naturalista americano Charles Frederick Hartt (1840-1878) coletou alguns dentes bem grandes de jacaré. Os fósseis foram enviados a Othniel Marsh (1831-1899), um dos pioneiros da paleontologia americana. Marsh os descreveu no American Journal of Science, em 1869, como pertencentes a um crocodilo gigante extinto, o Crocodylus hartii (uma homenagem a Hartt).

Passaram-se 80 anos até que fossem descobertos novos vestígios do bicho, o que aconteceu a 6 mil quilômetros da Bahia, no coração do deserto do Saara. Entre os anos 1940 e 1950, durante suas viagens de prospecção pelo deserto, o paleontólogo francês Albert-Félix de Lapparent (1905-1975) achou alguns dentes fósseis e placas ósseas de um crocodilo gigante. Em 1966, os fósseis foram estudados pela sobrinha de Lapparent, France de Broin, e por Philippe Taquet, ambos do Museu de História Natural de Paris, que batizaram a espécie de Sarcosuchus imperator, o imperador dos crocodilos.

Foto: Divulgação

Dez anos depois, ao estudar os fósseis do Crocodylus hartii brasileiro achados por Hartt e preservados no Museu de História Natural de Londres, Taquet percebeu uma semelhança impressionante entre aqueles dentes e as presas do sarcosuchus africano. Assim, C. hartii perdeu o “C”, passando a se chamar Sarcosuchus hartii.

Mas aquelas não foram as únicas descobertas de fósseis de sarcosuchus. Nos anos 1980, na região de Aratu (BA), foi encontrada uma mandíbula parcial e alguns dentes, enviados para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Em setembro de 2018, estes fósseis foram presumivelmente destruídos no grande incêndio que envolveu e consumiu o grande museu de história natural carioca. Restaram apenas suas fotos.

No entanto, a descoberta mais espetacular de todas veio apenas nos anos 1990, quando o paleontólogo americano Paul Sereno, da Universidade de Chicago, encontrou nas areias do Níger, no Saara, um crânio quase completo com mais de 1m60 de comprimento, assim como 20 vértebras (do pescoço, tronco e cauda), outras tantas placas ósseas que ficavam sob o couro do bicho, e um fêmur.

Comparando as dimensões de todos os fósseis conhecidos (da Bahia e do Saara) com aquelas dos crocodilos viventes, Sereno e colegas conseguiram estimar que, quando vivo, um sarcosuchus alcançava 11,5 metros do focinho à cauda.

Sarcosuchus tinha simplesmente o dobro do tamanho do maior crocodilo vivente (e também o maior réptil vivente), o crocodilo de água salgada da Austrália, um macho graúdo podendo chegar aos 6 metros.

Estimou-se ainda que sarcosuchus pesaria até 8 toneladas, o mesmo que um elefante africano e meio! Ao seu lado, o crocodilo australiano –com seus máximos 1.300 quilos – mais pareceria uma lagartixa hiperdesenvolvida.

Ilustração do Sarchosuchus imperator. Imagem: Bob Pratt.

Como predador de topo dos ecossistemas onde vivia, Sarsosuchus podem ter tido uma dieta generalizada, o que incluía vastas quantidades de peixe, e a predação de quaisquer animais que se aventurassem em suas águas como tartarugas, outros crocodilos menores, pequenos dinossauros como o Santanaraptor (2m50), um membro da família dos velociraptores que viveu na Chapada do Araripe há 110 milhões de anos. Por falar no Araripe, os maravilhosos pterossauros que habitavam seus céus, caso se aproximassem muito da água, também poderiam acabar na barriga do mega-predador.

Como as expedições de Sereno tinham o patrocínio da National Geographic Society, com base na informação fornecida pelo estudo dos fósseis, paleoartistas fizeram uma réplica do sarcosuchus como era quando vivo, há 130 milhões de anos. A réplica foi batizada de SuperCroc, e fez parte de documentário televisivo e de uma exposição que rodou o mundo, passando pelo Brasil em 2002.

De lá pra cá, modelos in vivo do sarcosuchus começaram a pipocar pelo mundo nos lugares mais inusitados, como em shopping centers de Hong Kong e Singapura, numa praça bucólica alemã ou em parques de dinossauros como o Dinosaurier Park, perto de Hannover.

Há inclusive estúdios de paleoartistas na Europa que oferecem réplicas in vivo com 12 metros para quem estiver disposto a pagar 20 mil euros por uma delas – frete e taxas de importação não inclusas.

E no Brasil, onde estão nossas réplicas de sarcosuchus? Se as tivéssemos, nossas crianças ficariam fascinadas. Ficariam igualmente orgulhosas ao saber que o maior crocodilo que existiu era baiano. Ao apreciar as formas de vida do passado, iriam aprender a respeitar, valorizar e lutar pela conservação das espécies viventes, ameaçadas pela extinção em massa movida por nossa própria espécie.  

 

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