O dilema de conviver com sucuris

quinta-feira, 21 julho 2016 4:09
Anaconda verde (Eunectes murinus). Foto: LA Dawson / Wikimedia Commons
Sucuri verde (Eunectes murinus). Foto: LA Dawson / Wikimedia Commons

Pelo menos oitenta espécies de serpentes já foram registradas nos diversos ecossistemas pantaneiros, nenhuma delas tão emblemática como as duas sucuris: a respeitável amarela (Eunectes notaeus) e a imensa verde (E. murinus), ambas temidas e admiradas por sua poderosa força e dimensões avantajadas!

As duas espécies são fáceis de distinguir: variam quanto ao tamanho, aparência, hábitos e distribuição. A sucuri-amarela ou sucuri-do-Pantanal é menor em tamanho e menos pesada que a sucuri-verde, mesmo assim fêmeas mais velhas alcançam 3,7m de comprimento e 30kg! Sua coloração de fundo vai do amarelo vivo – nos jovens – ao verde oliva ou marrom escuro – em indivíduos
mais velhos. Ao longo de todo corpo e cauda das sucuris-amarelas existem manchas pretas que atravessam o dorso de um lado ao outro, em forma de sela. A espécie ocorre somente em áreas que
inundam anualmente, influenciadas pelas cheias do Rio Paraguai, nas regiões próximas às fronteiras entre Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina.

“É preciso evitar a associação entre a presença de gente com comida farta e fácil”

A sucuri-verde ou anaconda, por sua vez, é a maior espécie de serpente do continente sul-americano e uma das maiores do mundo, podendo medir mais de 5m e pesar até 100kg! A coloração de fundo dessa sucuri vai do verde oliva ao preto, sendo as manchas escuras menores e de formato circular, dispostas a cada lado do corpo. Tem distribuição muito mais ampla do que a sucuri-amarela, ocorrendo em rios e outros corpos d’água, em boa parte do Brasil e em países vizinhos, em áreas com influência da Amazônia e do Cerrado. No Pantanal, entretanto, é rara, sendo muitíssimo mais provável “topar” com uma sucuri-amarela durante passeios pela região.

As sucuris são predadoras: para sobreviver, elas matam e consomem outros animais. Como outros predadores, elas têm um importante papel a cumprir nos ambientes que habitam: o de controlar as populações de suas presas, incluindo pragas potenciais para o homem, como ratos.

Nenhuma das duas sucuris é serpente peçonhenta, ou seja, elas não produzem toxinas capazes de matar. Sua estratégia – conhecida como constrição – consiste em envolver a presa com seu corpo e apertar até que o coração pare de bater. Embora sempre se pense em sucuris como predadoras de animais grandes, como bois e capivaras, essas serpentes consomem muitos tipos diferentes de presas. Em algumas regiões do Pantanal, alimentam-se principalmente de aves semiaquáticas e pequenos mamíferos. Já em um banhado do norte da Argentina, descobrimos que um terço das presas das sucuris-amarelas são ratos! Elas também podem capturar répteis – como jacarés e lagartos – e até mesmo peixes, ovos e carniça. Isso explica porque, muitas vezes, elas se aproximam ou até mesmo atacam pessoas na beira d’água, quando estão limpando peixes ou lavando utensílios com cheiro de carne e vísceras! Ambas as sucuris têm visão limitada e bom olfato. Para elas, uma mão humana cheirando a peixe é peixe…

Sucuri-amarela. Foto: Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sustentable da provincia de Corrientes
Sucuri-amarela. Foto: Ministerio de Ambiente y Desarrollo Sustentable da provincia de Corrientes
“As duas espécies de sucuris são predadoras de visão limitada e bom olfato. Para elas, a mão de um pescador cheirando a peixe é peixe e, por isso, elas podem atacar pessoas por engano”

Em áreas naturais, sucuris são animais tímidos, que tendem a evitar o contato com humanos. Em áreas rurais ou locais muito frequentadas por turistas e pescadores, contudo, as sucuris podem ter menos medo e frequentemente associam a presença de gente com fontes de comida farta e fácil. No entorno de habitações humanas, como sedes de fazenda e retiros, há animais domésticos como porcos, galinhas, patos e cães, além de restos de animais mortos. Os animais domésticos costumam frequentar sempre os mesmos lugares, em busca de água e comida. No trajeto, deixam
trilhas de odor no ambiente, facilmente captadas pelas sucuris.

Outra crença popular em relação às sucuris diz respeito à frequência dos ataques a pessoas. Imagens de filmes fictícios e exagerados – como Anaconda – estão fixadas no imaginário coletivo, mas não representam a realidade. Ataques a pessoas por sucuris são, na verdade, bastante raros e nunca houve qualquer morte confirmada. Nosso grupo de pesquisa estudou 330 casos de interação entre sucuris e humanos e somente em um caso houve um ataque não provocado. Mesmo assim, a pessoa se salvou. Em outros dois casos, as sucuris só atacaram depois de serem incomodadas.

Os pantaneiros, naturalmente, não gostam quando seus animais domésticos ou de estimação são mortos pelas sucuris. Mas existem maneiras de diminuir as chances de enfrentar problemas desse tipo, em lugar de simplesmente eliminar as serpentes. Nossas principais recomendações são:

  • Não alimente as sucuris – direta ou indiretamente. Embora ninguém ofereça alimento a uma sucuri, esses animais podem aprender a associar habitações pantaneiras com comida, quando encontram restos de peixes e carcaças de animais com frequência. Sucuris já foram vistas, por exemplo, consumindo cabeças de pacu descartadas no processo de limpeza dos peixes. Muitos acidentes acontecem quando uma sucuri é atraída pelo odor dos peixes ou louça sendo lavada na beira de rios, baías e corixos. A serpente se aproxima sem ser percebida e repentinamente tenta abocanhar aquilo que cheira como alimento.
  • Supervisione animais de estimação que circulam livremente. Sucuris são, muitas vezes, culpadas por gatos ou cães desaparecidos e nossas pesquisas indicam que, de fato, elas frequentemente comem esses animais. Mantenha os animais de estimação cativos ou ao alcance da vista, o tempo todo. É mais seguro para eles, além de evitar que eles se tornem predadores de outros animais da fauna pantaneira, como pequenas aves.
  • Verifique sempre as condições dos galinheiros, tapando buracos e falhas na tela. Isso evita que as sucuris entrem e comam galinhas, patos e seus ovos. Evite construir galinheiros muito perto da água, pois as fezes e as penas que caem na água podem atrair sucuris a grandes distâncias.

A captura e a manipulação inadequada, sim, costumam resultar em acidentes. Nesses casos, geralmente elas mordem, pois sucuris empregam a constrição principalmente para se alimentarem e não para se defenderem. Ainda assim, quando muito provocadas e sem chances de escapar, morder ou constringir, essas grandes serpentes simplesmente escondem a cabeça entre as voltas do corpo. Fazem isso de uma forma tão apertada e eficiente que formam uma verdadeira “bola” ou “nó” e só desfazem o emaranhado muito tempo depois de a perturbação cessar.

Everton (autor) e a sucuri-amarela. Foto: Masahiro Yasuda, JICA/JWRC
Everton (autor) e a sucuri-amarela. Foto: Masahiro Yasuda, JICA/JWRC

Nos mesmos 330 casos de interações entre sucuris e humanos estudados, contamos 51 sucuris mortas pelas pessoas! Assim, embora seja compreensível o medo dos humanos em relação a estas
predadoras selvagens, as sucuris certamente têm mais razões para temer os homens do que o contrário. Para citar outros tipos de acidentes, é muitíssimo mais alta a probabilidade de fatalidades
causadas por picadas de abelha ou pela queda de raios do que por um ataque de sucuri!

Nunca é demais lembrar que animais selvagens não podem ser legalmente capturados no Brasil, a não ser por profissionais com uma licença especial. Logo, predadores ou não, todos os animais silvestres – incluindo as sucuris – devem ser tolerados. Em caso de persistência das interações e de problemas com animais domésticos ou de estimação, a sucuri pode ser removida por pessoal especializado, geralmente bombeiros, biólogos ou médicos veterinários.

O animal removido deve ser corretamente identificado e, depois, solto em um ambiente apropriado para sua espécie (uma sucuri-amarela provavelmente morrerá se for solta em rios da Amazônia ou do Cerrado, por exemplo). Além disso, é preciso que a distância em relação ao local de captura seja superior a 50 quilômetros, pois serpentes são conhecidas por retornarem a um local de “comida fácil” se a distância for inferior a isso.

Matar a sucuri não resolve a questão, pois deixa o território livre para a chegada de outras serpentes, atraídas pelo mesmo tipo de comportamento humano. E ainda pode trazer problemas com a lei. Recentemente, pescadores foram processados pelo poder público após incomodar uma sucuri que havia se alimentado e estava impossibilitada de fugir, em um rio no Pantanal.

As sucuris são um símbolo comum no folclore brasileiro. Aparecem nas obras de grandes escritores, como Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Castro Alves. Estão entre os mais adaptáveis répteis de nossos ecossistemas e são ícones do Pantanal. A sucuri-amarela é uma das espécies mais procuradas pelos turistas estrangeiros que visitam o Pantanal para observar a fauna local. Em
Bonito, no Mato Grosso do Sul, há quem pague um bom dinheiro para “topar” com uma sucuri-verde debaixo d’água!

É muito mais efetivo e, certamente, mais humano, aprender a conviver com as sucuris, por caminhos que minimizem o conflito, em lugar de sumir com animais tão emblemáticos de nossas planícies pantaneiras!

 

Esta é uma republicação da revista Ciência Pantanal Vol.2, da Wildlife Conservation Society Brasil. Clique aqui para acessar a publicação original WCS

 

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3 comentários em “O dilema de conviver com sucuris”

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