O boi é “bombeiro” do Pantanal? Chefe da Embrapa distorce fatos ao associar queimadas à retirada de gado

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segunda-feira, 12 outubro 2020 15:21
Evaristo de Miranda, Jair Bolsonaro e o então ministro da Secretaria de Governo, Santos Cruz. Foto: Alan Santos/PR

Em entrevista à Rádio Bandeirantes, o chefe-geral da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda, associou as queimadas que já devastaram mais de 10% da cobertura vegetal do Pantanal à política de preservação que, segundo ele, vigorou nos últimos 20 anos. Miranda afirma que o gado foi retirado de grandes áreas para a criação de reservas como a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Sesc Pantanal e que isso seria uma das principais causas de incêndios na região.

O argumento do chefe da Embrapa de que o “o boi no Pantanal é um bombeiro” é o mesmo usado por um grupo de produtores rurais em encontro com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em agosto. “Há 20 anos estamos brigando contra esse modelo, que foi para expulsar o pantaneiro da sua origem. Sabe como se preserva o Pantanal? Com o homem e o gado pantaneiro. (…) Esse modelo de não poder criar gado é a maior coisa para queimar o Pantanal. Se não botar o boi, esse Pantanal não vai viver mais”, disse um dos fazendeiros a Salles no encontro.

Verificamos as afirmações de Evaristo de Miranda, apontado como “guru ambiental” de Bolsonaro.

“Um assunto fundamental, que a mídia tem evitado tratar, é o boi como bombeiro (…) Quando o boi come o capim, quase não fica massa vegetal para queimar quando chega a estação seca. (…) E isso acontece em toda a região. O boi está lá há quatro séculos. Então (…) existe um equilíbrio lá entre o boi, a vegetação, o uso da terra. Agora, quando a pecuária declina, por razões econômicas, de competitividade etc., quando se retira o boi, como se retirou de grandes reservas que se criaram na região, reservas ecológicas, a RPPN do Sesc Pantanal, o que acontece nesses lugares, tirando o gado e cercando? O capim cresce muito e acumula muita massa vegetal. Na hora em que pega fogo, é um fogo muito intenso, que destrói árvores, mata a fauna. (…) Mesmo que ele não tenha começado dentro da área preservada, mas quando ele entra na área preservada, aí temos realmente uma desgraça. Uma das coisas para melhorar essa gestão do fogo e dos incêndios é realmente a gente discutir a política agrícola e ambiental na região. Porque a política dos últimos 20 anos, de considerar que tem que tirar o homem do Pantanal para preservar, não está dando bons resultados. Ela coloca muito em risco essas áreas. É claro que não é a única razão, mas fogos intensos ocorrem nas áreas onde não tem pecuária, em áreas preservadas. (…) Quando se retira o boi, para cada boi pode arrumar 100 bombeiros pelo menos.”

Falacioso. Pela lógica de Miranda, quanto mais boi, menos fogo. No entanto, dados oficiais para as últimas duas décadas indicam que não há correlação direta entre as variações nos números de rebanho e de focos de calor no Pantanal, conforme gráfico a seguir:

Fonte: IBGE – Pesquisa Pecuária Municipal (22 municípios de MT e MS) / Inpe – Focos de calor no bioma Pantanal

Os dados de rebanho são de 22 municípios que pertencem ao Pantanal mato-grossense e sul-mato-grossense – não há dados disponíveis específicos para o bioma e nem sobre bois eventualmente retirados de áreas destinadas à preservação da vegetação na região. Os números mostram que o rebanho nos municípios se manteve praticamente estável de 2003 a 2018, último dado disponível da pesquisa do IBGE, com flutuações entre 8,5 milhões e 9,5 milhões de cabeças. No mesmo período de 16 anos houve grande variação dos focos de calor.

Segundo dados do Mapbiomas, entre 1999 e 2018 a cobertura de vegetação no Pantanal caiu 10% e a área de pastagem exótica cresceu 64% sobre áreas naturais, apesar da alegação de que o modelo de preservação teria retirado o pantaneiro e o gado da região. Se considerado o mesmo período 1999-2018, o rebanho de bovinos no Pantanal aumentou 38%, de 6,9 milhões para 9,58 milhões de cabeças.

No caso da vegetação, houve queda de 4,8 milhões de hectares em 1999 para 4,4 milhões de hectares em 2018 no bioma. Já a área de pastagem aumentou de 1,4 milhão de hectares para 2,3 milhões de hectares no mesmo período.

Fonte: Dados da Coleção 5 do Mapbiomas, lançada em 28/8

Se o aumento do gado tivesse ocorrido somente sobre novas áreas de pastagem, teríamos uma ocupação de 0,3 cabeça por hectare, que é baixíssima, mas ele não se deve apenas à expansão de pastagens exóticas, e sim também à melhoria dos sistemas tradicionais de criação e manejo do gado, avalia o engenheiro agrônomo Eduardo Rosa, que coordena os estudos sobre Pantanal no Mapbiomas.

Segundo ele, isso reforça a ideia de que não é necessária a conversão de ambientes naturais para a implantação de extensas áreas de pastagens exóticas no bioma.

Para Fabio Roque, pesquisador e professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Evaristo de Miranda e uma parcela de proprietários rurais da região insistem numa dicotomia ultrapassada entre produção e conservação, que não reconhece a importância dos serviços ecossistêmicos inclusive para a própria manutenção do gado e da produção rural no Pantanal.

O pesquisador avalia que “qualquer explicação que tenta criar um culpado pelo fogo na região é simplista”. “O padrão de focos nos últimos 20 anos, que são os dados que temos disponíveis, não é tão trivial de explicar. Existe uma dinâmica sócio-ecológica-climática que é um quebra-cabeça. Aparentemente, o tempo de estiagem é o principal fator, depois disso a quantidade de biomassa do ano anterior que foi acumulada é importante, depois a distância de estradas pode ser um fator importante, conectando com o pulso de inundação, e também a quantidade de gado, que explica só uma parcela dessa variação. O gado tem um papel na redução de biomassa, mas a questão é saber qual é a quantidade de gado sustentável para manter essa dinâmica funcionando, sem perder biodiversidade, entre outros fatores”, diz Roque.

Em Nota de Esclarecimento, o Sesc Pantanal, maior RPPN do país, criada há 24 anos, rebateu acusações feitas durante o encontro de produtores rurais com o ministro do Meio Ambiente e defendeu que as discussões sejam amparadas em “dados verídicos emitidos pelos órgãos competentes”.

“O Sesc Pantanal esclarece que, enquanto propriedade privada, optou que a RPPN seguisse o perfil primitivo do Pantanal, que não tem gado, porém, não questiona a atuação pecuária da região. Ao contrário, reconhece a importância econômica da prática. A instituição, portanto, não impõe seu modelo de gestão ambiental nem considera pertinente que outro modelo seja imposto para a RPPN, visto que se trata de áreas privadas. A reserva, as fazendas que praticam a pecuária, as comunidades tradicionais pantaneiras e indígenas são capazes de ocupar este território, que é patrimônio natural da humanidade, e conviver harmonicamente nele.”

O Sesc Pantanal também afirma que nenhum incêndio começou dentro da RPPN, “como relatado equivocadamente durante a visita do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles”. “Do total já queimado em Barão de Melgaço e Poconé, apenas 12% da área queimada corresponde à RPPN.”

No Pantanal, 95% das terras são privadas (apenas 4,6% do bioma está protegido por unidades de conservação).

Análise do LASA-UFRJ sobre a área queimada feita em conjunto com o Prevfogo do Ibama mostra que não foi atingida apenas uma região específica: o fogo se espalhou de norte a sul do bioma, nos dois estados, mais próximo da fronteira com a Bolívia e o Paraguai.

Fonte: LASA-UFRJ/Prevfogo

A ocorrência de incêndios no Pantanal está associada à sua antropização. Com a ampliação da pecuária a partir de extensas áreas de pastagens exóticas, aumenta-se o uso do fogo para fazer a limpeza dessas áreas, aponta o coordenador do Mapbiomas. O manejo da pastagem com fogo para eliminar o excesso de biomassa, quando sai de controle, é outra fonte de incêndios, que são agravados pelo clima seco.

O boi também maneja o capim, mas a ausência dele não é a principal causa de queimadas, até porque nem todo o Pantanal tem gado e mesmo assim pega fogo, diz Rosa. Um dos principais problemas na região, segundo ele, é a substituição da pecuária tradicional nos campos naturais por uma pecuária sobre áreas desmatadas, que converte áreas de floresta, savanas e campos naturais em pastagens com espécies exóticas.

O processo de alagamento e seca no Pantanal faz com que, na cheia, a gramínea natural cresça, depois essa gramínea seca e vira material combustível para o fogo. Mas o grande problema é a junção de fatores, avalia o engenheiro agrônomo, lembrando que o bioma depende do Cerrado e da Amazônia, além dos rios que nascem no Planalto: anos mais secos resultam em vegetação mais seca, com mais biomassa para combustão e maior tendência de incêndios. Questões como alteração do regime de cheias e períodos de seca prolongada aumentam os fatores que provocam incêndios no Pantanal. Neste ano, por exemplo, o aquecimento anormal do oceano Atlântico – o mesmo que está causando a temporada anormalmente ativa de furacões no Caribe – está provavelmente ligado a maior risco de incêndio no Pantanal e na bacia do Prata, segundo Douglas Morton, pesquisador do Centro Goddard de Voo Espacial, da Nasa, especialista em dinâmica do fogo na América do Sul.

 

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