Novo documentário de Jorge Bodanzky alerta sobre contaminação por mercúrio na Amazônia

Sucena Shkrada Resk
segunda-feira, 9 março 2020 18:58
Indígenas Munduruku foram visitados por expedição de saúde sobre contaminação de mercúrio, entre outubro e novembro de 2019. Foto: Divulgação.

Após experiência de mais de cinco décadas cobrindo a Amazônia, o fotógrafo e documentarista Jorge Bodanzky se lança em mais um novo desafio: a direção do documentário Amazônia, a nova Minamata?, com produção da Ocean Films. O filme traz como mensagem central a contaminação por mercúrio decorrente da extração de ouro em garimpos ilegais e do acúmulo do metal pesado nos rios da região. O cineasta expõe uma reflexão sobre o problema fazendo uma ponte com a tragédia da contaminação em Minamata, no Japão, na década de 50. 

O eixo central do roteiro é resultante do acompanhamento da expedição com o médico Eric Jennings e pesquisadores da Fiocruz na Bacia do Alto Tapajós, no Pará. O grupo visitou o território indígena dos Mundurukus e ribeirinhos. “O que mais me chama a atenção e considero importante é a questão humana. A gente nota que as pessoas na Amazônia são praticamente abandonadas pelo resto do Brasil”, afirmou.

Uma versão promo de 30 minutos do documentário foi apresentada, em fevereiro, em colóquio amazônico, em universidades, no Reino Unido. O longa-metragem deve ser concluído até o final do ano.

Confira a entrevista completa que ((o)) eco fez com o diretor Jorge Bodanzky sobre o documentário, a sua relação com a Amazônia e sua leitura quanto às pressões socioambientais sobre a conservação e os povos da região

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((o))eco: Você trata do tema amazônico desde os anos 1968, e continua até hoje. Conte um pouco como começou esta trajetória e qual é sua motivação.

Jorge Bodanzky: Em 1968, eu trabalhava como fotógrafo freelancer para a Revista Realidade [revista lançada pela Editora Abril em abril de 1966, que circulou até março de 1976] e aí me mandaram acompanhar um repórter na então estrada Belém-Brasília, que era de terra na época. A matéria era sobre denúncia de dinheiro falso e acabou não saindo. Enquanto o jornalista apurava as informações, eu fiquei esperando em um posto de combustível, por dois dias. Observei a movimentação no local, que à noite, funcionava como um prostíbulo, em que caminhoneiros levavam as meninas. Resolvi, então, fazer um filme que constasse esse drama. Em 1974, na fase da Ditadura, consegui o apoio da televisão alemã, para dirigir “Iracema, uma transa amazônica”, com Orlando Senna. A partir daí, fiquei muito conhecido na Europa, e me chamam para trabalhos até hoje quando precisam falar sobre a Amazônia. É uma região que eu gosto e por isso resolvi fazer este novo documentário.

Quanto à questão socioambiental, o que te chama atenção até hoje, no bioma amazônico?

Bastidores da gravação do documentário. Foto: Divulgação.

O que mais me chama a atenção e considero importante é a questão humana. A gente nota que as pessoas na Amazônia são praticamente abandonadas pelo resto do Brasil. Ninguém se preocupa como os povos ribeirinhos, os indígenas e toda a população que está lá. A Amazônia é na maior parte do tempo vista de fora para dentro e não de dentro para fora. Ninguém para pra perguntar sobre o que elas pensam e querem. Então, este é o meu ponto de vista para enxergar a Amazônia.

O que te motivou a fazer o documentário Amazônia, uma nova Minamata?

Este documentário surgiu em função de outro trabalho que dirigi, em parceria com Fabiano Maciel, há um ano e meio para HBO, uma série de seis capítulos, de uma hora, chamada Amazônia: uma estrada para o passado, com produção da Ocean Films, que conta a história dela até hoje. Nos bastidores, em um dado momento, a gente estava em uma grande reunião de caciques indígenas, que estavam discutindo a possibilidade de barrar uma hidrelétrica no Tapajós e estava junto o médico neurocirurgião Erik Jennings, de Santarém. Fiquei curioso para entender o que ele estava fazendo lá e ele me contou que estava pesquisando o envenenamento por mercúrio na área da Bacia do Alto Tapajós. Assim fiquei sabendo da dimensão do problema. A gente sabe que mercúrio faz mal, que vem principalmente do garimpo. Mas eu não tinha ideia, apesar de cobrir por 50 anos a Amazônia, sobre a gravidade. O mercúrio é um indicador de injustiça socioambiental. Então, eu resolvi junto com o meu produtor iniciar este projeto tão importante. Conseguimos fazer a primeira etapa de gravação, que corresponde a boa parte do documentário, acompanhando a expedição de saúde na região, com Eric e pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Vocês exibiram uma versão mais reduzida do documentário em universidades em Londres, agora, em fevereiro. Por favor, fale a respeito. 

“A gente sabe que mercúrio faz mal, que vem principalmente do garimpo. Mas eu não tinha ideia, apesar de cobrir por 50 anos a Amazônia, sobre a gravidade”.

Fizemos um promo de 30 minutos, a partir de um convite que surgiu em fevereiro deste ano, para apresentar o projeto na Universidade de Oxford, em um colóquio sobre Amazônia, no qual participaram lideranças indígenas, como o cacique Raoni Metuktire; Davi Kopenawa, dos Yanomami, e a deputada federal Joênia Wapichana. Esta versão do documentário também foi apresentada na Universidade de Londres, entre outros locais. O filme completo, um longa-metragem, ainda está em fase de conclusão. Deveremos gravar também no Japão, recebemos um convite do Museu de Minamata e deveremos levar uma liderança indígena para conhecer o que aconteceu lá e trazer a informação às aldeias daqui, mas estamos ainda em fase de captação de recursos. Até o final do ano deve estar pronto. Estamos divulgando este promo, que tem a função de alarme sobre esta questão, por meio de convites em eventos, como este, na Inglaterra. Os interessados podem fazer contato com a Ocean Films. O que importa é poder apresentar este problema urgente.

O que mais te impactou durante o acompanhamento da expedição de saúde na Amazônia?

Conhecer o trabalho do professor Eric Jennings e de médicos-pesquisadores da Fiocruz, a territórios indígenas do povo Munduruku e a ribeirinhos, na Bacia do Tapajós, que já acompanham a questão a contaminação do mercúrio há anos, foi muito importante. O levantamento é bastante abrangente e é feito também em aldeias remotas da região. Esta bacia foi invadida por garimpeiros e tem hoje uma das situações mais graves, além de outros locais da Amazônia, que já sofrem esta pressão. Os primeiros sintomas das consequências desta contaminação são mais visíveis nesta região. Tudo nos deixa apreensivos, porque não tem solução fácil.

Exibição da versão promo do documentário, em colóquio sobre a Amazônia, na Universidade de Oxford. Foto: Divulgação.

Esta situação se restringe somente à Amazônia brasileira?

Não é só um desastre no Brasil, porque os rios já vêm poluídos com mercúrio e outros metais pesados da Venezuela, da Colômbia, das Guianas e do Equador. É um problema panamazônico. Nestes locais, como aqui, os garimpos ilegais também estão descontrolados. Mesmo que a gente limpasse os rios aqui, teríamos de limpar nas nascentes. A complexidade ainda é maior, porque não bastaria só tecnologias já existentes para evitar a contaminação pelo garimpo na água. A Amazônia também tem mercúrio em seu solo, em quantidades pequenas. Mas à medida que há o aumento do desmatamento, esse mercúrio segue para os fundos dos rios, que são assoreados. As bactérias que se encontram lá, que não precisam de oxigênio, o transformam em mercúrio inorgânico – metilmercúrio – que é extremamente venenoso, e é ingerido pelos peixes pequenos, que são alimentados pelos peixes maiores, que são consumidos pelo ser humano. Outra questão são as barragens, que criam lagoas extensas, e essa falta de correnteza facilita o depósito desse metal pesado, onde há criatório de peixes.

De acordo com as pesquisas da Fiocruz, crianças e mulheres indígenas, nesta região, têm apresentado maior quantidade de mercúrio. Esse é um dos pontos mais preocupantes, segundo os especialistas. O que tem a dizer a respeito? 

O problema afeta mais as mulheres grávidas, porque transmitem este mercúrio na gestação e depois, pelo leite materno, aos bebês.  Já começam a vida contaminados, com comprometimentos, como déficit de inteligência, motor; enquanto o habitante adulto leva de 20 a 30 anos se contaminado aos poucos, e os sintomas demoram mais a aparecer.  O que choca é a situação geral, pois também não podemos alarmar as pessoas para não comerem peixes, pois é a principal alimentação que têm e é considerada, a princípio, saudável. Daí falar para comprarem comida industrializada, que pode ser muito pior?

No documentário, onde identificaram que ficam estes garimpos ilegais?

Os garimpos ilegais têm sido observados principalmente em rios de áreas de conservação (parques), e territórios indígenas. Estas áreas são invadidas, poluídas e a contaminação acontece, prejudicando estes povos locais, que vivem na região. Deveria haver uma ação conjunta do Governo, com Exército, na dimensão do que está ocorrendo hoje. Mas o que vemos são decisões governamentais que visam legalizar os garimpos, mas teriam de tirar todos que estão em unidades de conservação.

Por que você decidiu fazer a conexão com a contaminação que ocorreu em Minamata, no Japão, na década de 50? 

Médico Eric Jennings, em expedição de saúde sobre contaminação por mercúrio, à aldeia Munduruku, na Bacia do Alto Tapajós, entre outubro e novembro de 2019. Foto: Divulgação.

Porque foi um acidente que ficou muito conhecido mundialmente. O fotógrafo W. Eugene Smith (1918-1978), que casou com uma japonesa, fez uma série de fotos e vídeo nos anos 70, que chocaram o mundo, sobre os efeitos. A indústria química Chisso, no Japão, por mais de 20 anos, desde os anos 30, despejou metilmercúrio sem tratamento, na baía de Minamata e contaminou os peixes, que contaminaram milhares de pessoas, e começaram a apresentar problemas neurológicos e cerca de mil, chegaram a falecer. Mas os primeiros efeitos foram observados em aves e gatos. Depois desta tragédia, os japoneses adquiriram uma experiência de quatro décadas de lidar com o mercúrio. Por decisão judicial, a empresa Chisso e a Câmara de Kumamoto foram responsáveis por dragar a lama e recuperação do solo em torno do local, que levou décadas. Conseguiram descontaminar a baía, mas as consequências aos contaminados continuam até hoje, porque demora muito tempo para apresentar os sintomas bem visíveis. Então, a conexão se justifica, pelo alerta do que está começando a acontecer na Amazônia.

Com sua vivência de mais de 50 anos na Amazônia, qual é sua leitura dessas últimas décadas principalmente com relação às UCs, TIs e povos da floresta?

Nestes anos, não mudou nada. Os problemas já existiam e só pioraram, como trabalho escravo, ocupação desordenada, o desmatamento, as queimadas, a construção de estradas, o descaso quanto à população local, a prostituição infantil. Diversos governos não tiveram um projeto abrangente que levasse em conta a população local. O que é novo é que existe maior visibilidade sobre isso e que as comunidades indígenas e a sociedade civil, como um todo, estão mais organizadas. Elas expõem seus problemas, mas não têm força para se opor a projetos de ocupação completamente alucinado, e estão à deriva nesta questão. Existe uma pressão sobre estas populações, com o garimpo, por exemplo, com cooptações e que causam divergência entre os próprios povos indígenas.

Qual é a mensagem do documentário quanto a outros países da Panamazônia?

Estes países têm os mesmos problemas que ocorrem aqui, com os garimpos ilegais, com as barragens. Só que cada um tem uma forma diferente de lidar com isso. O que é em comum entre todos, é este descontrole da ocupação da Amazônia. A consequência disso é a degradação da floresta e o envenenamento dos rios.

Veja o trailer de “Amazônia, uma nova Minamata?”:


 

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