Menos de 2% dos esgotos na bacia que abastece o Grande Rio são tratados

Bernardo Araujo (texto), Marcio Isensee e Sá (fotos) e Julia Lima (infografia)
quinta-feira, 26 março 2020 13:19
Manchas de óleo na superfície da lagoa de captação da Cedae, próxima à desembocadura do Rio Poços. Foto: Marcio Isensee e Sá

Com dificuldade, o barco vai irrompendo a aglomeração de gigogas, revelando uma parte da lagoa que recebe um aporte direto de um dos rios vindos da Baixada Fluminense. A cor da água aqui é escura, o mau cheiro toma conta do ar, manchas de óleo e pequenos detritos são visíveis na superfície da água. O cenário na captação que abastece a Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu, em Nova Iguaçu, reflete os descaminhos do flagelo da falta de saneamento básico. Menos de 2% dos esgotos gerados na bacia hidrográfica do Guandu, nos municípios da Baixada, são tratados, o que impõe altos custos à Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae). ((o))eco apurou que a Cedae poderia economizar até R$ 100 milhões por ano caso houvesse saneamento básico no ponto da tomada d’água da ETA Guandu. Isso representa 15% do que a companhia gasta em produtos químicos no mesmo período.

Para entender a dinâmica da água que chega às torneiras de 9,5 milhões de moradores do Grande Rio, ((o))eco fez uma viagem pela lagoa de captação da ETA Guandu. À primeira vista, não haviam sinais evidentes de todo o esgoto que chegava até a lagoa de captação na manhã do dia 16 de março. Chegamos lá pela primeira vez às 6h, quando o sol começava a iluminar a água e toda a baixa vegetação do entorno. Diversas espécies de aves nadavam ou sobrevoavam de perto a superfície do lago artificial formado pelas águas do Guandu. Um gavião caramujeiro passou baixo à nossa frente. Tudo isso mudou, no entanto, tão logo chegamos à desembocadura do Rio dos Poços, um curso hídrico que nasce em Paracambi e deságua moribundo, como se pedisse socorro, no Guandu.

“Em agosto do ano passado, eu e mais oito pescadores daqui viemos tentar tapar esse esgoto que já estava prejudicando a lagoa há tempos,” disse Vitor Ambrozioni, que nos conduzia pelo passeio. O esgoto em questão era o rio em si. “Tentamos usar sacos de farinha de trigo, umas estacas… mas com as nossas mãos não deu”.

Vitor, 36 anos, é um pescador do bairro de Lagoinha, em Nova Iguaçu, e havia gentilmente se voluntariado para nos mostrar a região em seu pequeno barco de pesca. Esse é o mesmo lugar onde houve a proliferação de cianobactérias que gerou a crise da água “com cheiro e gosto de terra” do início do ano. Um problema que, de acordo com Décio Tubbs, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ) e ex-diretor do Comitê Guandu-RJ, já era uma tragédia recorrente:

“Desses eventos de proliferação de algas, este deve ser o terceiro ou quarto. Isso tudo é recorrente, não é novidade nenhuma. A novidade agora é que este último episódio foi um pouco mais grave, e chegou a afetar a Zona Sul e outros bairros do Rio”.

O Rio dos Poços é apenas parte do problema. Vindo do norte da lagoa, ele eventualmente se encontra com o Rio Queimados — outro rio extremamente poluído — antes de desaguar no local. Na margem leste da lagoa desemboca também o Ipiranga, o terceiro pequeno curso d’água que abastece a local. Ao se encontrarem com Rio Guandu, esses rios de pequena vazão — cada um verte um pouco mais de 1 m3 de água por segundo — são motivo constante de preocupação para os operadores da estação de tratamento de água.

Desembocadura do Rio Poços na lagoa de captação da Cedae. Foto: Marcio Isensee e Sá

A influência desses rios parece insignificante perto da vazão de mais de 40 m3 por segundo da ETA, mas segundo Paulo Carneiro, pesquisador do Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da Produção (Sage/Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador da versão mais recente do Plano Estadual de Recursos Hídricos, eles encontram em uma situação tão precária que põem em risco a qualidade da água que chega aos copos de todos os cidadãos.

“As bacias que captam água dos rios Poços, Ipiranga e Queimados não tratam 1% da produção de esgoto”, diz Paulo. “Aquilo é esgoto in natura lançado na rede fluvial”.

Maior estação do mundo tem 65 anos

Concluída em 1955, a ETA Guandu é um impressionante feito de engenharia. Ela é a estação de tratamento que trata o maior volume de água no mundo, aproximadamente 45 mil litros de água por segundo. Desde o gradeamento que marca o início do processo de tratamento, até seus desarenadores, floculadores e seus gigantescos decantadores, a água — maculada por todo este esgoto vindo da Baixada Fluminense — passa por uma verdadeira alquimia em escala industrial. Mas toda essa bruta sofisticação vem a um custo alto.

A ETA utiliza, diariamente, cerca de 260 toneladas de produtos químicos. Graças às bombas usadas para passar à água através de elevatórias, o complexo utiliza cerca de 46.000 MWh de energia: o suficiente para abastecer uma cidade de 160 mil habitantes. Apenas com o uso de coagulantes, são gastos cerca de R$ 15 milhões de reais por ano. O custo total de operação (tratamento e energia) chega a quase R$ 700 milhões em 365 dias. Ainda que este intrincado processo seja capaz de transformar esgoto em água potável durante a maior parte do tempo, sua versão atual está se tornando defasada. Neste ano, os técnicos da Cedae foram forçados a despejar carvão ativado na caixa de entrada da estação, a fim de neutralizar os efeitos da geosmina. Como ((o))eco mostrou com exclusividade na primeira reportagem desta série, a Fiocruz detectou a presença de cianobactérias potencialmente tóxicas no manancial da ETA.

Onde fica e como opera a ETA?

“Não é a primeira vez que questões como a da geosmina ocorrem”, lamenta Paulo Carneiro. “E isso é uma evidência de que um sistema convencional não responde ao tratamento de uma água que já não tem mais condições aceitáveis de captação para potabilidade.”

Este não é um problema que começou a ocupar as mentes de pesquisadores e técnicos recentemente. Muito pelo contrário. Soluções para sanar a questão vem sido propostas há décadas. “No final da década de 70 surgiu uma primeira proposta de fazer um desvio bypass dos rios que chegam nessa lagoa,” acrescenta Paulo, “jogando essa água para depois da tomada d’água da ETA.”

Muitos especialistas, como o ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA) Jerson Kelman, consideram a criação desse desvio indispensável (leia a entrevista completa com Jerson ao fim desta reportagem). Ainda assim, essa manobra é tida como um paliativo, uma solução temporária que pode ajudar até que o verdadeiro problema que assola Guandu e ameaça a qualidade da água da Grande Rio seja atacado.

“A solução é simples”, afirma Décio. “É sanear a bacia. Não vai se chegar a lugar nenhum se este saneamento não for feito. Toda essa discussão vem de muito tempo atrás. A própria Cedae quando fez o seu Plano Diretor para Região Metropolitana lá em 1995 já estava ciente dos problemas. Os próprios técnicos da Cedae alertavam a respeito do problema de saneamento.”

A solução definitiva para os problemas locais de poluição, no entanto, demanda uma quantidade razoável de tempo e capital para ser implementada. Após dois anos de intensivo estudo, o Comitê Guandu-RJ elaborou o Plano Estratégico de Recursos Hídricos, que traz um protocolo para a recuperação de toda a bacia — que engloba 12 municípios. O projeto, a ser executado ao longo de 25 anos, custaria cerca de R$ 2 bilhões — R$ 1,4 bilhão dos quais destinados à questão do esgotamento. Pode parecer muito, mas o custo de ignorar estes problemas por mais quatro décadas é a saúde das águas e da população de quase toda a Região Metropolitana.

Para Décio, a raiz do problema são anos de negligência política. “Os planos de recursos hídricos da Bacia do Guandu, o plano estadual de recursos hídricos, os planos de saneamento… estão todos prontos. Eles dizem o que precisa ser feito. A Cedae tem esses planos construídos para a maior parte da Bacia do Guandu. Só falta a vontade política para implementar. O custo dessas obras são imensas, e elas demoram anos. Mas é a única água que a gente tem”.
No dia 10 de março de 2020, ((o))eco entrou em contato com a Cedae pedindo autorização para entrar na ETA Guandu para conversar com técnicos e especialistas e fazer imagens do processo de tratamento da água. No entanto, não obtivemos resposta. As fotos desta reportagem foram feitas com o auxílio de drone.

“O Rio não tem saída: precisa preservar esse manancial”, diz Jerson Kelman

Emanuel Alencar

Jerson Kelman. Foto: Arquivo pessoal

Ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), da Light e da Sabesp – companhia de saneamento de São Paulo -, o engenheiro Jerson Kelman supõe ser bastante alta a conta que a Cedae paga pelo custo de não se fazer uma obra para transferir a foz dos rios Poços, Queimados e Ipiranga para depois da captação da ETA Guandu. Quanto exatamente, só a Cedae sabe – e nunca divulgou. Mas Kelman estima em R$ 100 milhões por ano. A medida tem sido apresentada por especialistas como um importante paliativo desde 1979, mas jamais saiu do papel. Em janeiro deste ano, a Cedae informou que as intervenções custariam R$ 90 milhões e exigiriam 720 dias (quase dois anos). É, portanto, uma obra plenamente viável.

Em entrevista a ((o))eco, Kelman, 72, um dos maiores estudiosos em saneamento básico do país e professor da Coppe/UFRJ, faz uma aposta: acredita que a economia com produtos químicos e eletricidade que a Cedae alcançaria se o manancial fosse despoluído seria inclusive suficiente para garantir todo o tratamento de esgotos que drenam, hoje, in natura, na lagoa onde a companhia faz a captação. Porém, como a implantação do sistema levaria alguns anos, a construção do bypass (desvio) também se justifica, desde que feito em prazo bem curto.

((o))eco – As obras que visam a alterar os fluxos dos rios Poços, Queimados e Ipiranga, garantindo melhor qualidade à lagoa de captação da ETA Guandu, em Nova Iguaçu, nunca saíram do papel. O senhor defende a ideia?

O desvio se justifica. É claro que se justifica. Inclusive quando eu era diretor técnico da Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (entre 1991 e 1994) propusemos esse desvio [hoje a Serla foi incorporada ao Instituto Estadual do Ambiente do Rio]. Na situação atual, a Cedae tem um gasto extra para tratar a água em relação ao custo que teria se o manancial fosse despoluído. Não sei qual é essa diferença de custo e temo que nem a Cedae saiba. Mas suponho que seja algo como 7 centavos por metro cúbico. A conta é mais ou menos a seguinte: se Cedae gasta, por exemplo, R$ 700 milhões por ano com situação atual, ela gastaria R$ 600 milhões por ano se o manancial fosse limpo.

((o))eco – A empresa diz que vai, enfim, fazer esse bypass. E que a obra custa R$ 90 milhões com duração de quase dois anos. A conta fecha. E por que não foi feito?

Nunca entendi. Mesmo quando se olha a questão puramente sob o ponto de vista econômico, tudo indica que faria sentido ter feito [a obra] décadas atrás. E tenho dificuldade em entender qual a razão de uma obra relativamente simples precisar de dois anos para ser feita. Acima de tudo, é muito importante lembrar que essa obra não anula a necessidade de sanear a área de drenagem da ETA. É preciso garantir que essas áreas tenham não só um sistema de coleta e tratamento de esgoto, mas também um sistema adequado de coleta e destinação final do lixo. Caso contrário, o esgoto pode ter um tratamento adequado, mas a carga poluidora resultante de coleta deficiente de lixo continuaria fluindo para a tomada de água da ETA. Trata-se de tarefa de complexidade institucional maior do que executar o bypass e por isso demorará alguns anos para estar concluída.

((o))eco – Em termos geográficos e de qualidade de tratamento, como o Rio se posiciona em relação a outras metrópoles brasileiras?

Por razões geográficas, São Paulo tem uma situação mais típica, a população de mais de 20 milhões de habitantes é abastecida por oito mananciais. O Rio, imprensado entre o mar e a montanha, tem como única fonte o Rio Paraíba do Sul. Por isso temos uma situação atípica, todos os ovos numa única cesta. No caso do Rio, não tem saída. Temos que preservar esse manancial.

((o))eco – Preservar o manancial é tratar esgotos. Quanto custaria isso?

Essa segue sendo a prioridade. O Comitê Guandu aponta serem necessários R$ 376 milhões para sanear sub-bacias ali, onde vivem 225 mil pessoas. Se o custo da obra fosse amortizado ao longo de 20 anos, com juros de 6% ao ano, seriam R$ 33 milhões por ano. Mas tem também os custos de construção e operação das estações de tratamento de esgotos (ETE), conservadoramente estimados como em R$ 27 milhões por ano. Então o total sairia por R$ 60 milhões por ano ou 4 centavos por metro cúbico de água tratada. Menos do que os tais 7 centavos por metro cúbico de economia que supus que a Cedae teria caso o manancial fosse despoluído. Ou seja, a economia com produtos químicos e eletricidade seria suficiente inclusive para cobrir todo o custo de sanear as áreas de Queimadas e Nova Iguaçu que atualmente poluem o manancial.

Esta é a segunda reportagem da série “Do esgoto ao copo – Especial Guandu”, que trará diversas faces dos desafios do abastecimento da Região Metropolitana do Rio.

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2 comentários em “Menos de 2% dos esgotos na bacia que abastece o Grande Rio são tratados”

  1. Politicos mentirosos e seus comparsas. Buscar o nome dos prefeitos e governadores e seus secretários dos ultimos 40 anos e publicas.
    Mostrar o nome e imagem destes incompetentes.

    Responder
  2. Sem duvida é incontestável a importância do Comitê Gandu.. No entanto, o Comitê deveria disponibilizar no seu site todos os eventos realizados mensalmente na prática para a proteção do manancial indispensável para milhões de pessoas.Enquanto prevalece o discurso, a cada dia a situação demográfica se altera e mais poluído vai ficando o manancial.. Dizem até que a ETA Guandu não trata água, mas verdadeiro esgoto.Não tenho certeza de que é isso mesmo, porém é urgente que o Governo adote providencias drásticas
    para despoluir o rio Guandu. Há necessidade de reflorestamento em todas as margens e em todos os sentidos, à jusante e a montante da represa de Lajes.

    Responder

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