Formação de nuvens de gafanhotos pode ficar mais comum com mudanças climáticas

Daniele Bragança
terça-feira, 30 junho 2020 21:32
Possuir antenas curtas é a característica mais visível e que diferencia os gafanhotos dos grilos e esperanças, insetos próximos que possuem antenas longas. Acima, a Schistocerca cancellata. Foto: Dra. Maria Laura de Wysiecki/Universidad Nacional de La Plata – UNLP/Argentina.

Seca, clima quente, abundância ou escassez de alimento e ausência de predadores são alguns elementos que, unidos, favorecem a formação de nuvens de gafanhotos, como as que atualmente atingem o norte da Argentina e ameaçam chegar à Uruguaiana, no extremo sul do Brasil. As autoridades do país vizinho usaram agrotóxicos para tentar conter a nuvem de Schistocerca cancellata, que já estava perdendo força após a queda na temperatura e chegada da chuva na região.

Gafanhotos são inofensivos ao homem, não possuem veneno e nem transmitem doenças. A única ameaça, e ainda assim restrita a um pequeno número de espécies, é o dano econômico causado por perda de lavoura. “No Brasil temos cerca de 750 espécies de gafanhotos catalogados. Dessas, mais ou menos 25 são as que vão conseguir causar algum dano econômico, mas apenas 5 dessas espécies que causam danos têm a capacidade de formar nuvem”, explica o professor Dr. Marcos Lhano, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em entrevista a ((o))eco.

Lhano é especialista em Caelifera, o grupo de insetos dos gafanhotos, animaizinhos cujas características mais famosas são as pernas posteriores grandes e fortes, que lhes dão a habilidade de dar grandes saltos. Um dos gafanhotos que Marcos estuda é justamente a Schistocerca cancellata, espécie comum na América do Sul que, recentemente, dominou o noticiário por ter feito um estrago nas lavouras do país vizinho.

A estimativa é que a nuvem de gafanhotos que atingiu a Argentina tem aproximadamente 40 milhões de gafanhotos por quilômetro quadrado. No auge, ela cobria cerca de 10 km², ou seja, uma nuvem com cerca de 400 milhões de gafanhotos. É uma das maiores nuvens formadas na América do Sul nos últimos anos. Atualmente, já menor, ela está parada na cidade de Curuzú Cuatiá, localizada na província de Corrientes, a 100 km do município de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.

O temor com a chegada da nuvem fez o governo brasileiro declarar emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nesta terça-feira (30), uma portaria foi publicada para estabelecer diretrizes para a elaboração de planos de supressão de gafanhotos e autorização de uso emergencial de agrotóxicos para conter a praga.

Gafanhotos necessitam da temperatura do ambiente. Se está mais quente, eles realizam mais atividades. Menos quente, menos atividades. Acima, nuvem de Schistocerca cancellata. Foto: Dra. Maria Laura de Wysiecki/Universidad Nacional de La Plata – UNLP/Argentina.

Dentre as medidas estão a autorização para o uso de inseticidas biológicos à base de Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae, e de agroquímicos com os seguintes ingredientes-ativos: Acefato (organofosforado); Cipermetrina (piretróide); Deltametrina (piretróide); Diflubenzurom (benzoiluréia); Lambda-cialotrina (piretróide) e Malationa (organofosforado). A portaria especifica as doses máximas que poderão ser usadas em diferentes culturas. Mas os planos para conter a nuvem de gafanhotos talvez não precise sair do papel, já que as autoridades sanitárias argentinas estão aplicando agrotóxico em solo e via pulverização aérea desde a semana passada, quando a nuvem estacionou. Segundo o Serviço Nacional de Saúde da Argentina (Senasa), cerca de 15% da nuvem já foi eliminada. O tempo chuvoso e frio também ajudaram nessa tarefa.

“A nuvem [de gafanhotos] vai se deslocando durante o dia, seguindo a direção do vento. Mas quando chega a noite, quando a nuvem vai procurar abrigo, ela fica também à mercê dos predadores naturais. Então, a medida que ela vai avançando, mesmo se não houver medidas de controle da praga, ela vai, sozinha, perdendo força, vai perdendo indivíduos. Até que ela acaba”, explica o professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

É difícil precisar quando uma espécie de gafanhotos irá se unir e formar as temidas nuvens, embora já esteja pacificado que algumas condições ambientais ajudem nesse processo. “Ela [a Schistocerca cancellata],  biologicamente, tem duas fases. A fase solitária, que é a fase que ela não causa dano, os indivíduos estão sozinhos, e a fase gregária, em que ela está agregada e forma nuvens. Para ela sair da fase solitária e chegar nessa fase gregária, é preciso uma junção de circunstâncias que eleve a proliferação dessa espécie. O que vai facilitar? Lugares mais secos, clima quente… Se for lugar com ausência de predadores naturais, já ajudará no processo de reprodução acima do normal. E se tiver escassez de alimentos também, pois pode fazer os gafanhotos se juntarem para migrar”, explica Marcos Lhano.

Marcos Lhano em atividade de campo, na Chapada Diamantina. Foto: João Paulo Morselli.

Uma vez organizada em nuvens, a espécie vira praga, pela potencialidade de causar perdas na produção agrícola. Em países africanos, nuvens de gafanhotos se formam praticamente todos os anos. Já no Brasil, as últimas grandes formações têm tantos anos que sequer há monitoramento de gafanhotos como política pública de prevenção. A última grande praga de gafanhotos ocorreu aqui na década de 1940.

“Isso foi o que assustou mais os produtores. A nuvem chegar tão perto da fronteira e o Brasil tendo que forjar ações emergenciais porque não estava preparado, pois não há qualquer vigilância e política pública estabelecida sobre como proceder”, critica Marcos Lhano. “O que a gente pode aprender com esse susto que a gente teve agora com os gafanhotos? Primeiro, da importância dos gafanhotos pro ambiente.  Que nem todo gafanhoto é praga, pelo contrário, a grande maioria é super benéfica. E que dá pra fazer uma prevenção para que esses gafanhotos não se tornem praga”, diz.

Parte do trabalho de contenção de danos é saber, uma vez formada a nuvem, para que lado ela vai se deslocar. Enquanto a nuvem está se deslocando, muito pouco se pode fazer para contê-la. A aplicação de inseticidas, por exemplo, necessita que os gafanhotos estejam em solo, parados. Outro desafio é levar em conta se o custo da contenção é maior do que não fazer nada. A aplicação de agrotóxicos que matam abelhas e outros polinizadores pode custar as safras seguintes e não salvar a atual. “Às vezes, é preferível ir mitigando, reduzindo essa nuvem, com poucos danos ecológicos, do que tacar veneno. O prejuízo fica sendo muito menor”, diz Marcos Lhano. “A política mais inteligente é de prevenção, para que não chegue nessa fase.”

A adoção de políticas de prevenção provavelmente será uma necessidade a partir de agora, com o planeta aquecendo. As mudanças climáticas e seu aspecto mais visível, o de prolongar fenômenos naturais e torná-los mais severos, como a seca, propicia a formação de nuvens de gafanhotos.

Isso porque essas poucas espécies que conseguem formar nuvens – no Brasil são 5 espécies – adoram ambientes secos e de temperaturas altas.

“Quanto mais lugares secos e com temperatura altas, mais isso favorece essas espécies de se reproduzir e mais ovos eclodem. Quanto mais ovos elas puserem, mais os filhotes vão se tocando, se agregando e vão criar o hábito de formar nuvem e ter esse hábito migratório. Biologicamente e ecologicamente a gente tem toda a evidência de que mudanças climáticas podem sim ocasionar no aumento da ocorrência e na intensidade dessas nuvens”, explica.

Ainda segundo Marcos Lhano, as outras espécies que não formam nuvens serão afetadas de outras maneiras.

Serviços ecossistêmicos

O Cornops aquaticum consegue passar até 2 horas debaixo d’água. Foto: Marcos Lhano.

Por ter essa capacidade de destruir plantações, a fama dos gafanhotos ao longo da história não é lá das melhores. O ônus causado por poucas espécies abafa os serviços ecossistêmicos que a maioria realiza. E eles são importantíssimos.

“O gafanhoto é super benéfico para o ambiente, porque eles são os principais responsáveis por colocar matéria e energia na cadeia trófica, na cadeia alimentar (…). Como eles comem bastante, eles defecam bastante, então eles ajudam a adubar o solo, a colocar essa matéria de volta ao ecossistema”, explica Marcos.

Um exemplo é o Cornops aquaticum, um gafanhoto semi-aquático que exerce controle biológico da planta aquática aguapé (Eichhornia crassipes), que cresce muito rápido e fora de controle é considerada praga.

“Gafanhotos podem causar prejuízos, mas você tem outras espécies que são super benéficas e inclusive servem de controle para outras pragas”, finaliza Marcos Lhano.

Uma fêmea é capaz de colocar em torno de 100-120 ovos. Foto: Dra. Maria Laura de Wysiecki/Universidad Nacional de La Plata – UNLP/Argentina.
Gafanhotos são excelentes comedores e não têm lá muito critério na hora de se alimentar. Foto: Dra. Maria Laura de Wysiecki/Universidad Nacional de La Plata – UNLP/Argentina.

 

Leia Também 

O grilo-gigante e o acervo perdido do Museu Nacional

Insetos e meio ambiente

Vídeo: Por que devemos prestar atenção nos insetos? por Ricardo Lourenço

 

2 comentários em “Formação de nuvens de gafanhotos pode ficar mais comum com mudanças climáticas”

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.