Escuridão em SP não foi causada unicamente por queimadas, mas alertou população para problema

Escuridão em SP não foi causada unicamente por queimadas, mas alertou população para problema

Cristiane Prizibisczki
terça-feira, 20 agosto 2019 18:19
O dia virou noite em SP. Fenômeno não tem a ver com queimadas. Foto: Reprodução/Twitter/Leandro Mota.

A capital paulista surpreendeu-se na tarde de segunda-feira (19) com uma repentina escuridão do céu. Eram ainda 15h, mas a impressão para os paulistanos era de que a tarde havia virado noite. O motivo seria a fumaça de queimadas na região amazônica, diziam internautas. Para meteorologistas, essa informação não é totalmente correta, mas fenômeno representou uma oportunidade para que muitas pessoas ouvissem falar de um problema que afeta anualmente moradores da região norte do país e que este ano atingiu níveis recordes.

Segundo o serviço meteorológico Climatempo, além das condições atmosféricas, a escuridão em São Paulo também foi resultado de focos de incêndio de enormes proporções que ocorreram na tríplice fronteira do Brasil, Bolívia e Paraguai, nas últimas 72 horas. Esta foi a informação que viralizou nas redes sociais na tarde de segunda-feira.

Apesar da grande repercussão, para o pesquisador Alberto Setzer, do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), essa hipótese é pouco provável. Segundo ele, um pouco desta fumaça de fato chega a São Paulo, mas não a ponto de ser a principal explicação para a escuridão verificada.

De acordo com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do INPE (CPTEC-INPE), a escuridão se deu, na verdade, por conta de nuvens formadas pela combinação da chegada de uma frente fria que avançou entre sul e sudeste e encontrou uma região alongada de baixa pressão, chamada “cavado”, em algumas regiões do Estado.

“A sensação de escuridão foi por conta da formação de uma nuvem bastante baixa e densa, provavelmente uma nuvem Nimbustratus ou Cumulonimbus, que se formou na região de São Paulo, muito próxima a superfície. É normal acontecer, se tem o avanço da frente fria, dependendo das condições de umidade, pode se formar essas nuvens”, explicou o meteorologista do CPTEC, Maicon Veber.

Neide Oliviera, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, corrobora as informações do CPTEC. “O que aconteceu é explicado por fenômeno meteorológico. Se houvesse esse transporte de material particulado, como estão colocando, ao considerar as condições meteorológicas nesses dias, de umidade alta e ventos fortes, esse material particulado teria se dispersado”, disse.

O fenômeno de “dia escuro” pode ser observado em grande parte da região leste do Estado de São Paulo, onde estão localizadas a Grande São Paulo, o litoral e também o Vale do Ribeira e o Vale do Paraíba.

Real impacto das queimadas amazônicas no sul e sudeste

A fumaça de uma queimada pode chegar até a dez quilômetros de altura. Isso acontece porque, ao emitir principalmente gás carbônico (CO2), água e gases como monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx), metano (CH4) – além de outros que, com a radiação solar, formam compostos secundários, como o ozônio (O3) – a queima da biomassa na floresta provoca um empuxo.

“A fumaça é ejetada para cima porque é muito mais quente do que o ar ambiente. A atmosfera, por sua vez, tem seus próprios movimentos naturais que decorrem da interação da superfície aquecida com o ar, que são turbilhões que se deslocam. A turbulência mistura essa fumaça, que tende a se dispersar. Se a fumaça encontra nuvens, ela pode ser jogada a níveis ainda mais altos”, explicou a pesquisadora Karla Longo, do INPE, no especial “A trajetória da Fumaça”, feito por ((o))eco.

A corrente de fumaça das queimadas pode se espalhar por uma área de até cinco milhões de quilômetros quadrados. O fenômeno se repete todos os anos, durante os meses de seca (agosto a outubro). Ao sabor dos ventos, a fumaça é empurrada principalmente no sentido sul em baixas altitudes até próximo ao norte da Argentina.

“A fumaça é transportada e segue uma circulação anticiclônica (no sentido contrário ao movimento dos ponteiros do relógio), até atingir o Atlântico. Quando ela encontra as massas de ar frio que vêm da região polar, é jogada para níveis mais altos. Então a fumaça continua tendo impactos atmosféricos para as regiões mais ao sul do país”, explica Longo.

Mas não é apenas a existência de correntes de ventos que favorece a dispersão da fumaça das queimadas a milhares de quilômetros de distância. “A região é relativamente plana com altas taxas de convecção vertical, e também é muito quente, fazendo com que os movimentos ascendentes de massas de ar sejam pronunciados. Isso faz com que, numa queimada, a dispersão do material particulado seja rápida e eficiente. Por outro lado, faz com que ele seja transportado a milhares de quilômetros e tenha seu impacto ambiental multiplicado sobre áreas grandes”, explica o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e parceiro do INPE nos estudos sobre queimadas na Amazônia.

Incêndio florestal no Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, em agosto de 2016, quando houve o último grande pico de queimadas na Amazônia. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Além disso, a região amazônica funciona como um reservatório de umidade para o continente como um todo. Pelas correntes de vento, esta umidade é transportada para as regiões Sul e Sudeste do Brasil, causando instabilidade na atmosfera e alimentando a formação de nuvens. Ocorre que, com as queimadas, as correntes de vento transportam fumaça e os aerossóis presentes nela vão modificando a forma como a umidade chega ao Sul, reduzindo na maioria das vezes a precipitação nessa parte do país.

“As pessoas tendem a imaginar que, como a fumaça está nessa região [Norte], os efeitos vão ocorrer somente aqui, na Amazônia. Mas não é bem assim. O que a gente observa é que a redução da precipitação é mais importante na região sul do que na Amazônia em si”, ressalta Karla Longo.

Efeito educativo

Ainda que a partir de uma informação equivocada, a experiência de um “dia escuro” no estado de São Paulo fez com que muitas pessoas buscassem dados sobre o problema das queimadas na região Amazônica. Esse é o caso de Mariângela Azevedo, empresária no Vale do Paraíba. Antes do fenômeno metrológico, ela não sabia que parte considerável de estados como Rondônia e Acre arde em chamas. “Fiquei muito assustada [com a escuridão repentina] e fui procurar mais informações. Já sabia das queimadas no Mato Grosso, mas não tinha ideia da extensão do problema”, disse.

Foi a partir dessa busca por informações que Mariângela descobriu que o Brasil vive, atualmente, a maior onda de queimadas dos últimos anos. O Programa Queimadas do INPE registrou 72.843 focos de incêndio entre os dias 1 de janeiro e 19 de agosto deste ano. O número é 83% maior do que o mesmo período do ano passado, quando foram registrados 39.759 focos de incêndio. A última grande onda ocorreu em 2016, com 67.790 focos de queimadas entre essas datas.

 

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30 comentários em “Escuridão em SP não foi causada unicamente por queimadas, mas alertou população para problema”

  1. Acredito que está muito cedo para negar que os incêndios tenham espalhado material particulado pelo Sul do país. Alguns estudos usando a água da chuva do dia mostraram a presença de material particulado proveniente de queimadas. Óbvio que a escuridão não se deve apenas por causa das fumaças, mas elas contribuíram sim para a intensidade desse evento. O cheiro de queimada podia ser sentido, acho arriscado corroborar com teses que negam a existência dos danos que a atividade humana causa no mundo, talvez o ideal seja mudar esse título, visto que muitas pessoas vão se utilizar disso para frear muitas ações pró-ambiente.

  2. Mas a noticia em destaque foi o volume de fakenews associado uma fenômeno natural às queimadas e consequentemente ao governo Bolsonaro.
    Ao contrário da matéria, não teve efeito educativo, mas reforça o efeito desmoralizador ao ambientalismo lacrador. Não faz nenhum sentido concluir que um efeito natural conscientiza de um outro que não há relação. Ou seja, a matéria procurar manter as migalhas da manipulação.
    Não é a toa a perda de credibilidade do movimento ambientalista na medida em que se pauta pela desinformação e ecoterrorismo…

  3. Otimo. Voces postam uma noticia equivocada e tai'. Colocaram gasolina nos argumentos dos desinformados. Contentes?
    A escuridao foi causada pelo transporte de fuligem (soot) das queimadas. Houve uma comunhao de fatores que facilitaram o transporte. Corrijam essa porcaria antes que causem mais dano.

  4. "Escuridão em SP não foi causada por queimadas.." parei de ler por aqui. Matéria tendenciosa a manipular desinformados e pessoas de umbigo grande.

  5. Durante a manhã desse dia, a luminosidade do sol já estava na cor avermelhada. Pensei … está ocorrendo alguma queimada por perto…sempre ocorre!… durou o dia inteiro esse " fenômeno" …só não sabia que as queimadas ocorreram taí longe.

  6. O fato é, as queimadas na Amazônia aumentaram, o descaso do governo com meio ambiente é claro. É fato que os focos de incêndios precisam ser combatidos e a natureza preservada para o bem de todos. O presidente pode não ter contribuído para aumento das queimadas, mas suas palavras de descaso incentivam ações de destruição.

  7. Ou vocês estão utilizando de má-fé nos dados que apresentam no INPE, ou vocês não sabem ler. Os dados do Programa Queimadas que voces estão postando aí, NÂO está CORRETO, e NÂO ESTÀ assim no INPE. Em todo o ano de 2019 até hoje, foram registrados 1.516 focos de incêndios, de onde saiu 72.800???. Esse gráfico ai apresentado não corresponde com NENHUM gráfico do Programa Queimadas do INPE.
    Aqui está a tabela de Focos de queimadas: http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal/est… – 1.516 focos!! em Julho não chegou nem na METADE do ano passado.
    Aqui está a tabela comparativa dos ultimos 7 anos para O BRASIL, o país inteiro! e não a Amazônia: http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal/est
    Aqui está o gráfico comparativo do 1o semestre emrelação à máx e média histórica: http://queimadas.dgi.inpe.br/queimadas/portal/est… – Atualmente, desde 1998, está ABAIXO da MEDIA histórica!
    HONESTIDADE!! Chega de NARRATIVA!

    • Luciana, a link para a sua tabela não funciona, mas falando do gráfico que publicamos, ele diz claramente que os focos são do período entre 1º de janeiro a 18 de agosto, comparado com o mesmo período do ano anterior. Por favor, releia antes de acusar.

  8. Flávio,

    Eu não sei se você reparou, mas somos poucos e o país é imenso. Jamais ignoramos qualquer assunto ligado à área ambiental, apenas é impossível cobrir tudo. Eu vou incluir na minha tabelas de assunto. Quando tiver alguma sugestão de pauta, por favor, mande por editor@oeco.org.br, que vou fazer o possível para olhar com atenção para o assunto. Muito obrigada por enviar.

    • Olha, a questão é que O ECO poderia dar um contexto diferente à temporada de fogo na Amazônia e esclarecer com mais isenção. O fato é que sabemos que a o volume de desmatamento na Amazonia está abaixo da media dos ultimos 15 anos (NASA, INPE), que a destruição de 500 mil hectares na Bolivia e 200 mil no Paraguay turbinaram o fenômento em São Paulo e que há uma campanha de difamação do governo brasileiro por atores internos e externos que fecham os olhos para os monumentais incendios florestais no mundo neste momento:
      – Sibéria: 3 milhões de hectares: https://br.rbth.com/estilo-de-vida/82622-incendio
      – Bolívia: 700 mil hectares: https://www.infobae.com/america/america-latina/20
      – Paraguay: perda de 70% da reserva florestal: Incendios afectan más del 70 % de reserva forestal en Paraguay
      – Ilhas Canárias: Destruição de especies vegetais e animas "com menos de cem exemplares" e 9000 pessoas removidas :https://www.elmundo.es/espana/2019/08/21/5d5c110e21efa0c6428b45cb.html
      – Alemanha: Incêndio florestal na Alemanha ameaça detonar munições da 2ª Guerra https://www.otempo.com.br/mundo/incendio-floresta
      – Portugal: Incêndio florestal atinge Portugal e fere 32 pessoas http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/not
      Se procurar vai encontrar incendios florestais por toda a parte, mas somente a Amazonia Brasileira é o foco de atenção de países que usam barreiras comerciais ambientais e atuam para internacionalizar a Amazonia com a conivencia de movimentos ambientas internos e externos que por interesses próprios, atuam contra a soberania nacional, a exemplo da iniciativa de Macron em convoca cúpula do G7 a discutir incêndios na Amazônia (https://www.poder360.com.br/internacional/macron-convoca-cupula-do-g7-a-discutir-incendios-na-amazonia/) e a pressão de Noruega e Alemanha no exato momento em que sua economia vacila e o Acordo Mercosul-UEE está em pauta.
      O Eco pode contribuir saindo da "resistência" e passando a informar com mais acuidade. Os comentários que vemos são um forte indicativo da demanda que o ECO pode atender, mas que ainda insiste em ignorar.

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