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Enquanto a Amazônia queima, o que acontece com a biodiversidade?

Estudos mostram que onde as queimadas aumentaram na Amazônia, a biodiversidade é alterada, com a flora e fauna únicas da floresta tropical - assim como seus serviços ecossistêmicos - reduzidos

Liz Kimbrough ·
1 de outubro de 2020
Queimada na floresta, próxima a uma área recém desmatada em Alta Floresta, Mato Grosso. Foto: Christian Braga/Greenpeace
  • Mais de 40% dos focos de fogo na Amazônia brasileira este ano estão queimando em florestas em pé, com mais de 1,8 milhões de hectares já impactados em 2020. Embora longe de ser totalmente estudados, esses incêndios florestais têm graves consequências para flora e fauna.
  • Um estudo descobriu, por exemplo, que a abundância e tipos de espécies de escaravelhos mudam em partes queimadas da Floresta Amazônia. Os escaravelhos desempenham papéis vitais no ciclo de nutrientes e na dispersão de sementes. Outra pesquisa detectou o declínio de borboletas, espécies especializadas de formigas florestais e outros invertebrados que vivem na serapilheira, alguns pássaros, pequenos mamíferos e de cobras em áreas recentemente queimadas.
  • Árvores de florestas tropicais são especialmente vulneráveis porque o fogo é relativamente novo na Amazônia, e as árvores não desenvolveram resistência às chamas. Um incêndio na floresta, queimando a mata pela primeira vez, mata a maioria das árvores pequenas e mudas, e pode matar 50% das árvores maiores.
  • Vários incêndios ao longo do tempo continuam reduzindo a biodiversidade. Alguns cientistas temem que uma combinação de incêndios, aumento da seca devido às mudanças climáticas e desmatamento possam levar a um ponto sem volta – com impactos devastadores para a Amazônia, que abriga 10% da biodiversidade mundial.

O número de queimadas na Floresta Amazônica em pé aumentou dramaticamente nas últimas semanas, ameaçando a biodiversidade da floresta – uma riqueza de flora e fauna não adaptada para resistir às chamas.

De todos os principais incêndios detectados na Amazônia este ano, 43% foram em florestas em pé, até 21 de setembro (contra apenas 13% em agosto), de acordo com o MAAP (Monitoring of the Andean Amazon Project), projeto sem fins lucrativos que monitora o bioma. A floresta queimada é estimada em cerca de 4,6 milhões de acres (1,8 milhões de hectares) – uma área com cerca de três quintos do tamanho da Bélgica.

Incêndios não ocorrem naturalmente na floresta tropical. Portanto, para que os incêndios ocorram em uma floresta em pé na Amazônia, algumas coisas devem acontecer: um ano de seca e muitas fontes de ignição nas terras vizinhas. Essas fontes – causadas quase exclusivamente pelo homem – podem surgir de incêndios agrícolas descontrolados (usados ​​rotineiramente para queimar áreas de cultivo e pastagens para remover pragas, por exemplo) ou de queimadas feitas intencionalmente para limpar terras após o desmatamento, muitas vezes ilegais.

“É difícil saber o que é ‘típico’ quando se trata de fogo na Amazônia”, disse ao Mongabay, Jos Barlow, professor de ciência da conservação na Lancaster University, no Reino Unido. Barlow, que estuda os incêndios na Amazônia há mais de duas décadas, acrescentou: “No ano passado tivemos muitos incêndios em áreas desmatadas. Enquanto que, este ano, parece que os incêndios estão queimando mais áreas de floresta em pé, o que é uma grande preocupação”.

Os incêndios na Amazônia que chamaram a atenção internacional em 2019 seguiram em grande parte um padrão de desmatamento recente, impulsionado por grileiros e encorajado pela retórica pró-agronegócio do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Em fevereiro, mais de 1.200 cientistas assinaram uma carta, afirmando que “o governo do presidente Jair Bolsonaro está desmontando as políticas socioambientais do país”.

Em discurso às Nações Unidas nesta semana, Bolsonaro disse que o país tem, “a melhor legislação ambiental do planeta”, e que, “os incêndios praticamente ocorrem nos mesmos locais, na zona leste da floresta, onde os caboclos e indígenas queimam seus campos em áreas já desmatadas”. Ele não forneceu evidências para esta afirmação.

Análises do MAAP, NASA, INPE e outros mostram um padrão generalizado de incêndios em toda a Amazônia brasileira, que inclui uma quantidade significativa de queimadas ilegais em áreas conservadas – causando sérios danos ao país de maior biodiversidade do mundo.


Imagens de satélite de alta resolução mostram o antes (painel esquerdo) em 8 de setembro de 2020 e depois (painel direito) em 13 de setembro de 2020, de um grande incêndio recente na Amazônia brasileira (estado de Mato Grosso). A imagem mostra a matriz circundante de incêndios florestais, incêndios em áreas recentemente desmatadas e incêndios em terras agrícolas. Foto cedida pelo Planet/MAAP

O que acontece com a vida na floresta quando ela queima?

A floresta tropical queima lentamente. Uma linha de fogo pode avançar apenas 300 metros em 24 horas, diz Barlow. Esse fogo de movimento lento dá aos grandes animais móveis bastante tempo para fugir. Mas para onde vão? As opções são cavar, ir para a água ou mover-se para outras áreas. A maioria dos animais não pode simplesmente mudar para o território de outro sem consequências: seja a violência de um competidor, ou simplesmente a falta de recursos como comida e abrigo. Infelizmente, a pesquisa sobre os impactos dessa transição é limitada.

“Nós realmente não sabemos o que acontece com os animais maiores que são forçados a se mudar para outros territórios”, disse Barlow. “Então, presumivelmente, em algum ponto, haverá uma redução no tamanho da população, porque você não pode simplesmente ter mais animais em uma área.”

Os primatas, por exemplo, podem ficar presos em ilhas de vegetação não queimadas na floresta incendiada, persistindo com a comida remanescente até que sejam forçados a se arriscar na viagem para um outro habitat. Incêndios em 2019 queimaram o habitat de uma espécie descoberta recentemente, o mico-leão-marinho de Mura (Saguinus fuscicollis mura). Mas os efeitos em sua população são desconhecidos.

Um bugio marrom (Alouatta guariba) no Brasil. Animais maiores podem escapar de incêndios que se movem lentamente, mas podem ser empurrados para territórios onde enfrentam competição por recursos limitados. Foto: Peter Schoen/Wikimedia Commons (CC BY SA 2.0)

“Quem pode sobreviver às chamas? Sabemos que os artrópodes que fazem ninho no solo geralmente se dão muito bem”, disse ao Mongabay por e-mail Lucas N. Paolucci, professor de biologia da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. “Mas vários outros, como invertebrados que vivem no folhiço do solo, alguns pássaros, pequenos mamíferos e cobras freqüentemente morrem diretamente devido às chamas.”

“Você vê os pequenos invertebrados tentando fugir das chamas e, obviamente, eles não sobrevivem”, disse Barlow. “Nós encontramos jabutis no chão da floresta com cicatrizes de queimaduras nas cascas. Então, alguns animais são afetados e queimam”. Mas quantos animais podem morrer nas grandes queimadas deste ano, ninguém pode dizer.

Sabe-se que as árvores da floresta tropical são especialmente vulneráveis ​​ao fogo. Como o fogo é um elemento relativamente novo e estranho na Amazônia, a floresta e a vida dentro dela não evoluíram para suportar as chamas. Árvores tropicais, por exemplo, não têm a casca espessa de uma espécie adaptada ao fogo temperado, como sequóias ou pinheiros. Um incêndio na floresta tropical, queimando a floresta pela primeira vez, mata a maioria das pequenas árvores e mudas e pode matar 50% das árvores grandes. As sementes no solo aquecidas a altas temperaturas podem perder sua capacidade de germinar.

Embora as árvores maiores possam não ser mortas imediatamente, os danos causados ​​pelo fogo em um tronco podem causar um ferimento mortal, permitindo que os patógenos entrem no tronco. Essas árvores demoram anos para morrer. Mas, à medida que sucumbem, eles abrem a copa, tornando as árvores sobreviventes mais suscetíveis a serem derrubadas em tempestades de vento. Quando essas grandes árvores caem, o sub-bosque escuro da floresta tropical fica comprometido, com consequências devastadoras para a biota que evoluiu nas sombras.

Barlow e seus colegas descobriram que após os incêndios na Floresta Amazônica, a flora muda radicalmente. As aves especializadas do sub-bosque, que se alimentam da serapilheira, “basicamente desapareceram” e as populações ainda não se recuperaram dez anos depois. Essa descoberta não é surpreendente, diz ele, porque uma década após o incêndio, as florestas tropicais têm aparências muito diferentes, com menos biomassa e um dossel aberto.

Um estudo indicou que a abundância e os tipos de espécies de escaravelhos foram alterados nas florestas queimadas da Amazônia. Os escaravelhos desempenham um papel vital no ciclo de nutrientes e na dispersão de sementes, e um declínio em sua diversidade tem efeitos em cascata no ecossistema.

A maria-leque (Onychorhynchus coronatus) é uma especialista no sub-bosque da Amazônia. Foto: Philip Stouffer

Em um grande estudo experimental, parcelas florestais que foram queimadas várias vezes viram um declínio na abundância de espécies especialistas de formigas da floresta. Essas espécies dispersam sementes, desempenham papéis específicos na cadeia alimentar da floresta e trabalham o solo por meio de escavações. Após os incêndios, essas espécies de formigas especializadas foram substituídas por um influxo de comunidades de formigas de áreas de habitat mais aberto, como savanas. A perda dessas espécies florestais especializadas significa a perda do trabalho especializado que fazem.

Na mesma área de queima experimental, outro estudo encontrou padrões semelhantes de perda de espécies de borboletas, com especialistas florestais diminuindo nas áreas queimadas. Há um crescente corpo de evidências demonstrando que o fogo é uma ameaça com consequências de longo prazo para animais e plantas que requerem o microclima fresco, úmido e sub-bosque da Floresta Amazônica.

Como as florestas se recuperam?

Como os incêndios florestais são um fenômeno mais recente na Amazônia, os cientistas ainda não têm certeza de quanto tempo leva para as florestas se recuperarem totalmente, ou mesmo se o fazem. Não é surpreendente que ao examinarem uma floresta nos anos após um incêndio, os pesquisadores identifiquem a perda de biodiversidade, mas o destino dos animais na terra e na água, bem como o papel dessa biodiversidade no apoio à recuperação florestal, permanece um mistério.

Conforme os pesquisadores examinam essas paisagens, surgem surpresas. Por exemplo, as antas (Tapirus terrestris), um grande mamífero comedor de frutas que se parece um pouco com um porco cruzado com um elefante, pode ajudar na recuperação natural de florestas queimadas, descobriu a equipe de Paolucci em um estudo recente. As antas viajam e defecam com mais frequência em florestas degradadas, dispersando até três vezes mais sementes do que em florestas saudáveis.

No entanto, essas descobertas sobre o papel das antas envolveram pequenos incêndios experimentais e ocorreram perto de florestas intactas não queimadas. “O que acontece em uma paisagem fragmentada quando uma área queimada não está do lado de um pedaço não queimado?” Barlow pergunta. “De onde virão as fontes de sementes então? E como a floresta se recupera quando você não tem conectividade da floresta ou a capacidade de sustentar grandes animais e os pássaros para ajudar a dispersar as sementes?”.

Uma anta brasileira juvenil (Tapirus terrestris) no Pantanal. Descobriu-se que as antas dispersam sementes em áreas degradadas da floresta. Foto: Rhett A. Butler

Em áreas que foram queimadas várias vezes, ou em áreas com grandes quantidades de desmatamento e pouca conectividade, com poucas chances de se recuperar, a floresta muda de uma floresta primária de dossel fechado para o que Barlow descreve como “essencialmente bambu rasteiro e arbustos, e vegetação dominada por videiras, que é muito, muito inflamável. ” Esta paisagem, agora desprovida de caça, alimentos e medicamentos, é “de muito baixo valor para a população local, bem como para a maioria das espécies florestais”.

“A Amazônia é como uma bolha… se as árvores estão intactas, ela mantém a umidade sob a copa da floresta”, disse Ernesto Alvarado, professor de ciências do fogo em áreas florestais da Universidade de Washington. Extração de madeira, estradas, desmatamento e incêndios podem estourar essa bolha de umidade. “Você abre o dossel, certo? É como um monte de buracos na bolha, e agora a umidade está escapando mais e a floresta fica mais seca. ”

Além disso, a estação seca da Amazônia está ficando mais longa e as mega secas estão mais comuns, principalmente devido às mudanças climáticas e ao desmatamento. Perto do final da estação seca, as plantas em partes mais sazonais da Amazônia não devem depender da chuva, mas da água retida no solo para continuar transpirando e liberando umidade na atmosfera. Mas quando a estação seca se estende além da observada nos anos anteriores, as plantas ficam sem água no solo e algumas cortam sua demanda por umidade deixando cair as folhas. Esta serapilheira seca está pronta para queimar quando um incêndio em um campo vizinho arde fora de controle.

“Todos esses anos, quando os incêndios dominaram, as plantas sofreram com falta de água”, disse Paulo Brando, ecologista tropical da Universidade da Califórnia, em Irvine, “e então, para os animais… todos os tipos de problemas, certo? Porque a disponibilidade de recursos em termos de frutas e energia diminui muito se você tiver uma combinação de secas e incêndios”.

O futuro da Amazônia com fogo

O futuro da Floresta Amazônica dependerá de complexas interações entre fogo, desmatamento e agravamento da seca devido às mudanças climáticas, bem como outras causas humanas.

Alguns cientistas alertam que a Amazônia está se aproximando de um ponto crítico, quando a precipitação diminui ao ponto de transição da floresta tropical para uma “savana derivada”. No entanto, ao contrário de uma savana natural, que é um sistema altamente diverso e funcional, uma Amazônia severamente degradada pode se parecer mais com “um sistema [ecológico] muito empobrecido, menos diverso, fornecendo menos funções”, disse Brando.

Incêndio na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, em Porto Velho, Rondônia, tirada em 16 de agosto de 2020. Foto: Christian Braga/Greenpeace

A porção sul da Amazônia brasileira é atualmente a mais vulnerável a essa transformação de floresta em savana, especialmente ao longo do Arco do Desmatamento, onde a floresta faz fronteira com áreas de pastagens e cultivo e onde vários elementos se reúnem, como o agravamento da seca, uma estação de estiagem prolongada e alguém pronto para colocar fogo na terra.

Um raio de esperança: como os incêndios florestais na Amazônia queimam lentamente, eles são bastante fáceis de combater com os recursos certos alocados corretamente, diz Barlow. O Brasil possui tecnologia para prever e monitorar incêndios com precisão. Porém, sem vontade política e investimentos para fazer isso, a Floresta Amazônica, que detém 10% da biodiversidade do planeta, continuará queimando.

 

*Essa publicação é original do Mongabay e republicada por ((o))eco através de um acordo de colaboração. Tradução: Duda Menegassi. 

 

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Comentários 1

  1. Mateus de Castro diz:

    Matéria muito esclarecedora e de enorme relevância. Continuemos lutando, sempre! Obrigado pelo trabalho de vocês.