Reportagens

Caso da naja no Distrito Federal pode ser um indício de um problema ainda maior

Comércio ilegal de serpentes vem crescendo no Brasil, aumentando o risco de invasão de espécies exóticas em nossos ecossistemas

Bernardo Araujo ·
30 de agosto de 2020
Serpente Naja. Foto: Ivan Mattos/Zoo Brasília.

Dezesseis serpentes formam o grupo de coadjuvantes de uma história séria que, no início de julho deste ano, se tornou o centro de revolta e piadas nas mídias brasileiras. Uma cascavel (Crotalus durissus), duas periquitamboias (Corallus batesii), três jiboias (Boa constrictor), quatro cobras negras (black rat snakes, Pantherophis obsoletus) e meia dúzia de cobras-rei (kingsnakes, do gênero Lampropeltis) foram os outros animais que o Ibama apreendeu de Pedro Henrique Krambeck, o estudante de medicina veterinária que foi picado por uma naja (do gênero de mesmo nome) no Distrito Federal.

Apenas seis dessas cobras são nativas do cerrado brasileiro. As outras dez são originárias da América do Norte, ou da região mais ao norte da América do Sul. Esses também são os animais que a professora Fabiana Volkweis, da Uniceplac, sugeriu que Gabriel Ribeiro – amigo de Pedro – soltasse. E ainda que essa orientação tenha se referido apenas às cobras peçonhentas nativas do ecossistema em questão, a naja que picou o estudante foi encontrada em uma caixa próxima a um shopping na região do Lago Sul. Boa parte dessa região é coberta pela Área de Relevante Interesse Ecológico Capetinga/Taquara, uma Unidade de Conservação que protege 2.057 hectares de cerrado.

A introdução de animais exóticos em nossos ecossistemas nativos é um problema muito bem reconhecido e frequentemente abordado no mundo da conservação. No entanto, répteis não estão entre os casos mais catastróficos – e mais conhecidos – de invasão do Brasil. Até hoje, não registramos nenhuma população invasora de espécies de serpente em nosso país, mas outras regiões do mundo trazem exemplos de como serpentes exóticas podem causar danos significativos tanto a ecossistemas como a infraestruturas humanas.

Boiga irregularis, serpente invasora em Gam. Foto: Wikipédia.

“A cobra arborícola marrom Boiga irregularis deve ter colonizado Guam quando indivíduos da espécie treparam no trem de pouso de aviões militares americanos, em suas idas e vindas por outras ilhas da região,” diz André Eterovic, professor da Universidade Federal do ABC. Guam é uma ilha na Micronésia e parte do território dos Estados Unidos. A cobra em questão, nativa da Indonésia e Oceania, provavelmente foi acidentalmente levada até a ilha – que não possuía nenhuma serpente nativa – no fim da Segunda Guerra Mundial.

Uma vez em Guam, essa cobra encontrou uma rica fauna de aves endêmicas que não estava preparada para lidar com um predador tão exótico. Acredita-se que até o momento, doze espécies de aves tenham sido extintas em decorrência dessa introdução. Por conta disso, a densidade de aranhas – que são comumente predadas por pequenas aves – na ilha é até 40 vezes maior do que a de ilhas vizinhas em determinadas épocas do ano. E os estragos não param por aí. “Na estação reprodutiva, sua atividade intensa leva a ondas de blecautes,” acrescenta André. “Ao escalarem as linhas de transmissão, os indivíduos provocam curtos-circuitos.”

Outra história de terror ecológico que traz uma serpente como protagonista tem como palco o Sul da Flórida. A píton birmanesa (Python bivittatus) chegou aos ecossistemas do estado americano na década de 80, mas apenas no ano 2000 foi confirmado que havia uma população reprodutiva da espécie na região. Segundo André, as “pítons causam problemas nos pântanos da Flórida, competindo com ou até mesmo predando aligatores.”

O Parque Nacional dos Everglades parece ter sido particularmente afetado pela invasão dessa grande serpente. Desde que a população de pítons cresceu, pesquisadores registraram declínios entre 87,5 e 100% nas populações de guaxinins, linces, gambás e coelhos no parque. Uma calamidade ecológica que poderia ter sido evitada com um pouco de informação e bom senso, pois a provável rota de invasão dessas cobras está relacionada com o mercado de animais de estimação. Donos que não tem mais condições de cuidar de seus animais ocasionalmente os soltam em paisagens naturais que julgam apropriadas, iniciando problemas que não são restritos aos Estados Unidos.

Píton birmanesa (Python bivittatus), invasora no Parque Nacional dos Everglades. Foto: South Florida Water Management District/Flickr.

“O comércio ilegal de serpentes vem crescendo muito no Brasil,” diz Érica Fonseca, especialista em invasão de répteis e anfíbios e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Maria. “Muitas dessas serpentes exóticas criadas como animais de estimação acabam escapando ou são abandonadas na natureza, onde podem encontrar condições adequadas para se estabelecer.”

Em 2017, Érica publicou um artigo científico na revista Plos One, analisando o risco de estabelecimento – ou a compatibilidade entre as características biológicas de um organismo invasor e o clima do ecossistema invadido – das cinco espécies de serpente mais comumente vendidas ilegalmente no Brasil. Dentre essas espécies estão duas espécies de cobra-rei, uma espécie de cobra negra, e duas espécies de píton. Segundo a pesquisadora e os demais autores da publicação, o risco de estabelecimento dessas serpentes é alto, especialmente em partes da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal.

A atividade antrópica pode facilitar ainda mais a invasão de cobras exóticas nesses ecossistemas. Segundo Érica, “com a degradação ambiental, as espécies nativas passam a enfrentar dificuldades para encontrar abrigo e alimentos, por exemplo, e a introdução de espécies exóticas aumenta a competição por recursos e a predação dessas espécies. Como as espécies recém-introduzidas não possuem predadores nativos, elas podem se beneficiar do desequilíbrio causado pela degradação ambiental e ocupar o espaço das espécies nativas.”

“As espécies recém-introduzidas podem permanecer em pequenas quantidades durante vários anos (entre 10 a 20 anos, em muitos casos) até se tornarem invasoras e serem percebidas,” conclui Érica Fonseca.

Encontrar serpentes exóticas em um ambiente natural pode ser um indício do estabelecimento de uma nova população, e no Brasil já existem sinais preocupantes desse processo. “Há registro publicado de encontro de um indivíduo jovem (recém-eclodido) de uma corn snake (Pantherophis guttatus) na Bahia,” diz André, “Em nosso trabalho de 2002, o risco potencial de invasão foi avaliado quando comparamos os atributos biológicos das 16 espécies exóticas e das 26 espécies nativas encontradas em São Paulo. Há muita similaridade entre componentes desses grupos e entre duas espécies problemáticas: a já citada B. irregularis e a peçonhenta habu, Protobothrops flavoviridis, uma prima da jararaca na ilha japonesa de Okinawa.”

O tráfico ilegal não é apenas problemático para o bem estar dos animais envolvidos e para os ambientes de onde eles são removidos. Ele é também uma ameaça para ecossistemas nativos que podem se tornar o destino final de alguns indivíduos dessas espécies. Sem a devida vigilância e precauções, serpentes podem em breve se tornar parte da nossa lista nacional de espécies invasoras.

“As espécies recém-introduzidas podem permanecer em pequenas quantidades durante vários anos (entre 10 a 20 anos, em muitos casos) até se tornarem invasoras e serem percebidas,” conclui Érica. “No caso das serpentes, a detecção da invasão pode ser ainda mais demorada que a de outros animais devido aos hábitos furtivos e ausência de emissão de sinais acústicos, por exemplo, o que facilita a detecção de aves e anfíbios invasores. Então, considerando que os avistamentos de algumas espécies exóticas em áreas naturais tem se tornado mais frequentes, acredito que tenhamos alguma espécie em processo de invasão no país.”

 

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