Caça e tráfico de onças disparam em estados bolivianos na fronteira com o Brasil

Aldem Bourscheit
quarta-feira, 11 novembro 2020 19:03
Procura por partes de onças ganhou força com mercado aquecido em países asiáticos. A foto da Liga da Terra Internacional mostra peles de onças manuseadas por traficantes.

Investigação internacional inédita reforça que estados bolivianos próximos do Brasil são focos de caça e comércio clandestino de onças. Animais podem ser capturados também em território brasileiro. Os crimes estão conectados ao tráfico de drogas. Ilegalidades ganharam força com maior presença chinesa na América do Sul.

Os estados de Beni e de Santa Cruz são os grandes centros de tráfico de onças na Bolívia. Eles fazem fronteira com a Amazônia e o Pantanal brasileiros. As regiões naturais alcançam países vizinhos e abrigam nove em cada dez dos grandes felinos vivendo livres. Contrabando de animais acontece também nas fronteiras da Bolívia com Peru, Chile, Argentina e Paraguai.

Parte de um time na Universidade de Oxford (Reino Unido) que há duas décadas pesquisa impactos e conexões do tráfico mundial de animais, a bióloga brasileira Thaís Morcatty avalia que caça e tráfico associados à disparada do desmatamento e das queimadas na Amazônia e no Pantanal põem em xeque a sobrevivência do maior felino das Américas.

“Esses problemas podem reduzir populações de onças em quantidade muito maior do que se imagina. As onças circulam livremente pelas florestas contínuas e pouco acessíveis das fronteiras amazônicas e pantaneiras, regiões remotas e pouco fiscalizadas. Sabemos que pessoas caçam onças no Brasil e levam para escoar suas partes desde países vizinhos”, denuncia a pesquisadora.

Brasil e Bolívia dividem quase 3.500 quilômetros de fronteiras. O desmate na Amazônia brasileira pode alcançar este ano cerca de 13 mil quilômetros quadrados, taxa semelhante à registrada em 2008. Quase 40 mil quilômetros quadrados (28%) do Pantanal já queimaram em 2020. Os dados são de instituições públicas federais.

Presa de onça em posse de criminosos. Foto: Liga da Terra Internacional.

Quebra-cabeça

A investigação da Liga da Terra Internacional é apoiada pela ONG União Internacional para a Conservação da Natureza e pela Loteria do Código Postal Holandês. O trabalho da entidade sediada em Los Angeles conta até com ex-membros da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, sigla em inglês).

O esforço confirmou que bolivianos caçam e revendem partes de onças a traficantes chineses. Os pedaços chegam à Ásia na bagagem de aviões ou presos ao corpo dos criminosos. Brasil, Vietnã e Hong Kong são escalas preferidas. Agentes alfandegários e policiais são subornados para fazer vista grossa. Impunes, restaurantes no estado de Santa Cruz servem pratos baratos com carne de onça.

“A China é o mercado ilegal mais importante para vários produtos de vida selvagem da América Latina, como partes de onças, barbatanas de tubarão, animais vivos e madeiras. Os traficantes podem usar, ainda, aeroportos em Amsterdam, na Holanda, na Cidade do México ou Los Angeles”, conta Andrea Costa, diretor executivo da Liga da Terra Internacional.

O tráfico cresce na Bolívia desde 2015, quando o país passou a buscar recursos estrangeiros para aliviar a crise econômica. Sempre disposta a ampliar sua presença geopolítica, a China investe pesado em mineração, geração de energia e outras obras de infraestrutura na Bolívia e outros países latino-americanos. Trabalhadores e investimentos chineses chegam juntos nessas regiões.

Em 2015 um chinês foi detido em Beijing com 119 dentes de onças trazidos da Bolívia. Quase 200 presas e peles de onças foram apreendidas em fevereiro de 2018 com outros dois chineses. Foram condenados a 4 e 3 anos de prisão. Mais de 300 dentes do maior felino das Américas já foram encontrados pelo correio boliviano em pacotes rumo à China.

Onças são mortas por suas presas, peles, ossos e testículos. Na China esses itens são usados como adereços, remédios e contra impotência sexual. O país tem quase 1,4 bilhão de habitantes. Lá as presas de onças valem 10 vezes mais do que o valor pago a criminosos da América do Sul. Eles usam rádios, Redes Sociais e panfletos na compra de partes de onças.

A procura pelo “Tigre Americano” ganhou força com a extinção ou redução das populações de grandes felinos na Ásia justamente pela caça e tráfico, como o tigre-de-bengala. Os métodos para captura e venda desses animais e também de chifres de rinocerontes e marfim de elefantes foram transportados para a América do Sul.

Também há apreensões de partes de onças na União Europeia, outras países asiáticos e até na rota México – Estados Unidos. 

Crimes conectados

Adereços de mau gosto produzidos com dentes de onças. Foto:  Liga da Terra Internacional.

A investigação encontrou mais de 50 traficantes de partes de onças em países latino americanos como Suriname, Peru e Guiana. E outros 25 apenas na Bolívia. Todos estão organizados em redes criminosas. Muitos atuam em atividades legalizadas como restaurantes e lojas de produtos variados.

Com nome de cidade chinesa e envolvida no tráfico de drogas, a gangue Putian é apontada pela investigação como controladora das exportações de partes de onças na Bolívia. O grupo seria o braço sul americano da Máfia de Fujian, da China. Juntas atuam na operação e lavagem de dinheiro em cassinos e outros negócios lícitos e ilegais. 

A Bolívia é um dos maiores produtores mundiais de coca e cocaína e um corredor para drogas vindas da Colômbia e do Peru rumo a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Europa. Para Andrea Costa, da Liga da Terra Internacional, o tráfico de vida selvagem ganha em investimentos e organização quando associado ao contrabando de drogas.

“Não estamos lidando apenas com caçadores furtivos ou pequenos grupos pouco sofisticados, mas com redes de tráfico internacional e homens de negócios que fazem ‘todo tipo de coisas’. Eles operam quase sem perturbações há décadas e se tornaram muito bons no que fazem. Sabem como subornar pessoas e contrabandear qualquer coisa da América Latina. A região é um ‘bufê livre’, você pega o que quer e sai”, analisou.

Por isso o ativista alerta que o tráfico de animais não é uma questão isolada de conservação da natureza. Segundo ele, não basta combater o crime apenas com cientistas, biólogos e ativistas, pois eles não são páreo para os criminosos. Redes criminosas e traficantes pouco ligam para programas conservacionistas, parques, leis ou fronteiras nacionais. 

“Se você olhar para este problema como sendo principalmente um problema de conservação, você está fadado a falhar. Para combatê-lo precisamos de forte vontade política nas regiões mais críticas e fortalecer coleta de informações e investigações para melhor compreender o problema, sua cadeia de abastecimento e os principais atores envolvidos”, ressaltou.

São crânios e ossos de onças em posse de traficantes. Foto: Liga da Terra Internacional

É crime federal caçar e vender animais selvagens na Bolívia desde 1986. Em 2017 foi definindo um plano nacional de combate ao tráfico no país. Todavia, combater o tráfico de vida selvagem não é prioridade para o Governo Boliviano, afirma o relatório da Liga da Terra Internacional.

A escalada do tráfico de animais no país andino-amazônico levou a Embaixada da China na Bolívia a enviar um comunicado no primeiro semestre de 2018 pedindo aos “cidadãos chineses que vivem na Bolívia a respeitar e observar estritamente tanto as leis e regulamentos chineses como bolivianos contra o tráfico ilegal de animais selvagens”. 

Tentamos ouvir a Embaixada da China na Bolívia sobre as novas investigações internacionais, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem. 

 

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4 comentários em “Caça e tráfico de onças disparam em estados bolivianos na fronteira com o Brasil”

  1. Eu acho isso um absurdo por que muitas onças morrem no meio do tráfico de onças e mesmo que se não morre no meio do tráfico eles matam quando chega na Bolívia, e se continuar do jeito que está as onças podem ser extintas.

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