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Avança iniciativa pioneira para recuperar vegetação nativa em ilha carioca

Projeto Ilhas do Rio chega na terceira fase de restauração na Ilha Comprida, no Monumento Natural das Ilhas Cagarras, no Rio de Janeiro, com mais de 350 mudas plantadas e combate ao capim-colonião

Duda Menegassi ·
2 de julho de 2021

Protagonistas do horizonte carioca, as ilhas que compõem o arquipélago das Cagarras são parte da paisagem avistada por banhistas da praia de Ipanema. Quem vê da areia, entretanto, provavelmente não irá distinguir a ligeira mudança de visual em uma delas. A diferença está na ilha Comprida, mais especificamente em sua ponta mais ocidental, onde está em curso uma iniciativa pioneira de reflorestamento insular, comandada pelo Projeto Ilhas do Rio. O trabalho de plantio de nativas e eliminação do capim invasor começou nos idos de 2014 e, no final de junho deste ano, deu início a sua terceira e última etapa. 

No dia 25 de junho, a atividade de replantio implementou quatro núcleos, com quatro novas mudas em cada um deles para se somar às outras plantadas anteriormente. Para tentar dar uma forcinha extra para as plantas, foram instaladas telas especiais para o sombreamento em cada um dos núcleos. Os sombrites, como são chamados, são uma novidade desta etapa e parte do objetivo dos pesquisadores com essa ferramenta é descobrir se a sombra ajuda a combater o capim-colonião (Megathyrsus maximus), espécie de gramínea africana exótica que tem sido combatida para dar espaço às espécies nativas. 

“Com o sombreamento artificial será possível descobrir se a sombra total realmente impede de alguma forma o crescimento do capim, facilitando, assim, o crescimento das mudas e dando oportunidade para as sementes das plantas nativas germinarem e crescerem naturalmente no local. Vale lembrar que todo esse experimento é pioneiro em ambientes insulares”, explica o pesquisador Massimo Bovini, coordenador da iniciativa de restauração florestal, feita em parceria do Projeto Ilhas do Rio com o Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Um dos grandes desafios dos pesquisadores nesse trabalho pioneiro tem sido justamente superar o invasor. O capim-colonião além de se espalhar rapidamente e não dar espaço para flora nativa, é um excelente combustível e aumenta consideravelmente o risco de incêndios na ilha. Na área de 800m² da ilha, o capim já perdeu espaço, mas ainda não foi eliminado. A gramínea, entretanto, não impediu que algumas das mudas se transformassem em árvores de três metros de altura.

O pesquisador Massimo Bovini, coordenador da iniciativa, planta uma das quatro mudas da nova etapa. Foto: Caio Salles/Projeto Ilhas do Rio

“Nas últimas visitas de monitoramento já encontramos pássaros nos galhos e sementes de pitangas germinando. Isto é, a dinâmica do ecossistema está voltando sem a nossa influência. Isso faz com que o capim vá perdendo sua força, além de auxiliar com a estocagem de carbono”, comemora Massimo. Ao todo, foram plantadas mais de 350 mudas de quatro espécies nativas da Mata Atlântica. As que melhor se adaptaram foram a aroeira (Schinus terebinthifolius) e a Lonchocarpus virgilioides, que hoje já exibem suas flores e frutos. Com a volta dos pássaros, a iniciativa ganha um aliado, já que eles são dispersores naturais de sementes.

O arquipélago das Cagarras é protegido como Monumento Natural (Mona) desde 2010 e compõem outras três ilhas principais, além da Comprida: Redonda, Palmas e a que dá nome à unidade de conservação federal, a Cagarra, e outras ilhotas. O capim-colonião também pode ser avistado em outros pontos do Mona, ainda que em menor escala.

O capim não é a única espécie exótica registrada na Ilha Comprida. Em 2014, os pesquisadores avistaram pela primeira e única vez a presença de coelhos. Os registros de fotos e vídeos indicavam que se tratava da espécie Oryctolagus cuniculus, de origem europeia, mas como foram encontrados apenas uma vez, tudo indica que não conseguiram estabelecer uma população. Em outras idas na Ilha Comprida, também foram encontrados ratos, identificadas como Rattus norvegicus, também exótica e invasora. Para mapear melhor a fauna terrestre, em especial os mamíferos, a nova etapa do projeto irá incluir uma pesquisa inédita da mastofauna do Mona Cagarras. 

 “Os ratos, do gênero Rattus, têm grande impacto sobre a biota nativa, especialmente em ambientes insulares. Eles, por exemplo, predam ovos e filhotes de aves marinhas, sendo, portanto, um grande perigo para os atobás e as fragatas do MoNa Cagarras. A boa notícia é que por enquanto eles só foram capturados na Ilha Comprida, o que significa que ainda não chegaram a colonizar as outras ilhas”, aponta a pesquisadora Júlia Luz, que irá coordenar esse levantamento que terá como objetivo aprofundar o estudo não apenas dos invasores, mas também sobre as espécies nativas, como morcegos.

Os dados levantados servirão de base para elaborar uma estratégia de ação de espécie exótica, um dos eixos previstos pelo plano de manejo da unidade de conservação, publicado recentemente pelo ICMBio, órgão gestor do Mona Cagarras e parceiro do projeto.

As espécies exóticas invasoras são consideradas uma das grandes ameaças à biodiversidade, principalmente em ambientes insulares, e podem causar impactos graves como predação, extinções locais, competição por recursos, deslocamento de nichos e até hibridização.

A nova fase do Projeto Ilhas do Rio conta com a curadoria técnica do WWF Brasil e com patrocínio da Associação IEP (AIEP) e da empresa de investimentos JPG.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação e montanhismo. Escreve para ((o))eco desde 2012. Autora do livr...

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