Autódromo de Deodoro: projeto que preserva área está engavetado há 1 ano e meio

Emanuel Alencar
domingo, 1 março 2020 11:35
Imagem do Campo de Instrução de Camboatá (Área 1) e de área militar anexa ao leste (Área 2). Fonte: Google Earth.

A polêmica instalação de um autódromo em Deodoro, Zona Oeste do Rio de Janeiro, afetando uma área de floresta com até 200 mil árvores, é vedada por um projeto de lei que está engavetado desde setembro de 2018 na Assembleia Legislativa do Rio. De autoria de Carlos Minc (PSB) e do ex-deputado André Larazoni, a proposta anexa a área, de 160 hectares, ao Parque Estadual do Mendanha. No entanto, apesar de aprovado por duas comissões, o texto jamais foi levado a plenário. Por pressões políticas. Na última quinta-feira (27), 12 conselheiros da Comissão Estadual de Controle Ambiental (Ceca) do Rio de Janeiro deram o aval para o prosseguimento do processo de licenciamento do empreendimento. A audiência pública deverá ser confirmada para o próximo 18 de março, no Corpo de Bombeiros de Deodoro.

“O PL já passou pelas comissões de Constituição e Justiça e Meio Ambiente, mas nunca foi votado. Há enormes pressões do prefeito Crivella, do governador Witzel e do presidente Bolsonaro, que são favoráveis ao empreendimento”, diz Minc. “A ideia é justamente trazer dinamismo econômico, com ecoturismo, horto, aliado à conservação da área. Não faz sentido um autódromo ali, até porque há outras áreas que poderiam receber o empreendimento. Acredito que a questão acabará sendo judicializada”.

As pressões para a liberação do empreendimento, cujo Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (Eia-Rima) foi apresentado ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) em novembro do ano passado, vem se intensificando. ((o))eco apurou que o assunto vem constrangendo alguns analistas do Inea, que enxergam total inviabilidade em conciliar a manutenção de um importante fragmento de floresta com ronco de motores. Também em novembro passado, o piloto inglês Lewis Hamilton jogou lenha na fogueira ao criticar a proposta, considerada por ele insustentável. “Se for derrubar uma árvore, sou contra. Vocês (brasileiros) têm uma floresta fantástica e são importantes para o controle climático”, disse na ocasião.

Floresta do Camboatá, em Deodoro, Rio de Janeiro. Arte: Márcio Lázaro.

Área em regeneração

Especialistas argumentam que a área em questão – concedida pelo Exército Brasileiro à Prefeitura do Rio – é o único fragmento bem preservado acima de 100 hectares de mata de terras baixas na cidade do Rio. Segundo o EIA-Rima, há quatro espécies da flora  no local ameaçadas de extinção: Grápia, Jacarandá-da-Bahia, Braúna e Jequitibá. Quanto à fauna, são cinco espécies correndo riscos: jacaré-do-papo-amarelo, saíra-sapucaia, trinca-ferro, capivara e mão-pelada.

“Em 68% desses 160 hectares existem áreas florestais em bom estado. É uma área em regeneração, com indivíduos [espécies de vegetais] jovens. Se quiserem levar um autódromo para a região, que seja utilizada a área do parque radical onde foi a canoagem [nos Jogos de 2016]”, sugere o botânico Haroldo Cavalcante, pesquisador do Jardim Botânico e membro do movimento SOS Floresta do Camboatá.

É de Haroldo a conta da necessidade de supressão de 200 mil árvores:

“Por estimativa, é por aí mesmo”, diz, acrescentando que o Jardim Botânico do Rio foi provocado pelo Ministério Público em duas ocasiões, em 2012 e 2013, e manifestou que a área tem enorme importância ambiental.

O presidente do Ceca, Maurício Couto, destacou que ainda não há deliberação nem análises definitivas sobre o empreendimento, e que o colegiado voltará a analisar a proposta após as audiências públicas. Já o Grupo de Apoio Técnico Especializado (Gate), do Ministério Público estadual, está finalizando uma análise qualitativa do EIA-Rima. O trabalho, conduzido pelo Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), reúne um grupo multidisciplinar.

Projeto do novo autódromo, sobre a Floresta de Deodoro. Foto: Divulgação.

Em maio de 2019 a Rio Motopark venceu o certame para a construção do autódromo, que seria capaz de receber a Fórmula 1 a partir da temporada de 2021, após o término do atual contrato com São Paulo. Mas o imbróglio ganhou corpo quando o portal “G1” divulgou que o presidente da Rio Motorpark, José Antonio Soares Pereira Júnior, é sócio da Crown Assessoria, que ajudou a montar o edital. Ainda naquele mês, o presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que a cidade tinha “99% de chances” de sediar as provas de velocidade. O projeto prevê 14 meses de obras e um traçado de 5 quilômetros para provas de automobilismo e motociclismo.

Uma das controvérsias ainda não esclarecidas diz respeito ao fato de o terreno não ter passado por uma varredura completa, possuindo “campos minados” ativos, já que as Forças Armadas utilizavam o espaço para treinamento desde a década de 1950. Acidentes com explosões já foram documentados, como mostrou reportagem da Agência Sportlight de dezembro.

 

Leia Também 

No meio do caminho de um autódromo, há uma  floresta

Prefeitura do Rio quer autódromo na Floresta de Deodoro

TRF-2 suspende contrato de construção de autódromo na floresta de Deodoro

 

 

 

1 comentário em “Autódromo de Deodoro: projeto que preserva área está engavetado há 1 ano e meio”

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.