As aventuras dos dois defensores da natureza do início do século XX

Fernanda Wenzel
domingo, 12 agosto 2018 21:29
Padre Balduíno Rambo (à esquerda) e Luís Roessler (à direita): dois pioneiros.

Realizar uma “queima” anual de bodoques para defender os passarinhos. Sobrevoar centenas de milhares de quilômetros tomando nota dos mais mínimos detalhes das paisagens brasileiras. Tudo isso na primeira metade do século XX, quando a ideia do ambientalismo, tal como conhecemos hoje, sequer existia. Com estilos bem diferentes, Luís Roessler (1896-1963) e padre Balduíno Rambo (1906 – 1961) foram os primeiros gaúchos a se destacarem na luta pela preservação do meio ambiente no Rio Grande do Sul.

A professora e pesquisadora Elenita Malta Pereira é doutora em História e autora do livro “Roessler: O homem que amava a natureza” (2013), e de diversos artigos sobre a trajetória do ambientalismo no Rio Grande do Sul. Ela lembra que naquela época muitos já percebiam a necessidade de proteger os animais e as matas, mas poucos conseguiram vocalizar isso como essas duas figuras.

“Eles são importante neste sentido de criar uma base, um capital social”, afirma Elenita, lembrando que Roessler foi escolhido patrono da Associação Gaúcha de Proteção Ambiental, fundada em 1971 por José Lutzenberger, Augusto Carneiro e Hilda Zimmermann. “Eles se apropriam daquela memória, do que aconteceu antes”. Além da inspiração, esses dois personagens deixaram histórias que revelam o amor à natureza na sua forma mais crua, divertida e, por vezes, controversa.

O padre cientista

Um viajante, um filósofo, um botânico, um naturalista, um padre e também um cientista. Tudo se aplica ao padre Balduíno Rambo. O menino nascido em Tupandi (RS), filho de pequenos agricultores descendentes de alemães, um dia viria a sobrevoar mais de cem vezes as paisagens brasileiras em busca de informações sobre fauna, flora, geografia, geologia e tudo mais que fosse possível observar das alturas.

As expedições, que também eram feitas por terra, se davam à serviço do Exército. Uma delas, em que sobrevoou todo o território gaúcho, deu origem ao livro “A Fisionomia do Rio Grande do Sul”, lançado em 1942. A obra trazia informações inéditas sobre a natureza do Estado. Mas Balduíno não se limitou a descrever o que via. O capítulo final, intitulado “Proteção à Natureza”, reflete a inquietude com problemas ambientais que ele observava em suas andanças.

O padre denuncia o desmatamento provocado pela agricultura e pela exploração da madeira, e também a matança dos animais silvestres: “nas matas da borda da Serra colonizada, nada resta da maior parte dos mamíferos e aves de caça”. Neste livro, Rambo também levanta uma de suas principais bandeiras: a instalação de Parques Naturais. O primeiro parque gaúcho, a Reserva do Turvo, seria criado 5 anos depois por sugestão de padre Rambo.

Padre Rambo com avião. Imagem: Dissertação de Nara Beatriz Witt, 2016.

Arthur Blasio não conviveu muito com o irmão. Além de ser 25 anos mais velho, Balduíno deixou o Brasil aos 22 anos para passar seis anos na Alemanha estudando Filosofia. Quando voltou ao Rio Grande do Sul foi para Seminário Jesuíta para se ordenar Padre. Só foi conviver de verdade com o irmão no final da década de 1950, quando Arthur veio estudar em Porto Alegre e Balduíno já era professor no Colégio Anchieta. Aos finais de semana, acompanhava o irmão mais velho nas viagens pelo interior. Seu principal objetivo era a coleta de plantas para o herbário que ele havia criado no Museu de História Natural do Colégio Anchieta, que chegou a ter 11 mil exemplares de flora.

“Ele tinha um jipe velho, sobra da Segunda Guerra Mundial, com que andava por tudo que era canto. Dessas andanças as preferidas eram pra Cambará do Sul e o cânion de Itaimbezinho. Lá a gente conversava muito e convivia em acampamentos que a gente montava. Inclusive eu passei com ele uma noite inteira dentro do Itaimbezinho porque choveu e não deu pra sair. Ficamos trancados até o dia seguinte no fundo daquele buraco”, lembra Arthur, professor aposentado da UFRGS e da Unisinos, e que aos 88 anos segue um estudioso da filosofia, teologia, história e ciências naturais.

Canion Itaimbezinh. Foto: Governo do RS.

Em 1959, a região preferida para as andanças de padre Rambo passou a ser protegida pelo Parque Nacional dos Aparados da Serra. Mais uma vez, ele foi um dos incentivadores do Parque. O padre também foi um dos fundadores e o primeiro diretor do Museu Rio-Grandense de Ciências Naturais. Por sua sugestão, foram criados posteriormente o Jardim Botânico de Porto Alegre e o Zoológico de Sapucaia do Sul. Essas instituições, hoje sob o guarda-chuva da Fundação Zoobotânica, estão agora ameaçadas pelo governo de José Ivo Sartori (PMDB-RS).

Arthur explica que Padre Balduíno não via nenhuma contradição entre suas crenças na ciência e na religião. Pelo contrário, via a ciência como evidência da existência de Deus, e a preservação da natureza como uma questão não apenas de sobrevivência, mas também ética e moral. “A natureza não pode ser entendida pela racionalidade filosófica, nem teológica, nem científica. Tem que ser vivida pelo coração, pela emoção, e principalmente pela intuição”, explica Arthur.

O terror das passarinhadas

Uma travessa de carne de passarinho bem fritinha, temperada, acompanhada de polenta, molho vermelho e uma taça de vinho. Para os descendentes de italianos, a passarinhada era uma tradição que unia o gosto pela caça, a necessidade de subsistência e a tradição de reunir família e amigos ao redor da mesa. Mas para Luis Roessler, esse festim era o principal problema ambiental do Rio Grande do Sul.

Ao contrário de Rambo, Roessler não tinha curso superior. Seu conhecimento da natureza vinha da vivência da infância em São Leopoldo, às margens do Rio dos Sinos. Com a publicação do Código Florestal, em 1934, Roessler se candidatou para o cargo de Delegado Florestal. Logo, estava responsável não apenas por controlar o desmatamento como a caça e pesca ilegais por todo o território gaúcho, e ganhou fama como o fiscal mais rigoroso que já andou por essas bandas.

Foi aí que se tornou o terror das passarinhadas. Roessler não perdoava: apreendia bodoque (estilingue, funda), arma de fogo, armadilha e tudo mais que pudesse ser usado para abater os bichinhos. José Olavio Santana, que acompanhou Roessler nas fiscalizações entre 1962 e 1963, descreve bem qual era a fama do “velho Roessler”:

[…] se tavam caçando de bodoque, e ele chegava aqui, mas… Deus me livre, corriam tudo, se escondiam até́ debaixo da cama de medo dele, né? Chamavam ele de velho roessler, todo mundo. se alguém avisava “o velho roessler tá por aí”, mas… todo mundo já́ ficava com medo! (Santana, em entrevista a Elenita Malta Pereira, 2011).

A atuação de Roessler, descendente de alemães, chegou a provocar uma tensão étnica em um contexto marcado pela Segunda Guerra Mundial. Roessler chamava os italianos de “gringos”, “tarados”, “violentos”, “loucos”, “maus brasileiros”, “povo danado e fingido”, e dizia que a passarinhada era um “vício inato” desta comunidade. Os descendentes de italianos, por sua vez, chamavam Roessler de “cangaceiro”, “espancador de indefesos colonos”, “arrebatador de armas sem licença”, e usavam apelidos ligados ao nazismo como “quinta coluna”, “porco”, “agente da Gestapo”, “agente com saudades de Dachau”, “racista” e “herr. Roessler”.

O fato é que Roessler era de fato um amante destes animais, a ponto de ter construído para ele próprio uma clássica casa de passarinho, em cima de uma árvore: “Ele construiu na beira do Rio dos Sinos, e cabia um colchão onde ele e a mulher dele dormiam de vez em quando. Ele gostava tanto dos passarinhos que ele queria se sentir como um deles”, explica Elenita, que conseguiu essa foto de Roessler e a esposa na casa na árvore, após 3 anos de esforços de pesquisa.

Casa na árvore. Acervo de Elenita Malta Pereira.

Mas esta não era a única briga que Roessler comprava. Outra luta constante era para convencer os arrozeiros a pouparem os filhotes de peixes. Para irrigar a produção, os agricultores usavam bombas da água para puxar a água dos rios. Junto, vinham os alevinos, que acabavam morrendo nas plantações. Para evitar a mortandade, Roessler exigia que os colonos utilizassem uma tela na ponta do cano de sucção.

Luiz Carlos Sanfelice aprendeu isso na prática. Assim como Santana, ele foi fiscal subordinado a Roessler, entre 1959 e 1961. Sanfelice e Roessler faziam suas expedições aos finais de semana, fiscalizando e parando para acampar e comer algo improvisado. Numa dessas andanças, na altura de Cachoeira do Sul, Sanfelice recebeu uma ordem para parar junto a um açude, ao lado de uma lavoura:

[…] ele disse, “tá vendo essa lavoura aí?”, “sim, tô vendo”, “tá vendo que tem garça na lavoura?, tô, tô vendo, se tem garça, é porque tem peixe, se tem peixe é porque a bomba que faz a sucção da água tá puxando peixe, peixe pequeno, que não tem força pra resistir […] Você̂ fica de calção – Fomos até́ o local onde estava a sede do bombeamento – e você entra, e vê̂ se a tantos metros onde tem a bomba, tem um anteparo, uma tela, que tem ter tal tamanho na abertura da rede pra não deixar passar alevinos nem os peixinhos pequenos, filhotes, etc. se não tiver, você me diz. Mas assim, meu Deus do céu: rio taquari, rio Jacuí, rios poderosos, essas bombas fundas, três, quatro metros de fundura, e na ocasião nós estávamos com uma Kombi. Bom, eu tirei a roupa, fiquei de calção, e fui, louco de medo de me topar com aquilo. […] E aí, eu entrei, meio com medo, e aí mergulhei ai, e senti, disse: “olha, a malha é mais ou menos tanto”. E o seu roessler: “não pode ser, tá vindo peixe, tão ali as garças, daí multou o camarada. aí eu voltei pra caminhonete e tentei me secar, ele disse Nem te veste, que já vai ter outra”. E assim nós fomos toda aquela região, até São Joao do Polesine, Vale Vêneto, toda aquela região já subindo a serra, fiscalizando tudo (Sanfelice, em entrevista a Elenita Malta Pereira, 2011).

Além de auxiliar nas fiscalizações, os jovens assistentes tinham a missão de conduzir o jipe cedido pelo governo do Estado. Roessler não podia dirigir. Desde 1952 andava com uma perna de pau, depois de tido o pé direito amputado em decorrência de um acidente de automóvel.

Em 1954, Roessler perdeu cargo de fiscal florestal e criou a União Protetora da Natureza (UPN), primeira entidade de defesa ambiental do Rio Grande do Sul. Foi nesta época que Roessler começou a promover a cerimônia de queima anual dos bodoques, realizada sempre em dezembro como um ato educativo para as crianças:

Queima de bodoques. Acervo de Elenita Malta Pereira.

Roessler também ficou conhecido pela coluna semanal que começou a escrever em 1957 para o jornal Correio do Povo, onde tratava de questões ambientais. O tom educativo também ganhou a forma de folhetos da UPN, feitos à mão por ele mesmo e distribuídos em cerca de 3 mil escolas do Rio Grande do Sul. Os materiais eram endereçados a pais e professores, para que ensinassem as crianças a preservarem as florestas, os rios, os animais em geral e, principalmente, os passarinhos.

A UPN, no entanto, era uma entidade de um homem só, como define Elenita. Apesar de ter colaboradores em diversas partes do Estado, quem de fato mantinha a instituição era o incansável Roessler. Tanto que a UPN morreu junto com seu fundador, em 1963. A fama do velho, no entanto, segue até hoje na memória de muita gente pelos interiores do Rio Grande.

Educação perniciosa, retrato de um tarado, assassinos entre nós – Panfletos contra passarinhada mostram o estigma étnico que Roessler empregava contra os descendentes de italianos.
Peixes – Neste folheto, Roessler mostra como os produtores de arroz deviam instalar telas nas pontas dos canos que puxam a água dos rios.
Reflorestamento e corujas – Panfletos em tom mais ameno, em que Roessler mostra a importância de preservar a natureza.

 

 

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