Ararinhas-azuis: 4 filhotes foram mandados para a Alemanha

Carolina Lisboa
segunda-feira, 16 março 2020 14:20
Os filhotes em junho de 2019. As aves vão compor o plantel alemão. Foto: Criadouro Fazenda Cachoeira.

Quatro filhotes de ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii), dois machos e duas fêmeas com cerca de 180 dias de vida, foram enviadas para a Alemanha há uma semana, domingo, no dia 8 de março. De acordo com Ugo Vercillo, analista ambiental da Coordenação de Ações Integradas para Conservação de Espécies do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), as aves vão compor o plantel alemão e mesclar a genética das populações do Brasil e Alemanha. “Isto é um processo regular para manter o pool genético. No criadouro do Brasil tem animais emprestados pela Alemanha e Catar, assim como na Alemanha tem animais emprestados pelo Brasil e Catar”.

A quatro aves nasceram em 2019 na Fazenda Cachoeira, um criadouro científico com fins conservacionistas no interior de Minas Gerais. São dois machos e duas fêmeas. As aves saíram da Fazenda Cachoeira para o Aeroporto do Galeão e, de lá, foram enviadas para a Alemanha, onde estão em quarentena. Ugo Vercillo explicou que o envio das aves para a Alemanha segue as cláusulas de um contrato: “O Loan Agreement (contrato de empréstimo, em português) trata da propriedade dos animais. Ele estipula que, no caso de filhotes gerados por casais mistos de aves da Association for the Conservation of Threatend Parrots (ACTP) e do Brasil, os filhotes ímpares são do Brasil e os pares da ACTP. Na Fazenda Cachoeira tem, pelo menos, dois animais da Al-Wabra Wildlife Preservation Centre (AWWP) e um da ACTP, que são pais destes animais”. Vercillo complementa que, assim como os quatro filhotes foram enviados para a Alemanha, já vieram animais da Alemanha para o Brasil. “Em 2015, dois filhotes vieram para o Brasil. Inclusive estes que chegaram são pais dos filhotes que nasceram em 2019”, informou o analista.

De acordo com o ICMBio, anualmente, 70% de todos os filhotes produzidos são enviados para o Centro de Reprodução e Reintrodução em Curaçá para serem reintroduzidos na Caatinga. Este processo é importante para que as aves, tanto as que serão soltas quanto as que ficarão em cativeiro para reprodução, tenham a máxima diversidade genética possível. Com isso, se minimizam os riscos de endocruzamento (acasalamento de indivíduos que são geneticamente próximos) das ararinhas-azuis, o que poderia comprometer o processo de reintrodução.

Situação das ararinhas alemãs

Técnicos com roupa apropriada para manter as ararinhas em segurança. Foto: ACTP.

O ICMBio informou que, antes de viajar, as 52 ararinhas-azuis foram testadas individualmente para todas as doenças necessárias, seguindo o protocolo sanitário brasileiro e o programa de cativeiro. Os resultados de alguns testes foram positivos para a bactéria Mycoplasma sp., comumente associada a doenças crônicas. Contudo, a variedade encontrada não é considerada patogênica, ou seja, não leva ao desenvolvimento de doenças. Por isso, os especialistas consideraram as ararinhas-azuis seguras para viajar para o Brasil. Segundo Vercillo, o Mycoplasma “pode ser encontrado no trato digestório das aves, e não caracteriza nenhuma doença”.

Assim que chegaram ao país, as ararinhas foram enviadas para o Centro de Reprodução e Reintrodução em Curaçá, e foram admitidas em quarentena, sob a supervisão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). No dia 10 de março, servidores do MAPA visitaram as instalações do quarentenário para recolher as últimas amostras para o testes de doenças. “Os exames realizados pelo MAPA são para New Castle e Influenza”, informou Vercillo. Ambas são enfermidades virais altamente contagiosas que acometem as aves, sendo a primeira uma desordem respiratório-nervosa (pneumoencefalite) e a segunda uma gripe que ocasiona sérias lesões nos sistemas respiratório, digestivo, nervoso e reprodutivo das aves. Os técnicos não encontraram quaisquer anormalidades nos exames das 52 aves.

Segundo Vercillo, há apenas um quarentenário de aves no Brasil, a Estação Quarentenária de Cananéia (EQC), no litoral sul de São Paulo. Contudo, o ICMBio conseguiu, junto ao MAPA, autorização para que o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul funcione como quarentenário nessa situação específica. “O nosso centro de reprodução servirá de quarentenário especial, específico para esse transporte das ararinhas, pois o quarentenário de São Paulo não suportaria as 52 aves e a autorização do MAPA foi fundamental para que a ação continuasse como previsto”.

Ao chegarem ao Centro, cada ave foi retirada da caixa de transporte e teve a leitura dos chips realizada. Em seguida foram liberadas no aviário, mantendo o isolamento em relação ao ambiente externo e a outros animais pelo prazo da quarentena que, segundo Vercillo, é de 21 dias. “Qualquer transferência de um animal traz o risco de saúde sanitária. Todo animal carrega consigo potenciais patógenos e quando ocorre um transporte, ocorre o risco de transportar patógenos de um lugar para o outro, por isso é necessário que as aves fiquem em quarentena, aumentando a biossegurança de toda a operação. Este é um procedimento padrão para a entrada de qualquer animal”, informou Vercillo. O analista comparou a quarentena das aves aos procedimentos que vêm sendo realizados para mitigar a pandemia de Coronavírus: “Se você acompanhou a mídia sobre os brasileiros que estavam na China e voltaram, é a mesma coisa. As pessoas foram testadas antes de saírem do país e depois, quando chegaram, passaram 14 dias em quarentena numa base da Força Aérea Brasileira, onde novos exames foram feitos para confirmar a ausência do vírus, antes da liberação”.

Depois da quarentena

Ararinhas azuis adultas em quarentena em Curaçá (BA). Foto: ACTP.

Após os 21 dias de quarentena e depois que todos os exames necessários sejam feitos, será iniciado o período de aclimatação e adaptação em viveiro das aves que estiverem mais preparadas para a soltura, prevista para 2021. Ao longo deste período, os animais passarão por processo de adaptação ao clima mais quente da Caatinga e aos diferentes horários de atividade, já que o sol se põe e nasce em momentos completamente diferentes em relação à Alemanha. Serão formados casais com algumas das aves para reprodução, enquanto outras serão postas em grandes viveiros para desenvolver massa muscular. 

Após esse período, as aves serão postas em um grande aviário de 75 metros de comprimento. Nesse momento, as ararinhas passarão por treinamentos para aprenderem a viver em vida livre. Uma das formas de treiná-las é pareando-as com indivíduos de maracanãs-verdadeiras (Primolius maracana), que possui hábitos semelhantes aos das ararinhas-azuis, para que elas aprendam com as outras aves como procurar comida, locais de pouso e descanso e como se defender de predadores e outros perigos naturais, por exemplo.

 

 

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