A flora das Geraes

Roselena Nicolau*
sexta-feira, 28 abril 2006 12:08

Lançado esta semana, o “Mapeamento e Inventário da Flora Nativa e dos Reflorestamentos de Minas Gerais”, um estudo inédito realizado por equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Lavras, traz alguns resultados surpreendentes. Indica, por exemplo, que Minas ainda tem 33,7% de seu território coberto por vegetação de Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. O que não é nada mal para um estado fincado no Sudeste, região mais desenvolvida do país. Em São Paulo, por exemplo, a mata nativa não cobre mais do que 8% do território.

O trabalho mostra ainda que a destruição dessa flora nativa mineira é menor do que o professor José Roberto Scolforo, coordenador da pesquisa, imaginava. A comparação de imagens de satélites capturadas entre 2003 e de 2005 aponta para uma perda de apenas 0,26% da cobertura nativa mineira. As imagens mostram também os focos de pressão sobre essa flora, indicando onde as autoridades devem agir para reduzir ainda mais o seu desmatamento.

Extremamente detalhado, o estudo, lançado na semana passada, foi encomendado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) e baseia-se numa seqüência de fotografias satélite tiradas durante a primavera, verão e inverno, para captar as variações provocadas nas plantas por fatores climáticos durante o ano. “Há uma mudança nítida da flora durante os períodos, por isso usamos uma série temporal, que diminui imensamente qualquer margem de erro”, diz Scolforo. Foram feitas também investidas em campo para confirmar o que os satélites estavam fotografando lá de cima.

O trabalho também contém um inventário inicial da flora estadual que estará completo em setembro. “Já chegamos a catalogar 1,8 mil espécies, mas acredito que vamos ultrapassar 2,2 mil espécies”, diz Scolforo. A intenção do IEF é dar continuidade ao mapeamento e ao inventário para ter uma base de dados de comparação a cada dois anos.

Cerrado preocupa

A cobertura nativa mineira corresponde a 33,7% de uma área total do estado de 58 milhões de hectares, abrangendo a Mata Atlântica, o Cerrado e Caatinga. As áreas mais degradadas, estão localizadas no Triângulo Mineiro, ao leste e ao sul do Estado. “Elas foram bastante modificadas por causa de pastagem”, explica Scolforo. Mas nelas a degradação é antiga. Preocupante é a situação do Cerrado mineiro, que ainda ocupa 10,8 milhões de hectares, de uma extensão original de mais de 30 milhões de hectares.

Ele hoje é o alvo preferencial dos desmatadores estaduais. A perda se concentra no noroeste do Estado, onde a expansão da soja lhe roubou entre 2003 e 2005, 70 mil hectares. O segundo maior foco de pressão está localizado em área de Mata Atlântica, que ainda representa 17,26% da flora nativa estadual, no nordeste mineiro. Lá, as carvoarias funcionaram como o principal motor da devastação de 30 mil hectares registrada de 2003 a 2005.

O documento, divulgado durante o Congresso Mineiro de Biodiversidade (Combio), realizado durante esta semana em Belo Horizonte, também mostra a “fisionomia da flora nativa” por bacias e sub-bacias hidrográficas, o que aumenta em muito as chances de medidas localizadas de proteção.

Segundo Scolforo, com a continuidade da pesquisa será, cada vez mais, possível criar mecanismos de defesa do patrimônio natural. “Eu acredito que os índices de preservação estão bons, bem acima da média nacional, porém não podemos nos contentar com isso. Temos que perseguir índices muito melhores”, assinala Scolforo, lembrando que ainda não foi possível definir a porcentagem legal e ilegal das áreas nativas perdidas .

Caatinga redimensionada

Entre as três principais floras nativas existentes em Minas Gerais, a caatinga é a que sofreu menor alteração nos últimos anos em relação à cobertura registrada nas imagens tiradas em 2003. Scolforo explica, entretanto, que não dá para afirmar que ela está melhor preservada do que seus pares porque ela se espalha por área bem menor. Portanto, o eventual desaparecimento de espécies da sua flora pode ter tido impacto bem mais significativo.

A caatinga que ainda viceja em solo mineiro deverá ser redimensionada junto ao Instituto Brasileiro de Geoestatística (IBGE). A área detectada pela pesquisa é o dobro da apontada pelo IBGE. “Isso é natural. Estamos com os olhos totalmente voltados para Minas, ao contrário do IBGE. Vamos sugerir a mudança dos índices a partir da constatação da pesquisa”, conta Scolforo.

Sobre florestas plantadas, o trabalho dos pesquisadores identificou que elas se espalham por 1,13 milhão de hectares do estado. A maioria é dominada por eucaliptos. “Nas estatísticas oficiais, o estado surge como aquele que contém a maior área reflorestada no Brasil com espécies do gênero Eucalyptus”, diz o professor. As regiões com maior volume de florestas plantadas de eucalipto são as das bacias dos rios São Francisco, Doce e Jequitinonha. Entretanto, o reflorestamento ocupa percentualmente a maior parte da bacia dos rios Piracicaba e Jaquari, com 6,97% da área.

Para Scolforo, é imprescindível continuar com o monitoramento das florestas nativas e plantadas porque isso permite ao estado o desenvolvimento de uma política ambiental e florestal, além de gerar inúmeras pesquisas e programas ligados à conservação. “Com o Mapeamento, temos condições de conhecer o estoque de madeira da cobertura do estado, estimar o estoque de carbono, fornecer listas de espécies mais abundantes e as mais raras, dar subsídios para estudos de sementes, produção de mudas e melhoramento genético de espécies, e muito mais”. Bom para as matas de Minas.

* Roselena Nicolau é mineira de Belo Horizonte e jornalista. Foi repórter do Jornal do Brasil por 12 anos é correspondente da Agência Sebrae de Notícias.

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