O ambientalista de resultados – com José Palazzo Truda

Carolina Elia, Sérgio Abranches e Manoel Francisco Brito
sexta-feira, 24 setembro 2004 16:24

Não se deve duvidar da capacidade de José Truda de defender baleias. Quando tinha 16 anos, em pleno regime militar, ouviu dizer que havia um vice-almirante no Estado Maior das Forças Armadas, Ibsen Gusmão Câmara, que estava interessado na proteção dos bichos. Jurou à família que iria falar com ele. Ninguém acreditou. Truda passou a mão no telefone, ligou para o gabinete do militar e para surpresa geral marcou uma audiência. Passaram uma tarde inteira conversando. Meses depois, recebeu de Ibsen 2 mil dólares e uma missão: procurar baleias francas, que tinham praticamente sumido do litoral brasileiro. Truda fez muito mais do que isso. Não só achou as baleias como iniciou um movimento pela sua preservação. Durante 19 anos, ele sobreviveu e ajudou as francas graças à sua obstinação, à dedicação de alguns voluntários e amigos e ao dinheiro de seu pai, morto em 1994. Há três anos, conseguiu patrocínio da Petrobrás, o que fez com que seu Projeto Baleia Franca desse um salto de qualidade, como ele mesmo admite. “Hoje podemos fazer aqui pesquisa de Primeiro Mundo”, diz com evidente orgulho. Esta entrevista ele deu ao final de uma expedição de fazer inveja a americano. Durante 4 dias em meados de setembro, Truda – jardineiro de profissão – e a bióloga Karina Groch sobrevoaram a costa brasileira do Chuí, no Rio Grande do Sul, até Macaé, no norte do estado do Rio, para monitorar o movimento das francas na região. Terminaram a viagem no Rio de Janeiro, onde tiveram dois compromissos. Um foi fundar o primeiro núcleo do Projeto Baleia Franca fora de Santa Catarina, sob a coordenação do biólogo e fotógrafo Ricardo Gomes. O outro, aparecer na redação de O Eco, onde ele, com a ajuda de Groch e Gomes, concedeu esta entrevista.

As baleias já estão salvas?

Truda – Não. Elas ainda correm grande risco.

Por que importa tanto ter baleia no mar?

Truda – Primeiro porque sim…

Porque ela está lá, porque ela é produto de mais de 60 milhões de anos de evolução, tem muito mais tempo na Terra do que nós. Portanto, do ponto de vista evolutivo o lugar delas foi assegurado antes do nosso. Obviamente, questões éticas e filosóficas falam pouco quando se pensa em preservação da natureza em um país como o Brasil. E a outra razão é a seguinte: baleia viva dá dinheiro. E ajuda a educar. A gente usa estas baleias para fazer educação ambiental sobre mar, sobre conservação marinha, que é coisa muito importante. E baleias fazem parte de nossa história, da cultura brasileira. Elas começaram a ser caçadas aqui ainda no tempo da colônia…

Quando exatamente?

Truda – O primeiro registro é de 1602. As baleias ajudaram a colonizar nossa costa. Foram elas que originaram estas armações que se estabeleceram de norte a sul do país.

O que ameaça as baleias hoje?

Truda – Elas sofrem duas ameaças. Uma é a mudança climática. A maioria das baleias do hemisfério sul, inclusive a franca, depende do ciclo de verão na Antártica. A reprodução dos bichinhos que elas comem, os fitoplanctons e zooplanctons, está associada a um ciclo climático que pode estar sendo alterado violentamente. Esse fenômeno está sendo estudado pela Comissão da Baleia. Numa escala geológica as baleias geralmente se adaptam, mas se for de uma forma acelerada pela poluição sabe-se lá se os bichos vão ter condições de sobreviver e se adaptar…

E a outra?

Truda – A outra, que nesse momento é a principal ameaça, chama-se Japão, que quer voltar com a caça às baleias a todo custo. Eles estão comprando cada vez mais votos dentro da Comissão Internacional da Baleia. O Japão chega lá e dá 20 milhões de dólares para o desenvolvimento pesqueiro de um país e se bobear ainda sobra dinheiro para alguns funcionários do governo, como aconteceu em Granada. Um escândalo medonho em que prenderam funcionários públicos por corrupção. Os japoneses argumentam que os estoques de baleias já se recuperaram e que se nós não regularmos o número de baleias no mundo, elas vão comer todos os peixes e matar a humanidade de fome. Falando assim parece ridículo, mas é impressionante a quantidade de gente em ministérios de pesca que acredita nessa teoria. Inclusive, até pouco tempo, no nosso Ministério da Agricultura. Atualmente, o Brasil, a Argentina, a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia estão fazendo uma pressão na Comissão Internacional para que a pesca continue banida, pelo menos no hemisfério sul.

Mas e se o Japão vencer?

Truda – Se o Japão comprar a maioria dos votos na Comissão, nós deveríamos nos retirar em bloco e criar uma nova comissão para tratar da gestão das baleias como recurso compartilhado. E caso essa gente resolva voltar a caçar baleia, deveríamos ir para uma corte internacional. Acho que as ONGs tinham que questionar junto às Nações Unidas a candidatura do Japão para um assento no Conselho de Segurança da ONU. Fazer uma grande campanha global para expor este negócio e dizer que um país que ameaça a governança global e a soberania dos demais países não pode fazer parte do Conselho.

O que se ganha hoje em dia caçando uma baleia?

Truda – Dinheiro.

Como?

Truda – A carne e seus subprodutos são caros e o Japão tem uma cultura da exibição da comida, da qual a carne da baleia faz parte. Há restaurantes em que os industriais vão para se exibir e ver quem gasta mais. Então comem e matam as baleias mais caras. Essa é uma outra briga que nós temos com o Japão: mesmo os países de mortos de fome têm o direito ao patrimônio cultural e a valores que se atribuem à natureza, que não é só comer os bichos. Se eles têm direito às suas esquisitices culturais nós também temos. Além disso, a baleia também pode dar dinheiro se estiver livre e protegida no mar, com o turismo de observação…

Mas o turismo também não agride as baleias?

Truda – O grande segredo para o turismo de baleia dar certo é chegar antes da indústria, que foi um pouco o que a gente fez no Brasil. Em 1996, esse tipo de ecoturismo ainda não existia em Santa Catarina, mas estava começando em Abrolhos. Nós insistimos com o Ibama pela criação de uma norma federal para regulamentar o turismo de observação, e quando a indústria começou a se desenvolver ela teve que seguir essas normas. Se não regulamentar antes, depois se torna impossível. Nos Estados Unidos há uma indústria de 150 milhões de dólares, mas não existe uma norma federal e a indústria faz um forte lobby contra qualquer regulamentação.




Mas dá para punir quem transgride as regras?

Truda – Dá. Até no Brasil. Aqui, além de ajudar a redigir a lei, nós propusemos a criação das unidades de conservação e agora a Karina (Karina Groch, bióloga do Projeto Baleia Franca), no doutorado, está fazendo uma avaliação do impacto das embarcações no comportamento das baleias. Quando a gente vê alguma coisa errada, a gente passa a mão no telefone e liga para o 190 na hora. Uma vez, um repórter freelancer do antigo programa Aqui e Agora alugou uma baleeira e foi fazer uma matéria: “Aqui e Agora desencalha a baleia franca de Santa Catarina!”. Ele apareceu na televisão dando cabeçada na baleia com o barco. Nós apresentamos o caso ao Ministério Público e o repórter foi condenado. Foi a primeira condenação baseada na lei de proteção das baleias.

Quais as regras para se aproximar corretamente de uma baleia?

Truda – Pela norma brasileira, o responsável pela embarcação tem que desligar o motor ou colocar em ponto neutro a 100 metros do bicho e deixar que a baleia controle a interação. O barco pode ser posicionado perto da baleia, mas ela se aproxima se quiser. Na hora de ir embora, o motor tem que ser ligado a pelo menos 50 metros de distância e nada de ligar pagodes nas alturas e nem jogar lata de cerveja na cabeça dela. Parece brincadeira, mas tem de se dizer estas coisas para as pessoas. Tem que ter monitoramento e fiscalização porque é uma indústria extremamente importante para o Brasil. Ela é estratégica para nossa política externa de conservação e tem de ser operada com seriedade. O projeto já experimentou se associar a operadores comerciais, mas desistiu. A gente prefere ter essa isenção e trabalhar mais com a autoridade de regulação do que com o setor comercial. Nos primeiros anos nós investimos muito em trabalhos de conscientização com os pescadores. Hoje todo pescador sabe que não é para encher o saco da baleia franca porque se fizer vai em cana; está feita a educação ambiental. Daqui para frente nosso trabalho está voltado para as crianças. O objetivo é trabalhar esse público que vai ser pós-comunidade de pesca artesanal, que vai ser engolido pelo turismo. Espero que eles consigam se preparar para isso.

Como você se ligou em baleia?

Truda – O Augusto Carneiro foi o protagonista disso. Eu tinha um estímulo da família para me interessar pela natureza e vi muito o velho (José) Lutzenberger fazendo aquelas longas ponderações no rádio e na televisão numa época de muita agitação ambiental, que era uma das poucas coisas que se podia agitar no país na época. Estávamos em 1978. Um belo dia, fui a uma reunião da AGAPAN, Associação Gaúcha de Proteção do Ambiente Natural, organizada pelo Lutzenberger e pelo Augusto Carneiro. Ele estava lá, o Carneiro, caminhando para cima e para baixo com uma pastinha cheia de recortes e troços incentivando os jovens a trabalhar com as baleias em Porto Alegre. Ele me passou um monte de material sobre a caça das baleias no Brasil. Na época os japoneses estavam instalados na Paraíba, e eu me envolvi logo na campanha com um abaixo-assinado contra a caça no estado. Os japoneses pagavam as campanhas políticas de senadores e deputados. Em 79, descobri que existiam duas pessoas no governo militar que eram contra os japoneses. Uma era o professor Paulo Nogueira Neto, que foi secretário de Meio Ambiente nos governos militares, possivelmente uma das pessoas mais injustiçadas na história do movimento ambientalista do Brasil.

Por quê?

Truda – Ele é o responsável pela nossa legislação ambiental, que é muito boa. Mas como foi secretário da ditadura, as pessoas apagaram ele da história. Um absurdo.

Quem era o outro?

Truda – O outro era o vice-almirante Ibsen Gusmão Câmara, que era o vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas. Um dia eu fui a Brasília, tinha uma irmã que morava lá, e pedi uma audiência com o almirante para trocar uma idéia. Eu tinha 16 anos. A minha família deu risada, disse que ele não me receberia nunca, mas ele me ligou, marcou uma conversa e passei uma tarde muito agradável, somos amigos até hoje. Quando o almirante deixou a Marinha, ele foi presidir a Fundação Brasileira de Conservação da Natureza e logo em seguida me passou o pepino de procurar umas baleias malucas que estavam aparecendo em Santa Catarina e que ninguém sabia o que era. Ele achava que eram baleias francas, uma espécie considerada extinta no Brasil. Aí, um belo dia ele me ligou e disse que eu tinha 2 mil dólares para fazer dois anos de pesquisa com colegas de faculdade no litoral catarinense. Aí a gente começou a ir para lá tomar cachaça, correr atrás das baleias e falar com pescador.

E demoraram para achar alguma baleia?

Truda – A baleia franca era considerada ameaçada de extinção desde a década de 30, quando foram redigidos os primeiros tratados de regulamentação de caça às baleias e se proibiu a caça da baleia franca. Mesmo assim ela continuou a ser caçada no Brasil até 1973. Depois, sumiu de vez. Em 1982, conversando com os pescadores, a gente descobriu uma população reprodutiva na praia de Ubatuba em São Francisco do Sul, no norte de Santa Catarina. Vimos a primeira fêmea no Atlântico. Naquela época a gente andava semanas pra ver uma fêmea com filhote.

Como você conseguiu sobreviver com 2 mil dólares?

Truda – Dois mil dólares foi um bom começo, mas a gente de ano em ano tentava conseguir um patrocínio aqui e ali. A WWF deu um pouco, a Fundação Boticário deu outro, outras fundações internacionais faziam pequenas contribuições e quando meu pai morreu, em 1994, descobri que quem pagava realmente a conta de preservação das baleias era o velho. Eu não tenho vergonha de dizer que depois que ele morreu foi a pensão de viúva da minha mãe que bancou o Projeto Baleia Franca. Era um bando de ciganos com equipamentos nas costas que saía de Porto Alegre, ia para a temporada de baleia e pegava uma casa ou pousada emprestada, ou em parceria ou alugava aquelas casas feitas para surfistas. Eu gastei dois carros nesta brincadeira aí, um Toyota e um fusca velho que morreu de idade avançada. Teve época que a gente passava sem carro, ou a Karina emprestava o Uno dela. A ralação era grande. Agora a gente vai para os encontros e o pessoal pergunta como é que faz para ter patrocínio da Petrobrás. Rala 19 anos que depois ele vem…

Pelo visto, a pindaíba durou muito tempo…

Truda – A situação só melhorou há três anos, quando a Petrobrás virou patrocinadora e passou a nos dar 380 mil reais por ano. Isso permitiu oferecer a uma pessoa como a Karina Groch, bióloga que está com a gente há 8 anos e vai ser a primeira doutora em comportamento de baleia no Brasil, condições para fazer uma pesquisa de primeiro mundo dentro do país. Também nos permitiu fazer todo mês um sobrevôo de monitoramento nas áreas de maior concentração, fazer identificação de animais, produzir material educativo e fazer esse material chegar nas comunidades, construir museu, fazer a nossa sede para receber mais estagiários. Nós temos um pedido brutal de estágios que não conseguimos atender. A parceria com a Petrobrás nos deu muita visibilidade. A idéia é não ter um quadro de funcionários muito grande. Atualmente o projeto tem três pessoas assalariadas: eu, Karina e Hemerson (administrativo). A idéia é abrir o projeto cada vez mais para que as pessoas tragam seus projetos de pesquisa, suas indagações, suas idéias, utilizando a estrutura que a gente já montou.

Vinte e dois anos atrás de baleia num litoral que mudou muito, não é?

Truda – Mudou bastante. Não existe mais aquela comunidade de pescadores idílica que a gente encontrava aos montes quando começou. Foram todas engolidas, ou vão ser, pelo turismo. Hoje eles se importam com a presença da baleia por isso. Não tem essa de dizer que estamos preservando as comunidades de pesca artesanal, porque elas sumiram, viraram feudo eleitoral de algum vagabundo.

Piorou?

Truda – Não melhorou porque as áreas naturais diminuíram e o nosso tempo de salvar o que sobrou também diminuiu porque a pressão vem vindo. Agora, eu vi muita coisa neste vôo de 2.500 km que tinha cara de casa embargada. Achei bem legal. Um monte de construção abandonada porque ali passou fiscal. Hoje a depredação avançou muito, mas tem muito mais gente de olho e querendo denunciar e fazer confusão.

Onde tem baleia no Brasil?

Truda – Existem dois grandes núcleos de reprodução, talvez três. O das baleias francas no Sul, os das baleias jubartes em Abrolhos e no norte do Espírito Santo, e aquela região em que o japonês matava baleia na Paraíba. Lá tinha baleia minke e muitas outras. Mas a região nunca foi estudada adequadamente. Este ano o projeto da baleia jubarte está fazendo uma expedição até o Rio Grande do Norte em busca de jubarte e o que mais aparecer. Dependendo do resultado, existe a idéia de propor ao governo da Paraíba um projeto-piloto para certos tipos de baleias. O Espírito Santo também merece mais atenção. Tenho dúvida se é uma área de concentração de francas ou se a espécie só aparece esporadicamente. Eu fiquei preocupado com este vôo que fizemos do Chuí até Macaé, eu achava que ia encontrar mais bichos no Rio de Janeiro e não encontrei nenhum.




A área de petróleo fica perto da área das baleias?

Truda – É perto. O grande problema que estamos enfrentando hoje é esse negócio de leiloar os blocos de petróleo a qualquer preço. Existe uma política do Ministério de Minas e Energia, daquela senhora (refere-se à ministra Dilma Roussef) que quer acelerar a venda do petróleo a qualquer custo. Há anos a Petrobrás é submetida a uma série de restrições e agora vem este lobby safado de empresas privadas. Quem vai comprar os blocos, já delimitados, vai fazer o que bem quiser sem se submeter às restrições ambientais do Brasil. Se alguma pessoa hoje quiser ajudar as baleias, mande email para a Presidência da República reclamando contra este lobby criminoso que as indústrias de base e sua associação estão fazendo para acabar com a legislação ambiental brasileira. As nossas restrições no processo de licenciamento para a sísmica do petróleo foram elogiadas na Comissão Internacional das Baleias. O que se faz no Brasil hoje está muito bom em termos de exploração de petróleo e o que não se pode deixar é que este lobby travestido de progresso acabe com 30 anos de avanços na legislação ambiental.

O que é a sísmica do petróleo?

Truda – A sísmica é uma das atividades que mais gera impacto sonar nos oceanos e temos dois problemas ao gerar sons de alta magnitude dentro da água. Um é que as baleias se comunicam através do som e a sísmica causa um enorme ruído. O outro é que pode gerar impacto direto nas baleias e afetar todos os animais desta concentração. Esses são fatos muito pouco conhecidos e a regulamentação brasileira adota medidas de essência precatória ao evitar o leilão de blocos em áreas de concentração de baleias. Também é obrigatório que a empresa responsável pela sísmica monitore as praias próximas para ver se está acontecendo encalhes fora do normal.

Por que as baleias encalham?

Truda – 99,9% das baleias que encalham vêm para a praia para morrer. É muito raro e extremamente difícil conseguir desencalhar uma baleia com sucesso. No caso de bichos mais gregários, tipo a baleia piloto e alguns golfinhos, muitas vezes o líder do grupo está doente e ao procurar a praia para morrer traz os demais junto. Aí dá para salvar alguns, mas no geral quando uma baleia adulta encalha é porque ela já tem algum problema de saúde sério. Agora, as baleias morrem porque elas estão vivas. Cada vez tem mais baleias vivas graças à proibição da caça em todo Atlântico Sul. É triste o evento do bicho estar morto, mas acho que não é caso para esta histeria.

O que já se aprendeu sobre as francas?

Karina – As fêmeas migram para ter seus filhotes em águas mais calmas e mais quentes que o clima antártico. A fêmea de baleia franca tem migração regular com intervalo de três anos. A baleia que veio para cá este ano com seu filhote só vai poder ter outro daqui a três anos, e só então ela deve voltar ao litoral brasileiro. Mas isto não é rigoroso porque elas têm mais de uma área de reprodução. Nós temos um intercâmbio com a Argentina e sabemos que 12% das 332 baleias catalogadas no nosso litoral já foram identificadas lá também. As francas são fáceis de identificar porque têm calosidades características na cabeça que são únicas de cada indivíduo. A gente imagina que elas devem ter o seu território, mas não sabemos qual o tamanho dele. Dificilmente a gente vê associação entre mais de duas baleias. Às vezes elas interagem com fêmeas e filhotes que estão a uns 200 metros dali, dão um tchauzinho e pronto.

E a relação entre fêmea e macho?

Karina – A baleia é uma espécie bastante competitiva. Os machos entram no que a gente chama de competição espermática. Os machos competem pela fêmea. Então geralmente os grupos são compostos por uma fêmea e vários machos. Ela é bem safada porque acasala com todos para decidir no final qual é o mais forte. De certa forma ela decide quem vai ser o último. Ela fala “é esse” e faz o serviço. A quantidade de esperma é tão grande, vem com tanta força, que mata o dos outros machos e fecunda a fêmea.

O que não se sabe?

Truda – O problema com as baleias é que quanto mais você sabe, mais descobre que não sabe nada. O aparecimento de francas no Rio, por exemplo. Nós saímos para procurar e não encontramos nenhuma. O mais importante é educar as pessoas para não atazanarem as baleias. Aparece uma fêmea com filhote e já querem empurrá-la porque acham que está encalhada; cada bicho desse é precioso. Nadar em direção a baleia franca é um comportamento idiota.

Como se acaba com essa idiotice?

Ricardo – Fazendo o que fizemos. Criando um núcleo do Projeto Baleia Franca aqui no Sudeste. Sua primeira missão vai ser ensinar às pessoas a conviverem com as baleias e incentivá-las a conhecer mais o que existe no mar que elas vêem todos os dias. O carioca tem uma extensão muito grande de praia, mas em compensação não sabe nada de mar. A partir do momento que o carioca se tornar mais consciente sobre a vida marinha do estado, ele vai se sentir um pouco mais responsável e vai querer participar das tomadas de decisões de redes de esgoto e poluição. Acho que a educação ambiental é o primeiro passo.



Truda, é verdade que você pensa em se aposentar?

Truda – Estou tentando arduamente. Eu lidero uma campanha para a Karina assumir o projeto assim que terminar o seu doutorado, no ano que vem, para eu poder voltar a ser somente o presidente da associação e voltar para a política. Queria me dedicar à Comissão Internacional da Baleia e conversar com os governos. A Comissão é um dos organismos internacionais mais anacrônicos e incompetentes que existe. Foi criada no pós-guerra simplesmente para dividir a população de baleias entre os países caçadores. Os governos foram evoluindo, deixaram de ser caçadores e a Comissão decretou a moratória da caça comercial. Mas esta pressão permanente da Noruega e principalmente do Japão está criando uma instituição que é absolutamente fora dos padrões dos organismos internacionais. Há 20 anos eu vou nos encontros da Comissão. No passado eu cheguei a ir como observador não-governamental brigado com a delegação brasileira, que tinha delegados japoneses. Hoje eu sou vice-chefe da delegação e a Maria Teresa Mesquita Pessoa, do Itamaraty, é a nossa super-chefe.

E o que vocês estão fazendo hoje na agenda internacional?

Truda – A gente criou um pequeno consórcio de ONGs no Cone Sul, que também está trabalhando na Comissão da Baleia, e ajudamos a criar o projeto da baleia franca no Uruguai. Pretendemos implantar também no Chile e nos convidaram para ajudar a criar o Museu da Baleia em Galápagos.

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