Richard Rasmussen e a polêmica sobre o boto

Richard Rasmussen e a polêmica sobre o boto

Vandré Fonseca
domingo, 14 maio 2017 23:48
Rasmussen nega acusação e afirma que imagens foram importantes para proteger os botos. Foto: Vandré Fonseca.
Rasmussen nega acusação e afirma que imagens foram importantes para proteger os botos. Foto: Vandré Fonseca.

Manaus, AM — As imagens de botos vermelhos sendo abatidos para servir de isca na pesca da piracatinga foram ao ar em julho de 2014, em uma reportagem de Sônia Bridi, no Fantástico. Elas haviam sido produzidas pelo biólogo e apresentador Richard Rasmussen a pedido da Associação Amigos do Peixe-Boi da Amazônia (Ampa) e pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), justamente para convencer autoridades a tomar providências contra a matança dos bichos. Só não se esperava que, quase três anos depois, o tiro ricocheteasse em um festival de cinema americano, com a denúncia de que Rasmussen teria pago pescadores para matar um boto.

Antes de antecipar julgamentos e comentários, é bom saber que esta semana a revista Veja publicou uma nota do próprio diretor do filme A River Below (inédito no Brasil), o australiano Mark Grieco, negando ter acusado Richard de tal absurdo e condenando a divulgação sensacionalista do documentário. “A River Below é sobre os botos ameaçados, as pessoas que lá estão tentando salvá-los e a complexidade de realizar esta tarefa quase impossível no mundo de hoje”, diz um trecho do comunicado publicado no site da revista. Um esclarecimento que só veio depois de muita polêmica.

A controvérsia chegou ao Brasil em uma entrevista dada pelo próprio Grieco ao site Central Hqs, que serviu também a uma reportagem do portal UOL. O site reproduz de forma livre, em português, uma conversa com o diretor em que ele conta ter encontrado os pescadores que filmados abatendo os botos (as imagens tinham sido borradas nas cenas gravadas por Richard para evitar a identificação). Eles teriam então revelado que Richard pagou R$ 100,00 para cada um deles pela captura dos animais, com a promessa de que as imagens não seriam veiculadas em lugar nenhum. O diretor confessa ainda ter armado uma armadilha para o apresentador brasileiro, levando-o a confrontar diretamente os pescadores.

De acordo com a explicação do próprio diretor, ele pretendia demonstrar que a  proibição da pesca da piracatinga envolvia questões econômicas e de sobrevivência de populações da Amazônia, além da conservação do boto. A proibição, na visão do diretor apresentada no site, seria a causa de dificuldades enfrentada por parte dos pescadores. Mas omite um ponto importante da discussão: que a atividade era ilegal, independente da moratória, pois significava o abate de botos e jacarés, o que é proibido pela lei brasileira.

Richard Rasmussen, que estava na África quando a polêmica veio à tona, publicou uma nota em seu perfil no Facebook, em que se diz indignado com a forma sensacionalista que o assunto vem sendo tratado, “uma vez que a grande maioria dos mesmos, assim como eu, ainda não teve acesso ao filme” segundo a nota. Ele nega ter pago aos pescadores pelo abate dos botos. Richard destaca a importância das imagens para que a moratória da pesca da piracatinga fosse decretada por 5 anos e dá detalhes da participação dele na produção das imagens. O apresentador e biólogo afirma que a intenção não era prejudicar os pescadores, mas denunciar um crime que vinha sendo incentivado e até financiado por empresários da região.

Foto: Edmar Barros/Ampa.
Boto é usado como isca na pesca da piracatinga. Foto: Edmar Barros/Ampa.

“A minha participação nesta fase foi importante, mostrando para eles que os frigoríficos estariam colocando a culpa da pesca com uso do boto nas comunidades quando se sabe que, justamente, os frigoríficos em muitos casos até financiavam esse método. Teríamos de conseguir a adesão voluntária desta comunidade, sem o envolvimento financeiro, já que como conservacionistas não poderíamos financiar um crime. E essa foi minha missão, convencê-los de que as coisas não poderiam continuar desta forma”, afirma um trecho da nota.

O biólogo Jone César acompanhou as conversas com Richard para a produção do vídeo. Naquela época, ele fazia parte da direção da Ampa e lembra que, durante pelo menos dez anos, pesquisadores e ambientalistas denunciavam a matança de botos e jacarés para a pesca da piracatinga (veja a reportagem de ((o))eco, de 2007, sobre o assunto), sem que medidas concretas fosse tomadas por autoridades estaduais ou federais. “A saída que vimos foi conseguir essas imagens e tentar divulgá-las em um programa de grande audiência”, conta Jone César. “Como não tínhamos acesso aos pescadores, buscamos uma pessoa conhecida, que teria mais chances de conseguir as imagens”, afirma Jone César.

A Ampa e o Inpa divulgaram uma nota em defesa de Richard Rasmussen e confirmando que ele não agiu de forma independente, mas em parceria com a associação e com o Inpa na produção das imagens. “A Ampa e o Inpa jamais permitiriam ou compactuariam com acordos ou encomenda de imagens que envolvessem a morte de animais ou quaisquer tipos de transações financeiras com pessoas das comunidades onde foram captadas as imagens”, afirma a nota. A Ampa afirma ainda que o apresentador é um “incansável defensor da vida selvagem e apoiou com todo seu prestígio a Campanha Alerta Vermelho que visa combater a matança de botos-vermelhos no Estado do Amazonas”.

A TV Globo também se pronunciou. Afirmando não ter sido procurada e não ter tido acesso ao documentário, informa saber a procedência das imagens e que tomou providências para chegar a veracidade das informações veiculadas na reportagem do Fantástico. A emissora cita também estudos que comprovaram a presença de carne de boto nas vísceras de piracatinga, peixe nocivo à saúde humana por conter altos níveis de metais pesados. “Para a TV Globo, a correção na apuração jornalística jamais é colocada em risco seja qual for a causa em jogo”, conclui a emissora.

À Veja, o produtor do filmes, Torus Tammer, atribui a polêmica um erro na interpretação de resenhas sobre o filme. O diretor Mark Grieco lamenta a forma sensacionalista com que o filme vem sendo recebido, o que para ele desvia as atenções do foco principal, que é a necessidade de medidas para proteger os botos da Amazônia. Providências que só começaram a ser tomadas após as polêmicas imagens irem ao ar, quando o Ministério Público Federal entrou em campo e os Ministérios da Pesca e do Meio Ambiente aceitaram impor uma moratória de cinco anos, que começou a valer em 2015, sobre a comercialização da piracatinga.

 

Foto: Kevin Schaeler/Ampa.
Foto: Kevin Schaeler/Ampa.

 

Leia Também 

Pesca da piracatinga: o boto-rosa não pode ser isca

Pesca da piracatinga será suspensa no Brasil

Pesca do Piracatinga agrava matança de botos cor-de-rosa

 

10 comentários em “Richard Rasmussen e a polêmica sobre o boto”

  1. Não seria a primeira vez que os "defensores das comunidades" usam de truques imundos para torpedear aqueles que expõem que os "coitadinhos" estão firmemente engajados no capitalismo destruidor e que de protetores da natureza não tem coisa alguma.
    Sempre há algum midiático fdp a serviço da desinformação

  2. A preocupação do Grieco não é com a matança dos botos. É com a "as dificuldades enfrentadas" por quem mata os botos.
    Isso já mostra a que este picareta veio

  3. Se a intenção do INPA e AMPA era chamar a atenção para parar a mortandade dos botos, por que o enfoque "coitadinhos dos que matam" no filme??? E porque não destacar a LEI, o ilícito, independentemente de se tratar de coitadinhos ou não coitadinhos? A culpa é dos que consomem, dos que encomendam E DOS QUE MATAM!!!

  4. O episódio que o Richard deixa o morcego vampiro chupar o sangue dele é cabuloso! Mas engraçado mesmo foi a cara dele toda inchada depois de tomar a vacina do sapo e vomitar tudo!!!

  5. Ao invés de se preocupar com essa reportagem do Richard, o pessoal do Amazonas deveria estar se preocupando com a matéria que saiu recentemente no New York Times, detonando o ecoturismo no estado, principalmente os lugares onde se pode dar comida e nadar com os botos.

    Essa prática, além de ilegal, é tosca e mal vista pelo mundo afora, no mesmo nível com exibir uma onça acorrentada no meio de um grande evento midiático, ou oferecer animais silvestres para o turista segurar para fotos. Coisa de pais atrasado, com turismo subdesenvolvido, que não consegue suprimir essas práticas medievais nem na frente das visitas. E ainda tem quem queira "regulamentar"…

    • Os EUA então são um país atrasado, pois lá o turista pode mergulhar com tubarões-azuis na Califórnia, alimentar "gators" na Flórida, dentre outras interações com animais selvagens. Vá se informar, rapaz!

  6. Num mundo onde as versões tem mais importância que os fatos, este caso é bem ilustrativo do fenômeno das midias sociais, não importa onde mora a verdade mas sim aonde o Compartilhador quer que ela more!!! Os detratores do Richard não mencionam que a moratória ja salvou pelo menos 10 mil botos vermelhos nos ultimos 3 anos (isso sendo bem conservador). Não mencionam ainda que a atividade ilegal ocorre dentro de unidades de conservação de uso sustentável famosas na região, onde toda palafita tem um "curral de Peixe" bem do lado das casas…Não menciona também que se fosse uma questão de pagar e filmar, qualquer pessoa poderia ter pego este flagrante a anos…Menos ainda fala que a Campanha teve supervisão do Ministério Público…Os detratores não mencionam que o comércio ilegal com a Colombia, de onde vem o Sr. Grieco para filmar sem licença no Brasil, está ligado ao transito de outras coisas ilegais, e assim vai peixe e vem pó…Mas a pergunta que não quer calar é: Quais são os interesses por traz desta falsa polêmica, e quem se beneficia com uma campanha contra a mortandade dos botos cor-de-rosa…Assim independente de você gostar ou não do Apresentador em questão, não o julgue sem saber dos fator…pois se o fazes o pobre Custeau se remexe no túmulo, ao pensar que vão continuar aniquilando estes animais maravilhos com a suspensão da moratória…

  7. Olha, se tudo o que estão falando sobre o Richard Rassmussen fosse verdade (e duvido muito que seja, confio mais na palavra dele que nos tais ribeirinhos e diretor americano), eu continuaria considerando que as ações dele sobre isso foram as de um herói. Salvaram-se mais de 10.000 botos com a proibição de comércio da piracatinga, o que mostra o quanto ela era necessária.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.