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Quatro espécies de plantas raras são descobertas nas serras de Minas Gerais

As quatro espécies já são consideradas criticamente ameaçadas de extinção pelos pesquisadores e evidenciam a rica e única biodiversidade dos campos rupestres

Duda Menegassi ·
7 de abril de 2021

Minas Gerais não é uma palavra montanhosa, mas sim abissal, já diria o poeta Carlos Drummond de Andrade, e também palavra biodiversa, complementariam os pesquisadores. O relevo acidentado do estado abriga uma rica diversidade de espécies, muitas delas restritas apenas ao “mar mineiro”. E nas serras ao leste de Minas Gerais, em especial na Serra do Padre Ângelo, que pesquisadores registraram quatro novas espécies de plantas. As descobertas incluem uma espécie de roxinho, uma de sempre-viva e duas de margaridas, e vêm junto com um alerta sobre seu habitat natural, ameaçado por incêndios e pela transformação da vegetação nativa em pastagem.

As amostras das plantas foram coletadas entre 2013 e 2014, durante uma expedição científica na Serra do Padre Ângelo, no município de Conselheiro Pena, domínio do Cerrado marcado pela presença dos campos rupestres. As descobertas foram descritas recentemente em três artigos diferentes, publicados em janeiro e março de 2021.

A primeira espécie a ser descrita oficialmente para a ciência foi batizada de Hyptidendron pulcherrimum e pertence à família Lamiaceae, a mesma do manjericão e do orégano. A planta, um pequeno arbusto aromático que apresenta flores roxas, foi encontrada apenas em locais acima dos 1.000 metros de altitude, no Pico do Padre Ângelo, na serra de mesmo nome. Sua ocorrência até onde se sabe está restrita a uma área de apenas 0,5km² e o estudo sugere que a planta já pode ser considerada criticamente ameaçada de extinção. O artigo que detalha a descoberta está disponível na revista científica Adansonia, do Museu de História Natural de Paris.

Outra novidade para a ciência, encontrada somente nas alturas da Serra do Padre Ângelo, é a Paepalanthus oreodoxus, uma espécie de sempre-viva que ocorre apenas nos campos rupestres entre 1.400 e 1.530 metros de altitude. Assim como sua conterrânea florística, a espécie já é considerada criticamente ameaçada de extinção devido ao seu habitat limitado e desprotegido.

Curiosamente, os parentes mais próximos desta pequena sempre-viva estão a mais de 200 quilômetros de distância dali, na Serra do Espinhaço. “Percebemos que esse padrão se repete para várias espécies novas descobertas na região, revelando um passado compartilhado entre as espécies dessas serras do leste de Minas com outras áreas de campos rupestres”, conta a pesquisadora Caroline Andrino, do Instituto Tecnológico da Vale, que liderou o estudo, publicado na revista científica Plant Ecology and Evolution, no final de março.

As outras duas plantas recém-descritas são margaridas, a Lepidaploa campirupestris, também restrita às partes mais altas da Serra do Padre Ângelo; e a Lessingianthus petraeus – que tem como peculiaridade o fato de que cresce apenas entre pedras, daí o nome – encontrada no Pico da Aliança, no município vizinho de Alvarenga.

Partes mais altas da Serra do Padre Ângelo meses após o incêndio de outubro de 2020 (foto tirada em março de 2021). Foto: Paulo Gonella

A descoberta de ambas as espécies de margaridas – também classificadas como criticamente ameaçadas – está detalhada em outro artigo publicado na Plant Ecology and Evolution.

“Além da sua enorme biodiversidade, os campos rupestres são conhecidos pelo elevado número de espécies endêmicas, que são aquelas que só são encontradas em um local. Essas quatro espécies novas foram encontradas apenas em partes restritas dessas serras, revelando o enorme potencial dessas montanhas para a descoberta de novas espécies”, destaca o botânico Guilherme Medeiros Antar, que liderou o estudo sobre as margaridas.

Os pesquisadores alertam ainda para a vulnerabilidade do habitat dessas plantas, em especial a Serra do Padre Ângelo, que não conta com nenhuma área protegida para ajudar a preservar sua rica biodiversidade – além das recém-descobertas, a serra também abriga a planta carnívora Drosera magnifica, descrita em 2015 e endêmica do local. Em outubro de 2020, um incêndio devastou grande parte da serra e o fogo, de origem humana e descontrolada, é uma ameaça recorrente para flora nativa da região, cada vez mais pressionada pelo avanço de gramíneas exóticas que transformam os campos rupestres em pastagens e põem em xeque o futuro dessas e outras espécies encontradas apenas na serra.

A planta carnívora Drosera magnifica, outra raridade ameaçada da Serra Padre Ângelo. Foto: Paulo Gonella

“A conservação desses remanescentes de vegetação nativa é urgente e requer o envolvimento da sociedade e do poder público dos municípios da região. Muitas outras espécies novas descobertas na região estão em estudo e muitas mais devem aparecer conforme estudamos novas áreas ainda inexploradas. Se nada for feito para a proteção dessas montanhas, podemos perder essas espécies antes mesmo que possamos saber quem são ou que existiram um dia”, alerta o botânico Paulo Gonella.

O pesquisador, que esteve envolvido na descoberta das quatro novas espécies, além da planta carnívora, ressalta a importância de criar uma unidade de conservação que proteja a serra, pois como os estudos apontam, toda essa rica biodiversidade única da Serra do Padre Ângelo e cercanias está perigosamente ameaçada. “Essas descobertas se somam ao trabalho de inventário da flora e fauna que temos realizado na área nesse último ano, que visa levantar dados para subsidiar a criação de áreas protegidas na região”, completa Gonella, que coordena o projeto financiado pelo Fundo de Conservação de Espécies Ameaçadas “Mohamed bin Zayed”, dos Emirados Árabes.

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  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação e montanhismo. Escreve para ((o))eco desde 2012. Autora do livr...

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Comentários 2

  1. Paulo diz:

  2. Felipe Guerra diz:

    Parabéns pelos trabalhos realizados, pesquisadores!