PF acusa navio grego por derramamento, mas empresa diz que carga chegou intacta

PF acusa navio grego por derramamento, mas empresa diz que carga chegou intacta

Carolina Lisboa
domingo, 3 novembro 2019 11:01
Petroleiro foi apontado como responsável pelo óleo que polui o Nordeste. Empresa nega. Foto: Leo Noordzij/MarineTraffic.

Apontada pela Polícia Federal (PF) como responsável pela origem do óleo que atinge 314 localidades em 9 estados do Nordeste, a empresa Delta Tankers LTD, proprietária do navio de bandeira grega Bouboulina, afirma que não há provas de que a embarcação tenha parado, realizado transferência de carga para outro navio, ou que desviara de sua rota da Venezuela até a Malásia. 

“O navio chegou em seu destino sem ter problemas e descarregou toda sua carga sem registrar nenhum escape”, disse a empresa, em comunicado.

Segundo a empresa, foi realizado uma investigação nas câmeras e sensores de todas as embarcações que pertence à Delta Tankers LTD e que esse material está à disposição das autoridades brasileiras, “caso entrem em contato com a empresa“. Segundo o comunicado, publicado no sábado (02), a Delta não foi contactada para se explicar antes das autoridades lançarem suspeitas públicas sobre o navio petroleiro. 

Operação Mácula

A Operação Mácula, desencadeada após autorização do juiz federal Francisco Eduardo Guimarães Farias, da 14ª Vara Federal em Natal, teve início com investigação realizada de forma integrada entre Marinha, Ministério Público Federal, Ibama, Universidades Federais da Bahia (UFBA) e de Brasília (UnB) e Universidade Estadual do Ceará (UEC). O resultado, apresentado na sexta-feira (01), afirma que o navio Bouboulina atracou na Venezuela em 15 de julho, permaneceu por três dias e seguiu rumo a Singapura, pelo Oceano Atlântico, carregando um milhão de barris de petróleo cru tipo Merey 16. O derramamento teria ocorrido a 700 quilômetros da costa brasileira entre os dias 28 e 29 de julho. Nesse período, o Bouboulina foi único petroleiro que navegou pelo local.

A descoberta da mancha original que deu início às investigações coube a uma empresa privada especializada em georreferenciamento, a HEX. A empresa obteve 830 imagens e repassou-as à PF de forma voluntária e gratuita. As imagens, com data e horário, permitiram à polícia e, posteriormente, à Marinha, identificarem a primeira mancha do óleo derramado e estabelecerem o momento provável do derramamento.

A PF pediu cooperação a Nigéria, África do Sul, Cingapura, Venezuela e Grécia. Foi enviado um comunicado ao governo da Grécia e à Delta Tankers pedindo explicações. O Brasil pode abrir um processo criminal no Tribunal Marítimo Internacional pedindo ressarcimento pelos gastos com a limpeza do litoral nordestino.

O juiz Francisco Farias determinou busca e apreensão nas empresas Lachmann Agência Marítima, representante da Delta Tankers no Brasil, e na Witt O’Brien’s, que atua no ramo de riscos e orienta empresas marítimas sobre planos de contingência e procedimentos a serem adotados em caso de desastres. Ambas tem sede no Centro do Rio de Janeiro. 

A Lachmann emitiu uma nota de esclarecimento afirmando que não é alvo da investigação da PF sobre o vazamento de óleo que atingiu a costa do Brasil. “A agência foi tão somente solicitada pela Polícia Federal a colaborar com as investigações. A agência segue à disposição das Autoridades para quaisquer informações adicionais”. 

A Witt O’Brien’s afirma que só possui contrato com o navio Bouboulina para navegação em águas dos Estados Unidos, Canadá ou no Canal do Panamá, mas que sua subsidiária no Brasil “não possui nem nunca possuiu contrato com a Delta Tankers”.

O navio

O navio-tanque Bouboulina tem 276 metros de comprimento e pode carregar até 164 mil toneladas. Foi construído em 2006 e seu nome é uma homenagem a Laskarina Bouboulina, heroína da Guerra da Independência Grega. Seu porto de origem fica na cidade de Pireus, vizinha a Atenas. De acordo com o site MarineTraffic, especializado em rotas navais, o Bouboulina teria aportado recentemente na Cidade do Cabo na África do Sul e estaria seguindo pela costa africana no sentido de Porto Elizabeth. O óleo Merey 16 carregado pelo navio é uma mistura de petróleo cru extrapesado extraído do Cinturão do Orinoco, na Venezuela, com vários diluentes. Especialistas afirmam que esse é o tipo de óleo mais prejudicial ao meio ambiente.

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