Pesquisadores registram acasalamento de peixes-bois-da-amazônia

Vandré Fonseca
sexta-feira, 23 março 2018 18:27
Foto da instalação do cinto no peixe-boi, mas podia ser um acasalamento qualquer. Foto Amanda Lelis/Instituto Mamirauá.

Manaus, AM –Os pesquisadores acreditam que as imagens mostram um grupo de pelo menos quatro machos disputando espaço para acasalar com uma fêmea, um registro inédito do comportamento reprodutivo do peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) em vida livre. As imagens foram feitas no Lago Mamirauá, interior do Amazonas, em junho de 2015, mas só divulgadas agora que o relato foi publicado no Latin American Journal of Aquatic Mammals, pelos pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

“Dava para ver que era uma fêmea, que se movimentava mais, e os machos, que ficavam em torno dela”, conta a bióloga Camila de Carvalho, do Instituto Mamirauá e responsável pelo registro. “A gente viu bem de perto, de uns dez metros de distância. “Várias vezes a gente viu a tentativa dos peixes-boi de abraçar a fêmea com a nadadeira, por baixo. Às vezes, via abraçando lateralmente também”, completa.

A pesquisadora conta que a maior parte das informações sobre comportamento reprodutivo de peixes-boi vem de pesquisas realizadas com animais marinhos na Flórida (Estados Unidos) ou com a espécie encontrada na costa brasileira. Sobre a espécie amazônicas, as informações vêm principalmente de ribeirinhos.

Segundo os estudos, a monogamia não é um comportamento típico dos peixes-bois-da-amazônia. Durante o período reprodutivo, um bando de machos se reúne ao redor da fêmea. Eles tentam montar e abraçá-la pela parte traseira e alcançar o abdômen. Esse comportamento é conhecido pelos ribeirinhos, que dão a ele o nome de “cavalgação”, “cavalgaria” ou “vadiação”.

Mas os cientistas querem conhecer mais sobre esse comportamento e responder como os machos reconhecem que a fêmea está pronta para a reprodução e se os locais de acasalamento são constantes.

O primeiro a ver a cena foi o zelador de base flutuante, Arílson Lopes. “Era mais ou menos seis da manhã e eu vi tudo de perto. Eles estavam ‘de bubuia’ (relaxados), então logo eu reconheci”, contou à assessoria de comunicação do Instituto Mamirauá. Lopes nunca tinha visto antes peixes-boi de tão perto. E nem se comportando assim.

A pesquisadora Camila de Carvalho. Foto: Instituto Mamirauá.

Camila de Carvalho lembra que os animais não se afastaram ou se esconderam, mesmo com a aproximação da canoa, o que permitiu que fossem observados durante aproximadamente trinta minutos e filmados. Ela diz que é muito difícil observar peixes-bois-da-amazônia em ambiente natural, pois eles têm comportamento discreto e as águas escuras e turvas dificultam a visão. Com base no tempo em que os animais demoravam para subir a superfície e respirar, os pesquisadores calcularam que além da fêmea havia o mínimo de quatro machos.

“A atual situação das populações de peixes-boi amazônicos é desconhecida pelos pesquisadores, porque ainda não existe um método de contagem apropriado eficiente para um estudo de estimativa populacional da espécie”, afirma pesquisadora, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O peixe-boi-da-amazônia é considerado vulnerável à extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Em comparação com o primo que vive no mar, tem um tamanho menor, com até três metros de comprimento, além de manchas brancas na região ventral e não possui unhas nas nadadeiras peitorais, diferente do marinho, que possui unhas.

A população de peixes-boi nos rios da Amazônia quase foi extinta devido à caça, para consumo da carne, uso da gordura e também do couro. Embora a IUCN indique que a população da espécie esteja em declínio, Camila de Carvalho afirma que é não é possível afirmar qual a situação atual dos peixes-bois-da-amazônia, devido às dificuldades de monitoramento.

“A área de distribuição do peixe-boi é muito grande”, argumenta. “Ainda que tivesse uma estimativa para aquela região, a gente não sabe o deslocamento do bicho. É muito difícil estudar ele, tanto o comportamento quanto a área que ele ocupa”.

Veja o vídeo:

 

Saiba Mais

Artigo: Observation of a potential mating herd in Amazonian manatee.

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