Notícias

Pescadores ocupam sede do Ibama na Bahia e reivindicam ações para conter óleo

Os cerca de cem manifestantes ocuparam o prédio da Superintendência do Ibama na Bahia e pediram providências em relação às manchas de óleo

Carolina Lisboa ·
22 de outubro de 2019 · 2 anos atrás
Cartaz. Foto: Divulgação.

Um grupo de cerca de cem manifestantes, formado principalmente por pescadores, entrou na manhã desta terça-feira (22) na sede da Superintendência do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Supes/Ibama) na Bahia, localizada no bairro de Amaralina, em Salvador, para reivindicar ações das autoridades em relação ao óleo que vem poluindo as praias do Nordeste e que atingiu o estado na última semana. Os pescadores são militantes do Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais da Bahia e cobram a efetivação do Plano Nacional de Contingência (PNC) para barrar o óleo que atingiu áreas de pesca.

Os manifestantes entraram na sede da autarquia cantando palavras de ordem e portando bandeiras e cartazes com dizeres criticando a omissão do governo e pedindo assistência emergencial aos pescadores. Eles alegam que a atividade pesqueira tem sido prejudicada e que a situação das manchas de óleos no litoral baiano causa um dano de difícil reparação ao meio ambiente. Durante o protesto, os pescadores também reivindicaram salário defeso, visto anual das carteiras de pescadores e marisqueiras, material de proteção como chapéus, luvas, máscaras, camisas UV, sacos apropriados para coleta do óleo, pás, carrinhos e material adequado de limpeza para as mãos após o trabalho.

Em carta aberta intitulada “Em defesa da vida, dos pescadores e pescadoras artesanais, das praias, dos estuários, da vida marinha”, 38 organizações da sociedade civil se manifestaram e reivindicaram a tomada de providências em relação à chegada do óleo nas praias da Bahia. Os grupos exigem que as autoridades competentes “desencadeiem imediatamente o Plano de Contingência a fim de classificar, controlar, retirar a substância, prevenir a ampliação dos danos e promover ampla e verídica informação à população em geral e aos pescadores, em particular; e que associem os pescadores artesanais às ações de contingência e monitoramento da contaminação. Que medidas emergenciais sejam tomadas para garantir a dignidade das comunidades pesqueiras que encontram-se em grave dificuldade”.

Servidores foram liberados

De acordo com uma servidora da Supes/BA que preferiu não se identificar, todos os funcionários foram liberados durante o protesto. “Tem muita gente ocupando a área interna do prédio, que tem três pavimentos além do térreo. O térreo e o primeiro andar estão ocupados pelos manifestantes. Os funcionários desses andares foram liberados no meio da manhã, logo no início da manifestação, e em seguida todos foram liberados. Não nos deram maiores detalhes, apenas pediram para trancarmos as portas”, relatou ela.

Manifestantes ocupam a Superintendência do Ibama na Bahia. Foto: Divulgação.

A servidora informou ainda que foi convocada, pelo superintendente do Ibama na Bahia, Rodrigo Santos Alves, uma reunião com todos os órgãos envolvidos. A reunião seria do Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA), coordenado pela Marinha, e que inclui Ministério da Agricultura e Defesa Civil, Petrobrás, Polícia Federal, Agência Nacional do Petróleo (ANP), além de grupos e órgãos da Secretaria Estadual como Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura (Seagri), Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), universidades e as lideranças das entidades de pesca. “Apenas servidores da Secretaria de Pesca estavam presentes na hora dos protestos. Uma servidora dessa secretaria disse que eles já ocuparam três vezes a superintendência e que a estratégia é evitar o confronto, até porque o pleito é legítimo. Já o Ministério Público Federal (MPF) disse que não negocia em prédio ocupado”, relatou.

Renato Cunha, da ONG Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá), informou que vem acompanhando essa situação desde o início de setembro, quando começaram a aparecer as primeiras manchas de óleo em várias praias do Nordeste. “Aqui na Bahia já tem quase três semanas que começaram a aparecer essas manchas, já poluindo várias praias, começando pelo litoral norte depois de Sergipe. Praias, manguezais e estuários foram sendo contaminados, inclusive os recifes de corais como os da Praia do Forte. Tem um movimento de voluntários tentando fazer a coleta e limpeza das praias, mas sem as condições necessárias como equipamentos de proteção individual. As prefeituras também estão sem nenhum controle da situação, sem equipamentos, sem recursos e sem domínio da tecnologia adequada. Há dois ou três dias tivemos notícia de que, além de Salvador, algumas praias da Baía de Todos os Santos, de Itaparica, e das ilhas do Morro de São Paulo e de Boipeba, que ficam no município de Cairu, no baixo sul, também estão recebendo manchas de óleo quase diariamente. A situação é muito preocupante porque não se sabe de onde vem esse óleo. Estamos reivindicando que sejam apresentadas e divulgadas informações por parte do governo a respeito do problema”.

Segundo Marcele do Valle, do Instituto Búzios, uma das principais reivindicações é a necessidade de o governo admitir representação das organizações de pescadores, marisqueiras e das associações e organizações de trabalhadores no grupo de acompanhamento. “As praias são apenas o aspecto visível da problemática. O petróleo bruto se desloca por baixo da superfície da água, havendo dificuldade de identificá-lo e barrá-lo. O óleo pode, efetivamente, contaminar não só os mariscos e peixes, mas também as pessoas, levando a um problema de segurança alimentar”. Ela criticou ainda a falta de articulação por parte do governo: “O que se colocou aqui pelos pesquisadores da universidade é que precisa haver um movimento de cooperação internacional para trazer outras tecnologias que possam ser conjugadas com essas iniciativas que estão sendo levadas a cabo aqui no Nordeste. É preciso haver um acompanhamento efetivo das autoridades, e que seja decretada emergência por parte dos governos estaduais e federal. Há protocolos internacionais que podem e precisam ser acionados, mas não estamos vendo nenhuma ação por parte do governo”.

 

Leia Também 

Organizações pedem o fim do sigilo nas ações em relação às manchas de óleo

Manchas de óleo chegam às praias de Boipeba e Morro São Paulo, na Bahia

Ricardo Salles usa vídeo editado para criticar Greenpeace

 

  • Carolina Lisboa

    Jornalista, bióloga e doutora em Ecologia pela UFRN. Repórter com interesse na cobertura e divulgação científica sobre meio ambiente.

Leia também

Salada Verde
21 de outubro de 2019

Ricardo Salles usa vídeo editado para criticar Greenpeace

ONG rebate e afirma que ministro mente sobre atuação  de ONGs como fez nas queimadas. Salles também troca farpas com políticos

Salada Verde
22 de outubro de 2019

Manchas de óleo chegam às praias de Boipeba e Morro São Paulo, na Bahia

Mais de 1,5 tonelada de resíduos foram retirados das Praias Segunda e Terceira, um dos principais pontos turísticos da região. Governo Federal reconhece situação de emergência do estado

Salada Verde
22 de outubro de 2019

Organizações pedem o fim do sigilo nas ações em relação às manchas de óleo

Texto reúne mais de cem assinaturas entre pesquisadores, políticos, artistas pedindo mais transparência nas atuações e na divulgação de dados em relação ao caso

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 1

  1. Lars diz:

    Aquele protesto maroto, com pauta somente em relação à pesca, sem nenhuma intenção política…