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Mais de metade dos primatas do mundo podem desaparecer em 50 anos

Estudo alerta para o atual estado em que se encontram todas as espécies de primata. Nos países da Ásia, o número de espécies em declínio corresponde a 95% do total

Sabrina Rodrigues ·
18 de janeiro de 2017 · 5 anos atrás
O ameaçado Gibão-hoolock-oriental (Hoolock leuconedys). Foto: Fan Pen Fei.
O ameaçado Gibão-hoolock-oriental (Hoolock leuconedys). Foto: Fan Pen Fei.

Os primatas exercem papel importantíssimo para a biodiversidade tropical, contribuindo para a dispersão de sementes, regeneração das florestas e a saúde dos ecossistemas. Espécies como lêmures, micos, chimpanzés, gorilas, entre outros, oferecem oportunidades únicas para o estudo da evolução e do comportamento humano, além de serem valiosos modelos para o estudo de doenças emergentes. Mesmo desempenhando todas essas atribuições para a natureza, se nada for feito, daqui a 50 anos o desaparecimento de diversas espécies será uma realidade.

É o que revela um artigo assinado por 31 especialistas em conservação de diversos partes do mundo, publicado nesta quarta-feira (18), no periódico científico Science Advances. O estudo, que levou um ano para ser concluído, alerta para o atual estado em que se encontram todas as espécies de primata. 60% das mais de 500 espécies conhecidas de primatas correm risco de extinção. A população dos primatas vem diminuindo há décadas. “A população do orangotango-de-bornéo (Pongo pygmaeus) diminuiu 50% nos últimos 60 anos. Estima-se que entre 1950 e 3100 desses animais sejam mortos anualmente por caçadores. O número de gorilas-de-grauer (Gorilla beringei graueri), que era de 17 mil animais em 1995, passou para apenas 3.800 em 2015, um declínio de 77%. Outro exemplo é o do lêmure-de-cauda-anelada (Lemur catta) cuja população diminuiu drasticamente: 95% desde o ano 2000, passando de cerca de 700 mil animais para somente 2.200”, afirma Andreas Meyer, doutorando no Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná e coautor do artigo.

Essa situação é resultado da crescente e insustentável atividade humana nas regiões tropicais da América do Sul, África e Ásia, que abrigam a maioria dos primatas. A situação é bastante crítica em Madagascar e em países do sudoeste da Ásia como Indonésia, China e Vietnã. Em Madagascar, ocorrem pouco mais de 100 espécies de primatas e todas estão em declínio. Nos países da Ásia, o número de espécies em declínio corresponde a 95% do total.

Atividades como agricultura, pecuária, extração de minérios, madeira e combustíveis fósseis, construção de barragens, bem como a construção de estradas que escoam a produção são os responsáveis por tal desastre, segundo os autores do artigo. Somadas a essas pressões estão a caça e o comércio ilegal de primatas como animais de estimação, além de ameaças globais como as mudanças climáticas. Todos esses fatores agem em conjunto e vem causando a redução do número de animais na natureza.

Para os pesquisadores, medidas cabais para a conservação dos primatas devem ser tomadas o mais rápido possível. Para isso, é fundamental controlar a demanda mundial por produtos como madeira, carne, óleo de palma, soja, látex, minério e combustíveis fósseis, e ao mesmo tempo incentivar práticas de produção mais sustentáveis. Outros pontos importantes envolvem ampliar a extensão das áreas protegidas, investir em educação ambiental e estimular atividades que contribuam com a proteção dos recursos naturais, como por exemplo o ecoturismo.

O papel do Brasil na conservação dos animais

O Brasil é o país que abriga a maior diversidade de primatas no mundo, são mais de 110 espécies, divididas em 22 gêneros e 5 famílias. Mas, o cenário para os primatas é cada vez mais pessimista. A maioria desses animais encontra-se na Amazônia, um ambiente que vem sofrendo contínua pressão pelo uso da terra. Além disso, os cortes nos investimentos em áreas estratégicas como ciência e meio ambiente podem prejudicar o desenvolvimento de políticas e ações voltadas à conservação dos primatas e da biodiversidade em geral.

“Infelizmente, hoje o Brasil vive um cenário de incerteza política, instabilidade socioeconômica e de políticas que favorecem o crescimento e o lucro no curto prazo, ignorando as consequências dessas ações no longo prazo. A conservação dos primatas (e da biodiversidade em geral) hoje é uma tarefa complexa, que precisa envolver governantes, empresários, cientistas, ONGs e a sociedade em geral. Ações como investir em políticas públicas que estimulem o uso sustentável dos recursos e que reduzam a demanda por commodities que degradam o ambiente durante sua produção é fundamental (como é o caso dos combustíveis fósseis, por exemplo). É preciso também criar incentivos para que a iniciativa privada amplie seu envolvimento em ações socioambientais, seja por meio de financiamentos de projetos próprios, em universidades, ONGs ou institutos de pesquisa. Além disso, é preciso que iniciativas que podem trazer consequências negativas à conservação da biodiversidade, como por exemplo a tentativa de flexibilizar o licenciamento ambiental, deem lugar para projetos que estimulem medidas compensatórias efetivas por parte das empresas que exercem atividades que degradam o ambiente. Investir em políticas que incentivem a redução da emissão de carbono na atmosfera também é fundamental, uma vez que mudanças climáticas são uma ameaça proeminente à conservação dos primatas”, afirma Andreas Meyer.

 

Saiba Mais
Impending extinction crisis of the world’s primates: Why primates matter – Science Advances

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    Repórter especializada na cobertura diária de política ambiental. Escreveu para o site ((o)) eco de 2015 a 2020.

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Comentários 3

  1. paulo diz:

    Tudo indo para o estouro. E os bilionários acumulando para que?


    1. Claudia Basso diz:

      Enviei errado, desculpe!


  2. É de cortar o coração ler tamanho estrago ao planeta feito pelo ser que se diz o mais inteligente. Uma lástima!
    Meu envolvimento com conservação começou com o trabalho do Claudio Padua, meu marido, que sonhava em salvar o mico-leão preto, redescoberto pelo Adelmar Coimbra Filho depois de ter sido considerado extinto. Esta experiência de décadas nos vem direcionando a diversas frentes, pois conservação é um campo complexo e exige que a gente se envolva com áreas que a princípio nada tem a ver com a espécie. Mas, tem, e precisam ser incluídas para que gente e natureza se entendam. Nada simples!
    Seu artigo, assustador, é um alerta para tudo o que temos que fazer a mais e deixar de fazer ou fazer a menos… Grata pelo excelente artigo e de tamanha importância!