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Extintas no Rio, antas são reintroduzidas próximas ao Parque Estadual dos Três Picos

O maior mamífero terrestre do país se prepara para viver livre ao lado do maior parque do estado. Iniciativa é uma aposta para o sucesso da recuperação dos corredores de Mata Atlântica

Natalia Furtado ·
20 de junho de 2018 · 3 anos atrás
Eva, primeira fêmea adulta reintroduzida, em dezembro de 2017. Foto: Divulgação.

Flora, Valente e Júpiter são os novos moradores da Reserva Ecológica Guapiaçu (REGUA), uma reserva privada contígua ao Parque Estadual dos Três Picos. As antas chegaram no domingo (10), após percorrerem 1.000 quilômetros desde a sua antiga residência, o criadouro científico da Klabin, localizado em Telêmaco Borba, no Paraná. Os animais passarão um mês se preparando para viverem em liberdade na reserva localizada no município de Cachoeiras de Macacu, no estado do Rio de Janeiro.

As novas integrantes se juntarão a Eva e Floquinho, que já moram no local desde dezembro de 2017 e foram a primeira família a ser reintroduzida ali. A mãe e o filhote vieram do criadouro conservacionista da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, situado em Araxá, Minas Gerais. Junto aos dois, havia um outro macho que não sobreviveu ao período de 30 dias de aclimatação no viveiro localizado dentro da Reserva Particular do Patrimônio Natural.

Adaptação ao novo local

As antas compõem uma população muito reduzida na Mata Atlântica e estão extintas no Rio de Janeiro há pelo menos um século.

São animais de grande porte (podendo pesar até 300 quilos) e de reprodução lenta. Reintroduções de espécies com essas características demandam tempo e envolvem muitos custos. Além disso, historicamente a taxa de sucesso das iniciativas não é alta. Os números variam de país para país, mas de modo geral, considera-se que menos de 10% desses projetos de reintrodução têm sucesso no longo prazo. Não é raro que os animais não tenham atividade reprodutiva ou não se adaptem à nova condição e tenham que ser reconduzidos ao cativeiro ou acabem falecendo.

Equipe do Projeto Refauna de olho na chegada na nova integrante Flora. Foto: Divulgação.

Entretanto, o biólogo Maron Galliez, do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), explica que esses resultados estão melhorando graças ao desenvolvimento da ciência da disciplina Biologia da Reintrodução. Segundo ele, talvez a etapa mais importante do processo seja a que os pesquisadores chamam de aclimatação, quando os animais são colocados em um cercado já no ambiente de soltura.

Nesse caso das antas, elas são mantidas em um cercado de 8.800 metros quadrados construído próximo ao ambiente selvagem da reserva. O cercado permanece fechado por no máximo 30 dias, período em que os animais ainda são alimentados pela equipe do projeto. Após um mês, a porteira é aberta, mas a suplementação alimentar pode ser mantida, caso a equipe considere necessária. Antes da soltura os animais recebem o colar de telemetria, cada um dos indivíduos recebe um colar de VHF-GPS telemetria, que armazena localizações georreferenciadas automaticamente a cada 30 minutos. Os dados são enviados aos pesquisadores por e-mail. Caso seja notado que algum animal está debilitado ou não adaptado à reintrodução, ele será capturado e levado para o recinto de aclimatação novamente.

Dispersora de sementes

A relevância das antas está na elevada capacidade de dispersão e predação de sementes, além de pisoteio de plântula – quando os animais pisam na vegetação, podendo levar a morte de algumas plantas mais delicadas e jovens, evitando a abundância excessiva de uma espécie dominante. Segundo o pesquisador Maron Galliez, a anta assume “o papel de verdadeira jardineira da floresta” e que “sem a volta desses animais, não adianta falar de restauração ambiental”.

Júpiter no cercadinho da aclimatação. Foto: Divulgação.

A iniciativa faz parte da Rede Refauna – projeto desenvolvido em conjunto pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro –, que visa retroceder o processo de extinção de espécies e restabelecer as interações ecológicas na Mata Atlântica. O programa, patrocinado pela FAPERJ, Boticário, IFRJ e CNPq, teve financiamento de aproximadamente 200 mil reais, além das bolsas recebidas das instituições ao longo dos últimos quatro anos.

Para o sucesso da iniciativa, é essencial que a informação chegue aos moradores e que sejam convidados a colaborar de forma a prevenir os conflitos e a caça. Por isso, o projeto está sendo executado de forma participativa, e um dos exemplos é a cooperação das escolas da região, onde os pesquisadores apresentam o programa e as antas, e conduzem uma dinâmica em que os alunos as desenham e escolhem seus nomes.

Jacutinga

Além das antas, a jacutinga será reintroduzida na mesma Reserva pelo Projeto Jacutinga da ONG SAVE Brasil que já conduz o projeto em outras regiões. A ave é uma espécie endêmica da Mata Atlântica e, no estado do Rio de Janeiro, está extinta. Até o final de julho, quatro indivíduos serão soltos segundo informação da organização.  A jacutinga é considerada uma excelente dispersora de sementes, capaz de se alimentar de 41 frutos da Mata Atlântica, colaborando na manutenção das florestas e dos sistemas hídricos. A SAVE Brasil já trabalhou com três escolas da região e incentiva que a comunidade frequente a reserva para a prática de observação de aves.

Clique na galeria para ler as legendas das fotos.

* Editado em 20/06/2018 às 17h12min.

*Editado em 21/06/2018 às 13h44min.

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Comentários 3

  1. Sousa santos diz:

    Gostaria de entender a mente de alguém que negativa comentários positivos sobre esse assunto


  2. Flávio Mendes diz:

    Parabéns pela iniciativa do projeto e pelo divulgação do Oeco. Gostaria muito que fizessem uma nova reportagem de como anda as populações de cutias e bugio reintroduzidas na Tijuca.


  3. Paulo diz:

    Parabéns pela iniciativa.