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Estudo inédito mapeia áreas prioritárias para conservação dos oceanos no planeta

Pesquisadores levaram em conta a biodiversidade, manutenção do estoque pesqueiro e combate às mudanças climáticas para mapear zonas chave de proteção marinha no mundo

Duda Menegassi ·
17 de março de 2021
Áreas prioritárias para conservação foram mapeadas pelos pesquisadores de forma pioneira. Foto: NOAA/PIFSC/HMSRP

Um time de pesquisadores de diferentes países se uniu para elaboração de um levantamento das áreas marinhas prioritárias para conservação. O estudo mapeou de forma inédita as zonas-chave dos oceanos que, se protegidas, podem ajudar a garantir não apenas a manutenção da biodiversidade, mas também dos recursos pesqueiros e desempenharem papel fundamental no combate às mudanças climáticas. Uma força-tarefa global voltada para preservação dessas áreas mapeadas seria o suficiente para salvaguardar mais de 80% dos habitats de espécies marinhas ameaçadas e para gerar um aumento nas capturas de pesca em mais de 8 milhões de toneladas métricas.

Além disso, a pesquisa também calculou a liberação potencial de dióxido de carbono – principal responsável pelo aquecimento do planeta – durante a pesca de arrasto no fundo do mar. De acordo com o estudo, a prática pesqueira, comum no mundo, responde por centenas de milhões de toneladas emitidas anualmente, um volume semelhante às emissões do setor da aviação.

O estudo intitulado “Protecting the global ocean for biodiversity, food and climate” (Proteger o oceano pela biodiversidade, comida e clima) foi publicado na revista científica internacional Nature nesta quarta-feira (17). A pesquisa foi elaborada por um grupo de 26 pesquisadores, liderados por Enric Sala, explorador residente da National Geographic Society.

“A vida nos oceanos está diminuindo em todo o mundo por causa da pesca excessiva, da destruição de habitat e das mudanças climáticas. No entanto, apenas 7% do oceano está atualmente sob algum tipo de proteção”, disse Enric Sala, principal autor do estudo. “Neste estudo, fomos os pioneiros com uma nova maneira de identificar os locais que – se fortemente protegidos – aumentarão a produção de alimentos e protegerão a vida marinha, ao mesmo tempo em que reduzem as emissões de carbono”, acrescenta Sala.

O levantamento constatou também que apesar de distribuídos por todo o oceano, a maioria das áreas prioritárias para conservação estão dentro de Zonas Econômicas Exclusivas (ZEE), ou seja, na faixa de 200 milhas marítimas no litoral de países costeiros.

As demais zonas de prioridade estão localizadas em alto mar, águas governadas pela lei internacional, e incluem a cordilheira submarina conhecida como Cadeia Dorsal Mesoatlântica; o Planalto Mascarene, no Oceano Índico; e as cordilheiras submarinas de Nazca, na costa oeste da América do Sul, e Southwest Indian, entre a África e a Antártica.
Para mapear as áreas prioritárias, a equipe de pesquisadores analisou o grau de impacto das atividades humanas como sobrepesca e destruição de habitat nas águas oceânicas desprotegidas e o quanto essas ameaças poderiam ser contidas a partir do estabelecimento de unidades de conservação marinhas. Com essa lógica, eles desenvolveram um algoritmo para identificar as áreas onde a proteção iria trazer mais benefícios para a biodiversidade, manutenção do estoque pesqueiro e mitigação climática.

A partir desse zoneamento, os governos podem assumir compromissos de preservação mais efetivos, de acordo com suas prioridades. Independente das áreas escolhidas, a pesquisa aponta que 30% é a quantidade mínima de oceano que o mundo deve proteger para garantir múltiplos benefícios à humanidade.

“Talvez o resultado mais impressionante e encorajador seja o enorme ganho que podemos obter para a conservação da biodiversidade – se escolhermos cuidadosamente a localização de áreas marinhas estritamente protegidas”, disse David Mouillot, co-autor do artigo e professor da Universidade de Montpellier, na França. “Uma prioridade notável para a conservação é a Antártica, que atualmente tem pouca proteção, mas está projetada para hospedar muitas espécies vulneráveis ​​em um futuro próximo devido à mudança climática”, ressalta.

Criar áreas de proteção marinha também é essencial para manutenção da pesca. Foto: Julie Bedford/NOOA PA

A equipe de pesquisadores reforça também a importância de criar áreas protegidas marinhas para a própria pesca e desmistifica a ideia de que a conservação é inimiga do pescador. “Alguns argumentam que o fechamento de áreas para a pesca prejudica os interesses pesqueiros. Mas o pior inimigo do sucesso da pesca é a sobrepesca – não as áreas protegidas”, alerta Enric Sala, que destaca os dados levantados pelo trabalho de que a proteção dos lugares certos poderia gerar um aumento de mais de 8 milhões de toneladas métricas de captura de pescado.

“É simples: quando a pesca predatória e outras atividades prejudiciais cessam, a vida marinha se recupera. Depois que as proteções são colocadas em prática, a diversidade e a abundância da vida marinha aumentam com o tempo, com uma recuperação mensurável ocorrendo em apenas três anos”, aponta Reniel Cabral, da Escola Bren de Ciência e Gestão Ambiental e Instituto de Ciências Marinhas da Universidade de Santa Bárbara, que também participou da pesquisa.

Papel estratégico no combate às mudanças climáticas

A proteção das áreas prioritárias destacadas pelo estudo também possui um papel importante na mitigação e combate às mudanças climáticas. Isso porque o fundo do mar é um grande depósito de carbono e a pesca de arrasto – prática comum na atividade pesqueira onde uma rede pesada é arrastada pelo fundo do mar e captura tudo que passa por ela – libera esses gases da água direto para atmosfera.

A pesquisa foi a primeira a calcular de forma concreta os impactos da pesca de arrasto na questão climática e chegou à conclusão assustadora de que a quantidade de dióxido de carbono liberada a partir dessa prática é maior do que as emissões anuais de carbono da maioria dos países e equivalente às emissões anuais da aviação global.

“O fundo do oceano é o maior depósito de carbono do mundo. Se quisermos deter o aquecimento global, devemos deixar o leito marinho rico em carbono intocado. No entanto, todos os dias estamos arrastando o fundo do mar, esgotando sua biodiversidade e mobilizando carbono milenar e, assim, agravando as mudanças climáticas. Nossas descobertas sobre os impactos climáticos da pesca de arrasto de fundo tornarão as atividades no fundo do mar difíceis de ignorar nos planos climáticos futuros ”, ressalta Trisha Atwood, da Universidade Estadual de Utah, co-autora do artigo.

Os países com maior potencial de contribuir para a mitigação das mudanças climáticas através da proteção de estoques de carbono são aqueles com grandes águas nacionais (as ZEE) e que praticam pesca de arrasto de fundo em escala industrial. De acordo com o estudo, para eliminar 90% do risco atual de liberação do carbono pela pesca de arrasto exigiria proteger apenas 4% do oceano, a maior parte em águas com jurisdição nacional.

“O oceano cobre 70% da terra, mas, até agora, sua importância para resolver os desafios de nosso tempo foi negligenciada”, destaca Boris Worm, professor da Universidade de Dalhousie, no Canadá, e co-autor do estudo. “A proteção inteligente dos oceanos ajudará a fornecer soluções climáticas naturais baratas, tornar os frutos do mar mais abundantes e proteger as espécies marinhas em perigo – tudo ao mesmo tempo. Os benefícios são claros. Se quisermos resolver os três desafios mais urgentes do nosso século – perda de biodiversidade, mudança climática e escassez de alimentos – devemos proteger nosso oceano”, conclui.

Compromisso global no horizonte

Principal autor do estudo, Enric Sala é também fundador da organização Pristine Seas, parte de um esforço global para garantir que os países assumam o compromisso de proteger 30% de suas terras e oceanos até 2030 e reforça que os países precisam trabalhar juntos para alcançar esse objetivo. O compromisso é uma das pautas que estará em debate durante a 5ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, que será realizada em maio deste ano, na China. O encontro reunirá representantes de 190 países para formalizar um acordo para enfrentar a crise de perda de biodiversidade.

De acordo com Jennifer McGowan, pesquisadora associada da organização internacional The Nature Conservancy e co-autora do artigo, os tomadores de decisão precisam agir. “A ciência nos mostra como, a vontade política nos diz quando. O ‘quando’ tem que ser agora, pois simplesmente não podemos permitir que o oceano falhe. Enquanto o mundo se prepara para definir a agenda global das políticas climática e de biodiversidade para a próxima década, esta pesquisa fornece a base sobre a qual os tomadores de decisão podem mapear e planejar as interações com o oceano para oferecer vários benefícios para as pessoas e para a biodiversidade. Nossa pesquisa fornece evidências de que chegou a hora de retirar a narrativa de que a conservação está em conflito com a prosperidade econômica. Este deve ser o momento de construir economias oceânicas prósperas e sustentáveis ​​e esta pesquisa mostra como fazer isso”, afirma McGowan.

 

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    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação e montanhismo. Escreve para ((o))eco desde 2012. Autora do livr...

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