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Declínio de anfíbios afeta populações de serpentes tropicais

Estudo publicado na revista Science revela que serpentes estão sendo afetadas pelo declínio de anfíbios causado pelo fungo quitrídio

Carolina Lisboa ·
11 de março de 2020 · 1 anos atrás
Víbora-de-pestana (Bothriechis schlegeli). Foto: Andrew Hein.

O fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), causador da quitridiomicose em anfíbios, vem preocupando pesquisadores e conservacionistas em todo o mundo por seu potencial de levar populações e espécies à extinção. Agora, um estudo no Panamá mostra o impacto do declínio de anfíbios sobre as populações de serpentes. Publicado em fevereiro na revista Science, o estudo mostrou que o declínio de anfíbios afetou dramaticamente as espécies de serpentes tropicais do Parque Nacional Omar Torrijos Herrera, a 8 km ao norte de El Copé, no Panamá, depois que o fungo Bd atingiu os anfíbios do local em 2004.

O Batrachochytrium dendrobatidis (Bd) está associado ao declínio de mais de 500 espécies de anfíbios, e vem piorando ainda mais a situação do grupo de animais mais ameaçado do mundo. O desaparecimento de anfíbios tem diversas consequências no ecossistema, sendo uma delas a perda de outras espécies que dependem desses anfíbios.

De acordo com Elise Zipkin, da Universidade Estadual de Michigan (EUA) e primeira autora do estudo, esse caso em particular é um exemplo do que pode acontecer com florestas tropicais depois que o fungo Bd aniquila os anfíbios: “Levantamos a hipótese de que a cadeia alimentar local foi interrompida pela perda de anfíbios, de modo que as espécies de serpentes também declinaram, provavelmente devido à perda de uma importante fonte de alimento (sapos), mas possivelmente também de outras mudanças indiretas no ecossistema”.

A coautora do estudo, Dra. Julie M. Ray, no campo de El Copé, com uma caninana (Spilotes pullatus). Foto: Aurelio González.

A equipe que participou do estudo foi capaz de testemunhar e comprovar mudanças dramáticas na comunidade de serpentes depois que a quitridiomicose atingiu os anfíbios do Parque Nacional. Serpentes são animais difíceis de detectar em campo e muitas espécies são naturalmente raras, o que tornou o estudo ainda mais desafiador. O grupo só conseguiu detectar as mudanças graças a um monitoramento de longo prazo que vinha sendo realizado desde 1997, através de buscas por serpentes em sete transectos permanentes.

De modo geral, os pesquisadores documentaram mudanças na riqueza (número de espécies) e na composição da comunidade de serpentes entre os períodos pré e pós-epizootia (epidemia de quitridiomicose). Antes da chegada do fungo em 2004, a equipe registrou 30 espécies de serpentes; depois do fungo, encontraram 21 espécies, a maioria em quantidades menores de indivíduos. Das 17 espécies mais detectadas (cinco ou mais vezes) durante as buscas antes do fungo, nove foram encontradas posteriormente em menor quantidade, quatro em quantidades maiores e as quatro espécies restantes não sofreram alterações substanciais. De acordo com o artigo, esses dados mostraram que a composição da comunidade foi alterada, com algumas espécies sendo prejudicadas e outras sendo beneficiadas: “o Bd indiretamente gerou um grande número de espécies de serpentes ‘perdedoras’, mas também alguns ‘vencedores’, um fenômeno ecológico frequentemente observado após distúrbios que levam à homogeneização biótica”.

De modo geral, a comunidade não só ficou menor e menos diversa após a doença, mas algumas espécies também tiveram sua saúde geral impactada: “Algumas espécies (4 de 6) tinham uma condição corporal inferior – estavam essencialmente mais magras. No entanto, 2 de 6 espécies de serpentes melhoraram a condição corporal, sugerindo que algumas espécies podem se beneficiar das mudanças no ambiente”, esclareceu Zipkin.

Com essas observações, os autores puderam concluir que, de modo geral, as estruturas dos ecossistemas estão se deteriorando mais rapidamente do que o esperado, devido a efeitos indiretos e em cascata gerados por espécies invasoras, perda de habitat e mudanças climáticas. De acordo com Zipkin, para mitigar a crise da biodiversidade global, principalmente nas florestas tropicais, serão necessárias políticas rápidas e efetivas: “Limitar a propagação do fungo quitrídio é crítico. Isso pode ser feito reduzindo o comércio de animais silvestres. Além disso, a proteção de habitats é fundamental para diminuir as perdas de biodiversidade. Um dos maiores fatores que impulsionam a perda de biodiversidade é a perda de habitat”, conclui a pesquisadora.

A taxa de ocorrência do Sibon argus diminuiu após a perda de anfíbios. Foto: Clint Otto.

 

 

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  • Carolina Lisboa

    Jornalista, bióloga e doutora em Ecologia pela UFRN. Repórter com interesse na cobertura e divulgação científica sobre meio ambiente.

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