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Ariranhas estão voltando na região do Alto Rio Negro

Estudo indica que população dos animais, que se recupera também em outras regiões da Amazônia, está voltando aos rios do Noroeste do Amazonas

Vandré Fonseca ·
1 de agosto de 2018 · 3 anos atrás
Ariranhas vivem em grupo. Foto: André Coelho.

Manaus, AM – As ariranhas (Pteronura brasiliensis) estão voltando ao Alto Rio Negro. Principais vítimas da caça por peles ao longo de mais da metade do século XX, populações remanescentes que sobreviveram nas cabeceiras, locais de acesso mais difícil para os caçadores, aumentaram nas últimas décadas e avançam para áreas onde elas já não eram vistas há muitos anos.

“É uma recuperação tímida e recente”, afirma a bióloga Natália Pimenta, pesquisadora do Instituto Socioambiental (ISA). “É preciso muito cuidado para manter nessas condições. A densidade da espécie está muito baixa, pelo que vi. Geralmente, ela é vista em grupos maiores e mais numerosos”, completa. Outros estudos indicam a recuperação de populações de ariranhas também na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Amanã, também no Amazonas.

Natália estudou a história da presença da ariranha e da lontra (Lontra longicaudis) no Alto Rio Negro, no mestrado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), entre 2014 e 2016. Durante os estudos, ela fez amostragem, consultou registros históricos e ouviu índios que participaram da caça para recontar a história da ocupação da região pelas duas espécies. Os resultados foram publicados em março, na revista científica online PLOS ONE.

A ariranha foi os animais mais caçados na Amazônia, ao longo do século XX, de acordo com Natália. Estudos históricos sobre a caça na região, que recuperaram dados sobre a exportação de peles, demonstram que a atividade ganhou impulso após o Ciclo da Borracha, por volta de 1920, até a proibição da caça comercial em 1968. A atividade foi responsável pelo declínio de diversas espécies, como peixes-boi, lontras e jacarés.

Stand com peles de animais caçados na Amazônia na Feira de Exposição de Bruxelas, em 1911. Crédito: Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Manaus.

O abate de ariranhas sofreu uma grande queda em meados de 1940, quando os registros da caça do animal passaram a ser raros, indicando também o declínio da população da espécie. Já o abate de lontras continuou até a proibição da caça comercial, em 1968.

“Os velhos contam que na época em que as ariranhas desapareceram, ficavam nas cabeceiras dos igarapés, regiões mais inacessíveis”, conta a bióloga. “A região do Rio Negro tem muita pedra, é de difícil navegação, tem muitas cachoeiras. Tem muitos lugares que as pessoas não conseguem acessar muito bem. As ariranhas estavam refugiadas nestes locais. Possivelmente, aumentou a população nessas áreas e estão voltando”, acredita.

Pajé das águas

Embora tenham sido caçadas também pelos índios durante o período em que a caça estava liberada no país, as ariranhas têm uma posição importante no imaginário dos povos indígenas do Alto Rio Negro. Elas são consideradas por um dos grupos de índios Baniwa como um dos cinco pajés primordiais, conforme explica Natália. “Quando foi criado o mundo, foram criados cinco animais que cuidavam da floresta”, conta a pesquisadora. “A ariranha foi um deles. Ela é responsável pela saúde dos peixes, então eles têm a ariranha com uma figura bem importante para  o ambiente aquático”.

Os outros pajés primordiais são o morcego, para animais que voam e aves; a onça, da floresta; o boto e a lontra, que compartilham o ambiente aquático com a ariranha. “São todos predadores, animais que têm papel importante na cadeia trófica”, assinala Natália Pimenta.

Grupo de ariranhas visto no primeiro semestre de 2015 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã. Foto: André Coelho.

Os índios têm relatado, segundo Natália, um aumento também em peixes nessas regiões. Para os índios, os peixes estão seguinte o “pajé das águas”, segundo Natália. Mas a pesquisadora lembra a existência de teorias que podem explicar esse aumento de peixes devido a volta de um predador. As ariranhas, conforme a teoria, estariam fazendo controle de peixes maiores, contribuindo para aumentar a diversidade de espécies nas águas.

Lontras versus ariranhas

A ariranha é considerada como espécie ameaçada, na categoria “Em Perigo”, pelos critérios da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Especialistas preveem a perda de metade da população da espécie nos próximos 25 anos, devido principalmente a ameaças ao seu ambiente, como desmatamento, contaminação por veneno e doenças provocadas por animais silvestres e competição com pescadores. Já a lontra está quase ameaçada, devido ao declínio da população.

Apesar de ariranhas e lontras serem parentes, se considerarmos a história evolutiva, são espécies bem distintas, de gêneros diferentes. A ariranha, também conhecida como lontra gigante, é maior do que suas primas e pode chegar a 2 metros de comprimento e tem hábitos diurnos. Na Amazônia, além da ariranha é encontrada também a lontra-neotropical, menor, de hábitos noturnos.

A preferência dos caçadores por machos, que têm o corpo maior, aliada a diferença de comportamento entre as duas espécies explicam a maior resiliência das lontras em relação às ariranhas. Enquanto as primeiras são poligâmicas, podendo ter vários parceiros ao longo da vida, as ariranhas vivem em casais. Desse modo, a morte de um macho de ariranha tem impacto muito maior no ciclo reprodutivo do que entre lontras, onde outro macho pode ocupar o local daquele abatido.

 

 

Saiba Mais

Artigo: Differential resilience of Amazonian otters along the Rio Negro in the aftermath of the 20th century international fur trade.

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