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A verdade sobre a tartaruga-da-amazônia

Este quelônio de água doce vive no rio Amazonas e seus afluentes, que se estendem pelos territórios das Guianas, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Venezuela.

Rafael Ferreira ·
20 de fevereiro de 2014 · 7 anos atrás

Uma pequena e sortuda tartaruga-da-amazônia ([i]Podocnemis expansa[/i]), apenas 5% da espécie tem chances de chegar à vida adulta. Foto:
Uma pequena e sortuda tartaruga-da-amazônia ([i]Podocnemis expansa[/i]), apenas 5% da espécie tem chances de chegar à vida adulta. Foto:

A tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), é um quelônio de água doce que habita o rio Amazonas e seus afluentes, que se estendem pelos territórios das Guianas, Colômbia Peru, Equador, Bolívia e Venezuela.

Também conhecido pelos nomes de araú, jurará-açu e tartaruga-do-amazonas, a Podocnemis expansa é essencialmente aquática, ocorrendo em sistemas de rios de águas brancas, claras e pretas. Durante os períodos de enchente, penetram as florestas inundadas em busca de alimentos. Na vazante, retornam à calha dos rios em busca das praias arenosas para nidificação.

A tartaruga-da-amazônia é uma espécie de grande porte, considerada o maior quelônio da América do Sul. Os maiores exemplares podem alcançar 90 cm de comprimento ou mais e pesar até 75 kg. A cabeça é pequena e achatada e o casco, de formato oval, é preto acinzentado no dorso e amarelo com manchas escuras na parte ventral. Os machos, conhecidos popularmente como “capitaris”, são menores do que as fêmeas. As linhas que formam padrões na cara do animal são como impressões digitais, e não se repetem de um indivíduo para outro, podendo ser usados para identificá-los na realização de estudos.

Animal onívoro e de hábitos diurnos, sua dieta inclui frutos, raízes, sementes e folhas de plantas, crustáceos, moluscos e pequenos peixes.

Normalmente, imagina-se que tartarugas de água doce são animais silenciosos. No entanto, pesquisas recentes demonstram que a Podocnemis expansa são bem comunicativos, produzindo sons dentro e fora d’água durante suas interações. Cerca de 2122 sons foram detectados, representando uma gama de comunicações que vão de sinais emitidos por filhotes ainda dentro do ovo a sinais emitidos pelos adultos, reunindo filhotes para uma migração em massa. Esta habilidade demonstra também uma característica da espécie, pouco comum aos répteis, o cuidado dos pais após a eclosão dos ovos.

O período reprodutivo ocorre de setembro a dezembro. A desova ocorre apenas uma vez por ano, geralmente à noite. As fêmeas, num momento onde estão mais sujeitas a ação de predadores, cavam buracos na areia de cerca de 50 cm e ali põem uma média de 100 ovos. Os ovos são redondos e de casca flexível, sendo que o tamanho da ninhada varia de acordo com o tamanho da fêmea: as maiores desovam maior número de ovos. Após um período que varia de 45 a 60 dias as pequenas tartarugas nascem.

Como muitas espécies de quelônios, a tartaruga-da-amazônia a determinação sexual depende da temperatura (TSD), ou seja, a temperatura no interior do ninho durante o segundo terço da incubação determina o sexo dos filhotes: temperaturas mais altas geram mais fêmeas e temperaturas mais baixas geram mais machos.

Quando os ovos eclodem, os pequenos quelônios – têm cerca de 5 cm de comprimento – disparam em direção à água, mas esta corrida chama a atenção de aves, que os atacam no trajeto. Mesmo quando o filhote vence seu primeiro obstáculo e chega até as águas do rio, enfrentará outros predadores, como os jacarés, as piranhas e alguns peixes grandes. Com tantos desafios, apenas cinco por cento sobreviverão até a fase adulta quando, então, não são mais molestadas, pois seu tamanho e o casco resistente oferecem suficiente proteção.

A predação humana, no entanto, não se detém por estes obstáculos. A carne e os ovos da tartaruga-da-amazônia são bastante apreciados, constituindo a base de diversos pratos da culinária amazônica. Também é matéria prima para cosméticos e remédios. Por isso, são muito caçadas e amplamente comercializadas no mercado negro.

No passado, foram usadas como fonte de energia (óleo é utilizado para abastecer lamparinas), prática que, embora há muito abolida, contribuiu para a queda da população.

A exploração massiva de milhões de fêmeas adultas e ovos, entre os séculos XVIII e XIX, quase levou a espécie à ser considerada ecologicamente extinta na Amazônia, visto que sua população foi reduzida a números ínfimos. Entretanto, em outros locais do país, o P. expansa é ainda abundante devido, sobretudo, à proteção das áreas de nidificação, por meio da criação de unidades de conservação de proteção integral.

Hoje, todos quelônio do género Podocnemis se encontram no Anexo II da Convenção CITES (Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção), assinada por mais de 100 países em todo o mundo, incluindo o Brasil. A Convenção é um dos acordos ambientais mais importantes para preservação das espécies, regulamentando a exportação, importação e reexportação de animais e plantas, suas partes e derivados, através de um sistema de emissão de licenças e certificados que são expedidos quando se cumprem determinados requisitos.

Em razão destas medidas de proteção, a espécie é considerada pela IUCN como de baixo risco de extinção, Pouco Preocupante, mas dependente de programas de conservação.

 

*Matéria editada no dia 27/02/2014, com colaboração da leitora Camila Ferrara, especialista em ecologia de fauna aquática, pela em WCS.

 

 

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