Invisibilidade não é páreo para a pluralidade

segunda-feira, 29 março 2021 16:40

“Quando Deus fez sua amiga, na hora de colocar o sexo… errou… era para ter nascido homem. Onde já se viu mulher andar assim nas caatingas?!” (Moradora de comunidade rural do Boqueirão da Onça, Bahia, 2015)

“Dispostos em círculos ou filas indianas e armados com rifles, os dançarinos realizavam rápido movimento com os pés, arrastando alpercatas no chão de areia e produzindo um som chiado, um xá-xá-xá – daí o nome da dança. Para aquela brincadeira, executada em tom ritualístico depois dos combates, as cangaceiras não eram convidadas.” (‘Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço’, Adriana Negreiros, 2018).

Maria Bonita, fotografada em 1936 por Benjamin Abrahão Botto. Retratos do cangaço.

Ambos os relatos, da vida real, revelam uma convicta diferenciação dos papéis sociais do homem e da mulher, no contexto catingueiro. O primeiro, ocorrido em nosso século XXI e o segundo, documentado no início do século XX. Não houve (no dia do primeiro relato) resposta para a pergunta da moradora: quem a escutou era recém-chegada, achou melhor aguardar por uma ocasião mais conveniente – ou expor o equívoco pelo discurso e pela prática. Quanto ao xaxado… bom, hoje é dançado aos pares: a mulher ocupou o lugar que antes pertencia aos rifles, usados como figura feminina em bandos que, em seu início, só tinham homens.

“A mulher ocupou o lugar que antes pertencia aos rifles”

O Dia Internacional da Mulher, 8 de março, data reconhecida há 46 anos pelas Nações Unidas, veio reconhecer, celebrar e nos fazer refletir sobre a luta contra as violências, injustiças, omissões e opressões de todos os tipos, sofridas pelas pessoas cujo único crime cometido foi terem nascido mulheres. As pessoas nascidas homens seriam naturalmente (aqui entendido como biologicamente inato) “viris”, com valores masculinos fontes da “virtude” (veja-se a associação semântica ‘virtus’ e ‘virilis’), algo muito diferente do que mostraram ao longo da história da humanidade em suas interações com as pessoas nascidas mulheres, que são premiadas com adjetivos virtuosos apenas quando “ficam no seu lugar” de “recato”, “pudor”, “castidade”, “obediência”. Em suas lutas, as mulheres não ocupam lugares vazios – além de remover a invisibilidade que lhes foi imposta, foi (e continua sendo) preciso desarraigar algo ou alguém que ocupa este lugar, que muitas vezes é delas por direito.

Esta coluna é um dos produtos de um grupo composto por mulheres. Uma das perguntas que escutamos quando colegas (homens e mulheres) conhecem nosso grupo é: “Vocês não aceitam homens?” Sempre nos perguntamos se esses/as colegas chamariam de machistas os fundadores de várias ilustres sociedades científicas que surgiram na velha Europa, já que emergiram em jantares em clubes frequentados exclusivamente por homens. “Anacrônico!”, dirão. Sim, sem dúvida, hoje muitas dessas sociedades explicitam sua política de inclusão de cor, gênero, raça, religião, orientação sexual, etc. E podem realmente incluir a diversidade. Porém, ainda é preciso explicitar essa política. Politicamente correto – ou necessário?

Acreditamos que tão importante quanto apresentar os desafios de sermos mulheres no exercício de nossas profissões e as realizações já alcançadas, é reconhecer que existem situações fruto do machismo estrutural que ainda são percebidas como normais e mais, naturais de indivíduos por causa do gênero a que pertencem. Esse reconhecimento nos permite e nos estimula a um movimento à desnormalização e desnaturalização dessas situações. Por isso – e sem qualquer intenção de incitar a guerra entre os sexos – resolvemos partilhar alguns fatos e reflexões resultantes de experiências vividas por nós ou nos relatadas, como uma singela contribuição para essa desnaturalização. Aqui consideramos, como analisado por Helio Hintze (em “Desnaturalização do Machismo Estrutural na Sociedade Brasileira”, 2020), a naturalização como a legitimação da normalização do machismo estrutural. Na análise, usamos como referência o quadro teórico-conceitual das dimensões humanas sobre as situações classificadas por Taline Cristina da Silva e colaboradoras (2019) no artigo (em inglês) ‘The role of women in Brazilian ethnobiology: challenges and perspectives’ (O papel das mulheres brasileiras na etnobiologia: desafios e perspectivas) (Figura 1).

Como pensadoras e operacionalizadoras das dimensões humanas da natureza (DHN), envolvidas em trabalhos em campo com pesquisa social, docência, gestão de projetos e comunicação, optamos por “ocupar o lugar do rifle”, um rifle chamado “machismo”, mas que surge camuflado de “invisibilidade”, “preconceito”, “depreciação” e, nos piores casos, “abuso” ou “assédio”. Não se choque se fazemos isso sem pudor, porque a verdade é uma virtude e a liberdade um direito universal. Nossa premissa: a naturalização do machismo é sustentada pela sociedade patriarcal à qual pertencemos e a perpetuação desses discursos garante a manutenção da moral machista. No xaxado que é a vida, o rifle não tem lugar.

Situação 1 – Apropriação masculina.

Uma mulher, líder de pesquisa, está em trabalho de campo acompanhada de um homem (pesquisador, assistente, ou auxiliar de campo). O trabalho consiste em entrevistas e diálogos com a população local. O(a) entrevistado(a), por sua vez, se comunica somente com a figura masculina, ignorando a mulher ali presente, mesmo que inconscientemente.

Reflexão: Na grande maioria dos trabalhos de DHN, na qual a conservação da biodiversidade se alia às ciências sociais, entrevistas em campo são necessárias. Assim, é comum presenciarmos situações nas quais as normas sociais reconhecem apenas os homens como os detentores do conhecimento, da sabedoria, ou como líderes do grupo. Como agir sendo nós a figura feminina ali? Aceitamos e ignoramos ou chamamos a atenção para a nossa voz? O acompanhante percebe essa situação? O que ele faria? Ambos aceitariam esta postura como forma de respeito à cultura local ou em prol dos resultados a serem obtidos?

Situação 2 – Interrupção masculina. 

Imagine uma reunião entre pesquisadores de mesma expertise, onde a maioria do quadro é masculina, somente uma mulher na sala. Ela tenta explicar seu projeto e não consegue concluir a ideia, pois é constantemente interrompida por um homem que não aceita ou não confia na sua habilidade dentro do assunto proposto.

Reflexão: Este é um típico ato de machismo baseado em atitudes que se opõe à igualdade de gêneros desmerecendo a qualificação da mulher. Como homem, o que você faria perante esse tipo de comportamento? Interromperia o outro homem em favor da mulher? E como mulher, você aceitaria e desistiria do seu argumento ou contornaria a situação e tomaria o seu lugar de fala?

Situação 3 – Explicação masculina.

Quando em um evento com palestrantes homens e mulheres debatendo sobre algum assunto, uma mulher explica o objeto de estudo, mas para ficar “perfeito” um homem tem que terminar falando sobre o que recém foi dito. 

Reflexão: A percepção do homem de que a mulher não pode ter a última palavra é uma das manifestações mais sutis do machismo. A mulher deveria voltar a falar e iniciar um “cabo de guerra”? O(a) moderador(a) da mesa deveria interromper o discurso masculino ou expor o fato de que a mulher havia dito a mesma coisa?  

Situação 4 – Manipulação masculina.

Imagine uma situação de um trabalho de campo onde uma pesquisadora solicita apoio pela percepção de risco que tem do local para a sua segurança pessoal. O gestor(a) do trabalho questiona a necessidade real de atender a demanda, pois pensa ser um exagero ou um privilégio.

Reflexão: O gestor pensa que se ele mesmo não tem apoio, por que ela deveria ter? O que fazer? A mulher deve repensar e voltar atrás? Será que exagerou mesmo? Vai e arrisca a vida ou sua segurança porque os outros entendem que ela está exagerando? Como debater sobre esta necessidade?

Nós mulheres, carregamos as lutas, as histórias, as vitórias e as tantas derrotas de várias outras mulheres. E, por sentirmos, em maior ou menor grau, o machismo estrutural impregnado em nossas relações na sociedade, nossas escolhas e ações também são permeadas por esse conjunto de normas e valores. Muitas vezes adotamos posturas que não são autênticas de nossa personalidade, como palavras em tom mais suave ou um grito, para que possamos não somente ter voz, mas termos plateia. Dessa maneira, esse artigo foi pensado não só para trazer interrogações às pessoas sobre a naturalização de determinados comportamentos, mas também para acolher as pessoas que se reconhecem mulheres e a convidá-las, lembrá-las de ocupar seus lugares, ainda mais! Nosso olhar carregado de histórias, valores e sentimentos é o primeiro importante passo para a desnaturalização do machismo e construção de uma sociedade igualitária, justa, solidária e próspera. Afinal, invisibilidade não é páreo para a pluralidade.

Referências e recomendação de leitura

da Silva, T.C., de Medeiros, P.M., Hanazaki, N. et al. (2019). The role of women in Brazilian ethnobiology: challenges and perspectives. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 15: 44. https://doi.org/10.1186/s13002-019-0322-3

Hintze, Helio. (2020). Desnaturalização do Machismo Estrutural na Sociedade Brasileira. Série Estudos Reunidos, Vol. 82. Paco Editorial.

Negreiros, Adriana (2018). Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço. Ed. Objetiva, 262 p.

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3 comentários em “Invisibilidade não é páreo para a pluralidade”

  1. Seria interessante aprofundar a origem do machismo na nossa sociedade, a principal contribuição sendo provavelmente a atual edição da biblia realizada por Paulo de Tarso no seculo I. Sofrendo de distúrbios mentais o Paulo tinha um ódio profundo das mulheres com as quais eles não se relacionava. Porque a sociedade adotou com tanto entusiasmo essas doutrinas doentias é uma longa história que precisa ser apurada.

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