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Dimensões Humanas como parte do processo de decolonização nas ciências ambientais

Este mês abordamos as dimensões humanas envolvidas no processo de decolonização, ou seja, no processo de ‘quebrar’ a práxis enraizada por processos colonizadores onde a cosmovisão e práticas de um certo grupo são impostas a outro

28 de julho de 2021
  • DHN

    Grupo de Estudos e Pesquisa em Dimensões Humanas da Natureza

  • Wezddy Del Toro-Orozco

    Bióloga, Doutoranda na University of Georgia, Pesquisadora associada do Instituto Mamirauá, Bolsista da Wildlife Conservation Society (WCS), pesquisadora das dimensões humanas dos conflitos e coexistência com felinos na Amazônia.

  • Flávia de Campos Martins

    Bióloga, ecóloga e educadora, interessada nas Dimensões Humanas das relações com as aves do semiárido e com ecossistemas aquá...

  • Ana C. Pont

    Bióloga, educadora socioambiental e estudante de Dimensões Humanas da Natureza.

  • Ana Pérola Drulla Brandão

    Médica-veterinária, epidemiologista, pesquisadora na Faculdade de Medicina da USP, consultora técnica do Ministério da Saúde ...

  • Francine Schulz

    Bióloga, especialista em Perícia Auditoria e Gestão Ambiental, mestre em Engenharia Civil - Gestão de Resíduos.

  • Claudia S. G. Martins

    Pesquisadora nas temáticas desertificação em áreas rurais e vulnerabilidade aos conflitos humanos-fauna silvestre, no semiárido brasileiro.

Imaginem um mundo onde não somos categorizados e segregados de acordo com a cor da pele, religião, nacionalidade, orientação sexual, ideologia política, conta bancária… Um mundo onde não somos vistos como iguais (pois isso significaria excluir singularidades e a diversidade é o que faz este planeta tão especial), mas um mundo onde somos tratados com equidade. Com os mesmos direitos e oportunidades. Com voz ativa e oportunidade de sermos efetivamente ouvidos. Com autonomia. Com conhecimento.

Este mês abordamos as dimensões humanas envolvidas no processo de decolonização (ou decolonidade), ou seja, no processo de ‘quebrar’ a práxis enraizada por processos colonizadores onde a cosmovisão e práticas de um certo grupo são impostas a outro. Discutimos esse  tema urgente através de um olhar na área da conservação e das dimensões humanas. Será que todos os diferentes tipos de experiências, conhecimentos ou valores são ouvidos e respeitados?

O Brasil faz parte dos países colonizados e mesmo após quase 200 anos de independência, ainda podemos sentir a mão velada do colonialismo, que de forma bastante sutil e devastadora, perdura na conduta e na mente de muitos (mesmo que de forma inconsciente), privilegiando alguns e marginalizando outros. Claro que para os resquícios do colonialismo também existe o negacionismo. Assim, é uma situação presente e que se reflete em diversas esferas da sociedade, como na política, na magistratura e também na ciência.

A colonização nas ciências ambientais se mostra preponderantemente de duas formas: (1) quando pesquisadores de fora do local de interesse desenvolvem pesquisas, buscam soluções externas para os problemas daquele local e depois vão embora sem dar o devido retorno; nesse sentido, a  falta do convívio e da escuta, da interlocução, fazem com que esse pesquisador aja em conformidade com valores e normas que em muitas ocasiões se sobrepõem completamente aos valores e normas locais; e, (2) através da escolha dos métodos e das próprias percepções do pesquisador, já que somos permeados pelos nossos próprios valores e cultura que podem enviesar nossa vista para as relações interpessoais estabelecidas.

A colonização fez parte de nossa história (parece fazer parte da história da humanidade!), mas não precisa (e nem deve!) ser parte do nosso futuro. O processo de transformação de uma realidade que privilegia uns em detrimento de outros tem como primeiro passo “decolonizar a nossa mente”. Na Ecologia e em outras áreas relacionadas à conservação da natureza, tradicionalmente ocidentais em sua conceptualização e atuação, a decolonização das ciências ambientais também envolve: o conhecimento sociocultural, natural e histórico da área de estudo; a integração de conhecimento local, reestruturação das hierarquias de poder dentro e entre instituições (nacionais e internacionais); e a formação de equipes de trabalho diversificadas e multidisciplinares.

Para aguçar a mente e fomentar essa discussão, vejamos os seguintes exemplos:

  • Um pesquisador português em solo brasileiro diz: “Não lembro se esse documento que você precisa está no meu computador ou no disco externo. Assim que encontrar o tapete do rato e o rato, já confiro. Mudanças sempre nos fazem perder algumas coisas…” Os brasileiros não entendem muito bem o que foi dito. Segue-se uma risada geral e uns olhares de interrogação do que aquele português quis dizer, misturando ratos com documentos em computador. E o tal do disco externo, toca música fora da vitrola?
  • Era prática comum que príncipes e outros nobres de nações e tribos que capitulavam diante da potência dominante, não sendo mortos na batalha, mas levados ao cativeiro, terem seus nomes trocados por novos nomes, normalmente relacionados às divindades de seus novos soberanos. Assíria, Babilônia, Egito, são apenas alguns que tinham essa prática, como forma de apagamento da identidade, da cultura, das crenças, das normas, de quem agora era seu súdito, não por escolha, mas por sobrevivência (física, pelo menos) ao processo de conquista.
  • A mais recente gourmetização por chefs estrelados (ou não), nas capitais, de comidas que por gerações foram (e continuam sendo) cozinhadas em casa, em família, com a naturalidade de quem não precisa seguir receita para cozinhar, tem sido alvo de críticas e gerado polêmicas muito além das panelas. De repente, comer tanajura deixou de ser vergonhoso ou sinal de atraso. O tucupi e o pirarucu viajaram além das fronteiras amazônidas – segundo muitas vozes, apenas eles, como produtos, desarraigados de sua história e identidade cultural. Sob a bandeira de “valorizar” os ingredientes nativos e “resgatar” a verdadeira comida das Américas antes da chegada dos colonizadores, que ampliaram seu comércio mundial com novos produtos alimentares, sim, mas impuseram sua cultura alimentar ao expandir as fronteiras agrícolas com os produtos que conheciam e que desejavam tornar em mercadorias.

O que têm em comum os três exemplos – linguagem, identidade e comida? Relações  de poder (explícitas ou implícitas, violentas ou sutis) fundamentadas em dimensões humanas mais facilmente percebidas (ou desconfortavelmente percebidas) por quem está no lado subjugado da relação. Adotar anglicismo por conveniência e rapidez de comunicação (mouse, mouse pad, hard disk) é indolor e sem consequências aparentemente relevantes. Mas pode denotar um abandono (ou uma cedência) dos não anglófonos, caso queiram ser ouvidos pelos que gradativamente tornaram o seu idioma o mesmo das relações políticas e comerciais mundiais (poder). Mudar de nome em troca de continuar vivo (cedência), parece o menor dos problemas nessa situação, mas constituía um apagamento de uma série de outras dimensões sociais, culturais e políticas, no sentido da hegemonização (poder). Quanto à comida e à cultura alimentar, as avós amazônidas (e todos os que plantam, colhem, cozinham e comem há milênios ali), não precisam ser “resgatadas”, nem seus hábitos alimentares “valorizados”, mas “reconhecidos” e “respeitados”, com base em uma lógica de reciprocidade em meio à legitimidade de sua liberdade, que não depende de ser-lhe dada por ninguém.

Analogamente, nas disciplinas relacionadas à conservação, quando uma pesquisa social, por exemplo, é questionada porque não segue os protocolos ocidentais, ou porque as questões de pesquisa seguem uma racionalidade não convencional às ciências naturais, ou ainda o formato do questionário ou a forma de aplicar o questionário desviam-se do padrão das publicações relevantes da temática – será que é o momento de quem questiona refletir sobre seus próprios conceitos de produzir conhecimento e não “importar/exportar” conhecimento?

Idealmente, manejos, práticas e intervenções visando a conservação devem ser delineados e decididos pelo maior número possível de indivíduos e grupos de interesse, para aumentar a probabilidade de sucesso do resultado que se espera. As ciências naturais e sociais precisam trabalhar juntas, já que não temos mais tempo para continuar documentando o desaparecimento de espécies nem de modos de vida. Não tem como falar em conservação sem falar em pessoas. E uma vez que falamos em pessoas, temos que contemplar todos esses aspectos não-opressores de pensamentos e ações, para não continuar perpetuando a colonização. O preço da liberdade é o preço da reciprocidade. Precisamos reconhecer os direitos e as reivindicações dos outros se quisermos ter direitos e reivindicações próprias.

Diante destas reflexões, e para iniciarmos o processo de decolonização das ciências ambientais, que como pesquisadoras de Dimensões Humanas da Natureza vemos como essenciais para incorporar em nossas práticas na busca por equidade, citamos aqui a lógica de Trisos e colaboradores 2021 que apontam cinco formas de iniciar essa mudança de paradigma:

Decolonize sua mente. É um consenso dentro da academia que as melhores revistas científicas são aquelas com melhor ‘qualis’ (sistema brasileiro de avaliação de periódicos), que utilizam a língua inglesa e sua tiragem atinge um público internacional (e por que não dizer a elite da ciência?). Devemos lembrar que quando se faz ciência, os resultados devem voltar para a sociedade e para outros colegas pesquisadores. Não seria o caso de começarmos a ignorar o status social da revista e dar mais ênfase ao público das pesquisas? Precisamos garantir a criação de mecanismos que facilitem tanto o acesso à informação científica por pessoas não familiarizadas com uma língua estrangeira (principalmente o inglês) ou sem acesso aos bancos de artigos científicos, pensando também em formas não textuais de publicação de e para as comunidades envolvidas nos estudos (e. g. publicações de base comunitária). Precisamos nos lembrar do porquê fazemos ciência: para aumentar conhecimento, instigar novas perguntas, fazer descobertas, melhorar nossa vida em sociedade e nossas relações com o mundo que nos cerca.

Conheça as histórias locais, escute, e promova trabalhos colaborativos. Muitas vezes o pesquisador chega na área de estudo já com um planejamento detalhado do que fazer, sem se preocupar em ouvir e/ou entender a história local, sem adequar os métodos àquela realidade, sem nem considerar o quanto e de quantas formas ele próprio impacta o local. Não escutar as pessoas que vivem no ambiente e acreditar em uma fórmula pronta para resolver diferentes situações é contribuir para o abismo que o colonialismo gera e é uma forma de agressão às pessoas que ali vivem. Reconhecer os saberes locais e considerar a comunidade como agente integrante da pesquisa (sujeito) e não como um mero informante (objeto) é fundamental para criar relações empáticas, respeitosas, comprometidas com o bem comum e solidárias.

Decolonize o acesso. É dito que os melhores museus e bancos de dados científicos, assim como financiadores e centros de pesquisa estão localizados em países ricos. Mas muitas das coletas que suportam estes acervos foram realizadas em países onde o acesso ao conhecimento, à tecnologia e à inovação são limitados ou nulos. A falta de acesso aos financiamentos (ou chamadas disponíveis em idiomas que não são dominados por quem poderia elaborar uma proposta de impacto, ou disponibilizadas com pouco tempo até à submissão, ou ainda chamadas complexas, que demandam coletar e organizar documentos de vários grupos ou instituições que enfrentam obstáculos diários à comunicação, tão simples quanto falta de energia ou de uma boa conexão de internet… e por aí vai!) e mesmo à internet de qualidade em áreas de coleta de dados, é capaz de inviabilizar grandes iniciativas e soluções, por isso a parceria se faz necessária. Mas esta parceria deve ser recíproca. Deve sempre haver um intercâmbio honesto e transparente de conhecimento e oportunidades.

Decolonize conhecimentos. Quando olhamos a formação de corpos diretivos, financiadores de pesquisa, palestrantes, pesquisadores renomados, vemos sempre os mesmos estereótipos. Na sua maioria homens, brancos, héteros, cis gênero. Por isso, temos que construir grupos de pesquisa não excludentes, que aceitem corpos e mentes diferenciadas, quebrando a lógica estereotipada do pesquisador.

Pratique a ciência de forma justa e inclusiva. Temos que olhar para dentro dos nossos laboratórios e institutos e incluir maior representatividade, pois diferentes pontos de vista tendem a melhorar os resultados, ainda que operacionalizá-los possa romper com algumas dinâmicas e confortos.É importante que cada um de nós, que fazemos ciência, tenhamos consciência do nosso privilégio, seja ele qual for, e busquemos em nossas ações incluir,  e fazermos ecoar a voz daqueles que possuem menos privilégios que nós. Afinal, uma ciência que busca a conservação, a coexistência entre espécies, saberes, ecossistemas, precisa ser baseada na diversidade, no respeito, no diálogo, na troca.

Sem praticarmos estes princípios não trabalhamos a multiplicidade de saberes e dizeres, e acabamos por colonizar mundos, de novo.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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Comentários 2

  1. Paulo diz:

  2. SANDRO BENEDITO SGUAREZI diz:

    Excelente a reflexão. Vamos DECOLONIZAR a ciência para decolonizar a sociedade? Ou decolonizar a sociedade para decolonizar a ciência? A tarefa é árdua, mas a saída é a dialogar de forma horizontal e construir vias que nos permitam, nos transformar primeiro. Nossa transformação, vai transformar o outro!