A caça no Brasil, seus dogmas e tabus: uma réplica a Borges e colaboradores
Chiara Bragagnolo, João Campos e Silva, Felipe Vieira, Enrico Bernard e RedeFauna
Chiara é integrante do Laboratório de Conservação no Século 21 (LACOS21-UFAL). Campos e Silva é pesquisador associado ao programa Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos (Dibict/UFAL), Felipe é doutorando do Dibict/UFAL e Enrico é professor da UFPE

A caça no Brasil, seus dogmas e tabus: uma réplica a Borges e colaboradores

Chiara Bragagnolo*, João Campos e Silva**, Felipe Vieira***, Enrico Bernard****, RedeFauna*****
terça-feira, 27 agosto 2019 10:28
Foto: Pixabay.

O artigo intitulado A que interesses servem os defensores da caça no Brasil? publicado em O Eco no dia 4 de agosto de 2019, de autoria de Roberto Cabral Borges, Mauricio da Cruz Forlani, Dimas Marques e Paulo Aparecido Pizzi, ambiciona oferecer uma leitura criteriosa do conteúdo do artigo O que fazer com a caça no Brasil?, de autoria de Chiara Bragagnolo, João Vitor Campos-Silva e Felipe Vieira, também publicado por O Eco em 15 de julho de 2019. Primeiramente, gostaríamos de salientar que todas as críticas que nos ajudam a avançar, sobretudo em um tema tão complexo e multifacetário como a caça, são muito bem-vindas. Acreditamos que o debate é necessário e extremamente salutar, portanto agradecemos aos autores pela oportunidade desta réplica, pois temos a consciência de que a caça é um assunto complexo, que frequentemente motiva manifestações com forte cunho passional, mas que deve ser analisado pelas lentes do debate transparente e pautado em informações científicas, livres de qualquer obscurantismo e sensacionalismo.

Antes de tudo, é importante dizer que lamentamos que os autores tenham visto em nosso artigo uma argumentação pró-caça (e pró-caça furtiva) que possa ser usada para justificar as iniciativas do governo atual para liberar a atividade e afrouxar as leis ambientais. Se esta foi a leitura dos autores, houve uma falha de interpretação sobre nosso texto e sobre a argumentação nele apresentada.

Como cientistas, entendemos o uso dos recursos naturais como uma atividade que pode ser praticada de forma sustentável ou não. Pode gerar benefícios ou consequências negativas, dependendo de como é gerida e exercitada. Assim, a caça pode servir para diferentes fins e pode ter vários impactos, quando não for uma atividade controlada. A caça de subsistência, por exemplo, foi uma atividade fundamental no processo evolutivo biológico e sociocultural do ser humano, e até hoje desempenha um papel central em diferentes culturas. Portanto, não nos cabe discutir unilateralmente o pressuposto da necessidade da existência da caça, pois para fazer isso de forma honesta teríamos que acrescentar outros pontos de vista na discussão, incluindo aqueles de representantes dos povos que têm na caça um pilar de sua existência. O fato é que a caça, mesmo ainda não estando devidamente regulamentada em todo o país, é praticada em vários cantos do Brasil, na América do Sul e em outros continentes. Ignorar esta realidade é, ao nosso ver, iniciar uma discussão de forma equivocada. Diante disso, propomos uma discussão técnica sob a luz da persistência e conservação das espécies, segurança e soberania alimentar e tutelada cultura de parte da população brasileira, especialmente os povos indígenas e as comunidades tradicionais, que perpetuam esta atividade como prática ancestral. Certos de que não haverá uma resolução única e simples para um problema tão complexo, escrevemos nosso artigo na tentativa de estabelecer um diálogo sobre a caça entre diferentes públicos e a partir da evidência científica que a mera proibição ou não regulamentação da caça não tem sido efetiva em muitas localidades. Poderíamos “tapar o sol com a peneira” e fingir que não se caça no Brasil, mas nossa intenção é discutir este assunto considerando que a caça, em suas diversas modalidades, existe e é difusa. A partir desta evidência, trazemos como base para o debate diferentes estudos científicos que já foram conduzidos no país sobre esse tema, nas mais diversas áreas, como a biologia, antropologia e veterinária.

“O fato é que a caça, mesmo ainda não estando devidamente regulamentada em todo o país, é praticada em vários cantos do Brasil, na América do Sul e em outros continentes.”

Um ponto que nos chama atenção no artigo de Borges e colaboradores é que, ao que nos parece, os autores não se preocuparam em “beber” da fonte original que embasa nosso artigo de divulgação no O Eco. Trata-se de nossa publicação científica intitulada “Hunting in Brazil: what are the options?” publicada na revista Perspectives in Ecology and Conservation (PECON). Nosso artigo em O Eco tinha como principal objetivo a divulgação em português do artigo da PECON e, embora de forma bastante resumida e simplificada, não deixa de ter o mesmo propósito: fomentar a discussão sobre a complexa questão da caça no Brasil.

Acreditamos que qualquer crítica construtiva da matéria O que fazer com a caça no Brasil?, deveria, antes de tudo, ter sido acompanhada por uma leitura atenta do artigo científico que inspirou tal conteúdo. Chamamos a atenção para esse ponto, pois os autores fizeram constantes recortes estratégicos em nosso texto, utilizando frases fora de contexto para defender suas opiniões, sem que o significado integral da publicação pudesse ser refletido. Ao longo de seu artigo, os autores tentam nos classificar como defensores da liberação da caça no país, nos equiparando com os autores dos projetos de lei atualmente em curso no congresso (Valdir Colatto, Rogério Peninha Mendonça e Onyx Lorenzoni). Esse talvez seja o ponto que nos causou maior surpresa, pois se os autores quisessem realmente saber quais interesses nos guiam, eles teriam feito uma leitura cuidadosa de nosso artigo original e também teriam acessado artigos prévios, onde fazemos duras críticas às propostas governamentais atuais de “liberação da caça” (vejam, por exemplo: Campos-Silva et al. 2017; Pezzuti et al. 2018; Campos-Silva et al. 2018a; Antunes et al. 2019). Com a preocupação de se aprofundar em nossas ideias, eles saberiam que o interesse que nos guia é o reconhecimento de que a caça é um fato – da maior importância para muitos brasileiros – e que não será por meio de um caminho simplista que poderemos contemplar a heterogeneidade ecológica e sociocultural de um país com as dimensões continentais do Brasil.

Do uso da palavra manejo, os autores derivam a suposta “parcialidade favorável à caça”, ignorando que a caça praticada de forma controlada e sustentável, é uma das formas legalizadas de manejo da fauna silvestre adotada em diversos países e, no caso das espécies invasoras, também no Brasil. De forma enganada, eles afirmam que a declaração de que a existência de dados científicos seja a conditio sine que non para o manejo da fauna silvestre (e acrescentamos, de qualquer outro recurso natural) seja equivalente a admitir a caça como algo “que não mais se discute”. Na verdade, o artigo científico “Hunting in Brazil: what are the options?” surgiu justamente a partir da constatação de que a caça ilegal é tão difundida no Brasil que seria hipocrisia negá-la. Frente a esta realidade, defendemos que há uma extrema necessidade de discutir e debater o tema dentro e fora das paredes das universidades, superando a polarização entre ‘caça sim’/‘caça não’, e propondo abordagens para cada realidade e contexto no amplo território brasileiro. Essa questão vem sendo debatida em várias partes do mundo (van Vliet, 2018), onde pesquisadores argumentam que a conservação de algumas espécies pode ser mais viável dentro do cenário do uso. É o caso do debate “Use it or lose it” (“use-o ou perca-o”, em tradução literal). Muito diferente do que preconiza Borges e colaboradores, há exemplos de casos bem-sucedidos pelo mundo, onde a conservação das espécies é dependente de seu uso e manejo (vejam o livro de Freese, 1997 intitulado Harvesting Wild Species: Implications for Biodiversity Conservation, por exemplo). Há também casos na Amazônia brasileira onde o manejo comunitário vem sendo responsável pela recuperação populacional de pirarucus e tartarugas da Amazônia, duas espécies com uso milenar na cultura local que chegaram à beira da extinção em algumas localidades devido à pesca e caça predatórias para comercialização, e que foram recuperadas, em função de sua importância cultural, através de iniciativas de uso sustentável (Castello et al. 2009; Campos-Silva & Peres, 2016; Campos-Silva et al. 2018b). Ignorar esses exemplos é fechar os olhos para possibilidades concretas de integrar a conservação da biodiversidade com as práticas ancestrais e as demandas de grupos sociais cujos valores são frequentemente declinados pela sociedade moderna e negligenciados pelas políticas públicas, sobretudo de cunho ambiental.

As carcaças de jacarés e as armas apreendidas no Pantanal. Foto: Divulgação PMA-MS/Arquivo.

Ao dizer que nosso artigo contém “imprecisões legais”, os autores não consideram que o contexto legal brasileiro dificulta a compreensão das diferentes formas de caça (furtiva, comercial, de controle, científica, esportiva e a de subsistência), por não haver definições claras. Além disso, ao tratarmos do tema da caça de subsistência, tanto no O Eco, quanto na publicação científica na PECON, referimo-nos, em geral, ao arcabouço legislativo brasileiro e não especificamente à Lei de Proteção da Fauna (Lei 5.197/1967). Os próprios autores que nos criticaram mencionam que a definição de “caçador de subsistência” aparece na Lei nº 10.826/03 (Estatuto do Desarmamento) e que a caça em “estado de necessidade” não é crime segundo o artigo 37 da Lei nº 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais). Ao afirmar, de forma taxativa, que a caça é ilegal no Brasil, os autores apresentam uma leitura incompleta da legislação sobre o tema, desconsiderando os direitos de povos e comunidades tradicionais, estabelecidos pelo Estatuto do Índio, pela Convenção 169 da OIT e pelo Decreto 6.040/2007, que estabelece uma política nacional para as populações tradicionais brasileiras. Também ignoram que a Lei 5.197/1967 consiste numa política de manejo de fauna, que não saiu do papel por falta de regulamentação. Sobre isto, recomendamos a leitura das revisões apresentadas por Pezzuti et al. (2018) e Antunes et al. (2019).

Cientes da indefinição de termos que caracterizam o contexto legal (“estado de necessidade”, “caçador de subsistência”, entre outros) e da subjetividade que distingue sua interpretação (“a necessidade justifica a caça de subsistência?”), nossos artigos sugerem, em primeiro lugar, que seja esclarecido “quem é que pode caçar por subsistência e/ou por necessidade” e que sejam estabelecidos critérios não contraditórios para superar a subjetividade nas definições e interpretações dos termos. É paradoxal (e até certo ponto, desconectado da realidade cultural de comunidades tradicionais) afirmar que “[…] para essas pessoas em estado de necessidade, a ação deve ser estatal com o objetivo da não permanência delas nas condições precárias que tornaram imperativa a busca do alimento no ambiente natural como solução de seus problemas” (Borges e colaboradores; parágrafo 11) sem proporcionar nenhum tipo de solução prática para reverter esta realidade. Esse argumento também se torna substancialmente superficial por desconsiderar, por exemplo, a importância fundamental da atividade da caça como prática que estrutura diversos sistemas cosmológicos, identitários e sociais em grupos humanos na Pan-Amazônia (vejam, por exemplo: Chaumeil 1995; Rival 2001; Zent 2005; Belaunde, 2008, assim como outros exemplos ao redor do mundo: Valeri 1994; Hamayon 1998; Hell 2001; Santos-Fita et al. 2015).

“Nosso propósito sempre foi fomentar o debate sobre um fenômeno difuso no Brasil (a caça), que geralmente é abordado somente de forma polarizada, onde todos os tipos de caça são inseridos no mesmo balaio.”

Ao nosso ver, identificamos ainda no texto que nos critica argumentos tendenciosos que não consideram os princípios que guiaram nosso trabalho científico e sua divulgação em O Eco. Ao afirmarem que “[…] fica muito vaga no texto publicado em O Eco a afirmação sobre existir uma relação benéfica da caça esportiva para a avaliação da dinâmica populacional de espécies – aqui vale ressaltar que estudos de dinâmica populacional exigem amostragens sistêmicas, contagem de indivíduos e análises espaciais. Tais dados não são expressos nem apresentados pelos autores. Hoje já existem ferramentas de fácil acesso – ciência cidadã – que permitem o registro de dezenas de animais da fauna brasileira sem a menor necessidade de caça. Se fôssemos relacionar uma atividade de lazer a bons dados de conservação, poderíamos citar o birdwatching, ou, em português, “observação de aves” que apresenta dados consistentes em escala nacional no Wikiaves” (Borges e colaboradores; parágrafo 20), achamos que o objetivo do trabalho original não foi entendido ou que, na pior das hipóteses, pode ter sido voluntariamente distorcido. Nosso propósito sempre foi fomentar o debate sobre um fenômeno difuso no Brasil (a caça), que geralmente é abordado somente de forma polarizada, onde todos os tipos de caça são inseridos no mesmo balaio. O fato de a maioria dos tipos de caça ser ilegal (caça em contexto não regulamentado) contribui para uma situação em que os dados sobre as dinâmicas populacionais das espécies (assim como dos caçadores) e as tendências espaço-temporais do fenômeno sejam escassos e insuficientes para estimar o real tamanho da ameaça desta atividade sobre os ecossistemas. A simples pergunta “O quê e quanto é caçado no Brasil?” não tem uma resposta confiável. Entendemos que mesmo abordagens como a ciência cidadã, se não envolverem a participação de atores que exercem a atividade de caça, não podem cobrir essa lacuna, especialmente considerando que muitas das espécies alvos da atividade são de difícil observação na natureza. Para tal, seriam necessários estudos, recursos humanos e financeiros que, devido à atual conjuntura política do país, estão longe de serem alcançados. Há vários bons exemplos no Brasil mostrando como o monitoramento participativo da caça de subsistência, por exemplo, pode contribuir com a geração de conhecimento biológico e ecológico das espécies (vejam, por exemplo: Vieira et al. 2015; El Bizriet al. 2018, 2019) e para o manejo e conservação das espécies caçadas (Constantino et al. 2008; Constantino et al. 2012).

Os autores (Borges e colaboradores) seguem sua linha de raciocínio argumentando que:

    1. A questão da caça relacionada a tradições culinárias e culturais é real. Mas essa situação pode e deve ser vencida com educação ambiental e ações de fiscalização do Estado (parágrafo 13).
    2. Também se deve estabelecer campanhas educativas de forma a informar à população sobre os problemas relacionados à floresta vazia e à importância do controle social (parágrafo 25).
    3. Mudanças sociais não são apenas possíveis, mas desejadas quando a meta é o abandono de comportamento indesejado ou reprovado eticamente. No artigo dos citados autores, de forma recorrente, relatam que a situação é complexa e compartilhamos desta percepção (parágrafo 35).

A primeira parte do nosso artigo científico na PECON analisa os possíveis fatores que levam um indivíduo a caçar e, no caso do Brasil, a violar a lei. A abordagem utilizada foi baseada na psicologia da conservação, que pretende entender quais motivações levam as pessoas a agir ilegalmente ou de forma antiética e, a partir desse conhecimento, elaborar programas e campanhas educativas para mudar comportamentos sociais, no contexto onde essa estratégia fizer sentido. Fomentar a mudança social através da criação de campanhas públicas que detenham a caça comercial e predatória, por exemplo, foi a mais ambiciosa das nossas sugestões. Porém, mesmo que tal argumentação faça sentido em alguns lugares, há também locais onde ela não se sustenta. Não podemos negligenciar que em muitos locais, como em territórios de povos indígenas e de outros grupos tradicionais ao redor do mundo, a caça vem ocorrendo de forma milenar, sem efeitos drásticos nas populações de animais selvagens. Entender como e porquê isso ocorre em determinados locais e não em outros é um enorme desafio científico. No entanto, seu entendimento pode acarretar oportunidades importantes para a conservação da fauna. A sugestão de que a situação “da caça relacionada a tradições culinárias e culturais […] pode e deve ser vencida […]” (parágrafo 13), reflete uma visão colonialista de conservação, em que os hábitos locais devem ser mudados a partir de uma ética alienígena em completo desrespeito às culturas originárias.

    1. A questão ética, usualmente desprezada pelos caçadores [esportivos] e mesmo por eles ridicularizada, é uma faceta importante a ser abordada. Deve-se considerar a relevância de matar um animal por prazer quando o interesse deste animal é continuar vivo. […](parágrafo 22)

A questão ética é cuidadosamente abordada em nosso artigo científico na PECON. Especificamente, nós questionamos se a caça esportiva deve ser aceita como prática de conservação e sugerimos que, em caso de regulamentação, sejam desenvolvidos códigos éticos de caça para o caçador e para atender as preocupações dos que não caçam.

    1. Na verdade, é necessária uma alteração comportamental da sociedade e do poder público de forma a não olvidar da proteção à fauna e nem transferir a ela uma responsabilidade social. […] (parágrafo 24).

Ao propor mecanismos a serem primeiramente testados em áreas/projetos pilotos (ex. RESEX, ou Reservas de Fauna) adotamos o princípio de prevenção que prediz que, na ausência de dados científicos suficientes, os impactos de uma ação sejam avaliados antes da ação ser executada. Dessa forma, estamos sugerindo que o poder público atue de forma estratégica e preventiva, evitando que as consequências negativas recaiam sobre a coletividade (neste caso, a perda da biodiversidade).

    1. A proposta de que a caça de subsistência na Amazônia pode favorecer o monitoramento e vigilância do território desconsidera que atualmente este monitoramento é executado via satélite com tecnologia suficiente para detectar alterações da cobertura florestal. Então, a proposta é intempestiva e inócua (parágrafo 26).

Ao classificar tal proposta como “intempestiva e inócua”, os autores parecem demonstrar pouca intimidade com a realidade amazônica. Primeiro, o controle territorial da Amazônia é essencial, sobretudo nesse momento de retrocessos nas políticas ambientais no Brasil. Em nosso entendimento, grupos residentes, indígenas ou não, podem exercer um controle territorial e social efetivo dentro desses territórios. A presença humana que ocupa e usa o território de forma sustentável vigia e limita a ocorrência de grilagem de terras, desmatamento e ocupação ilegal, agronegócio, garimpo ilegal, entre outras ameaças. Tal presença é uma das mais eficientes ferramentas na proteção territorial. Também demonstram pouca intimidade com análises de imagens de satélite: a “floresta vazia”, como citam os autores (vejam no parágrafo 25), não é possível de ser detectada com métodos geo-espaciais, pois do alto do espaço pode ser observada a cobertura florestal, mas não sua riqueza em termos de fauna. Um arranjo de manejo comunitário eficiente e bem trabalhado, por outro lado, pode assegurar áreas de não uso, através do zoneamento, permitindo que porções da floresta e seus animais sejam temporária ou permanentemente protegidos, como na lógica fonte-sumidouro. Novamente, há casos de sucesso que comprovam o efeito benéfico das comunidades locais na manutenção de florestas, sistemas aquáticos e nos animais que vivem nesses ambientes (vejam, por exemplo: Castello et al. 2009; Campos-Silva et al. 2018b; Schleicher et al.2019).

    1. Desta forma, antes de se pensar em explorar a biodiversidade com a prática da caça, que sempre vai gerar perdas, deveríamos estar nos concentrando em ampliar as atividades positivas de turismo, que já demonstram seu enorme retorno econômico e conservacionista (parágrafo 27)

Certamente o turismo pode ser uma alternativa viável para promover a conservação em alguns contextos. No entanto, o turismo não deve ser apontado como solução dourada sempre. Muitas publicações científicas, assim como vários indicadores socioeconômicos mostram os impactos controversos do turismo associado à conservação, despontando claramente sua contribuição para o incremento da segregação social, distribuição desigual das rendas e dos benefícios associados a essa atividade econômica (vejam, por exemplo: Duffy 2008; Fletcher  & Neves 2012; Gardner 2016). Em um país como o Brasil, que combina enorme biodiversidade com grande desigualdade social, as consequências do desenvolvimento de atividades turísticas devem ser ponderadas e avaliadas com cautela e de acordo com as caraterísticas contextuais de cada lugar.

    1. Os autores também argumentam que o incentivo à criação em cativeiro para algumas espécies pode contribuir para reduzir a demanda por aves capturadas ilegalmente. A proposta, porém, não é compatível com os dados atuais (parágrafo 30).

O nosso artigo não deixa de listar claramente os riscos relacionados com essa prática, mencionando que a criação em cativeiro requer um nível de expertise técnica e administrativa que pode demandar anos para poder gerar renda suficiente. Além disso, alertamos que, neste cenário, a competição com o mercado ilegal pode crescer e gerar o aumento do tráfico de animais silvestres.

Diante de todas essas considerações, acreditamos que seja completamente infundado termos sido identificados como indivíduos indiscriminadamente a favor da caça e, pior ainda, como sujeitos que servem aos defensores da caça na Câmara e no Senado. Essa insinuação é, para nós, ofensiva. Também não aceitamos a falsa acusação de estarmos fomentando a caça indistintamente e de usar as palavras de forma a plagiar seus conteúdos, como é o caso de “manejo” e de “caça furtiva”. Em diferentes momentos de ambos os artigos por nós assinados alertamos sobre o risco da regulamentação da caça sob um cenário de escassa capacidade institucional para fiscalização, monitoramento e manejo da fauna (que não significa caça!), devido à falta de recursos humanos e financeiros, e ao risco de corrupção dos órgãos ambientais e governamentais.

Nosso objetivo foi e continua sendo o de levantar questões-chave e discutir criticamente soluções e mecanismos de conservação e gestão da biodiversidade que necessariamente deverão ser cuidadosamente estudados, testados, avaliados, monitorados e implementados em áreas e/ou projetos pilotos para lidar de forma integrada com a caça, com as populações usuárias da fauna e seus impactos no ambiente. Não temos uma solução mágica, mas nos propomos a discutir e tentar, e o processo de experimentação frequentemente inclui o aprendizado com erros.

Operação combate caça ilegal no Parque Nacional da Serra da Bocaina, em agosto de 2017. Foto: ICMBio.

Nesta réplica, trazemos inclusive o apoio da RedeFauna (Rede de Pesquisas para Estudos sobre Diversidade, Conservação e Uso da Fauna na Amazônia), um coletivo formado por pesquisadores, gestores ambientais e conservacionistas de diferentes áreas e que atuam em diversas regiões do Brasil, para pensar a caça em sua complexidade e de forma contextualizada. A RedeFauna assina esta réplica conosco. Sugerimos mecanismos e não soluções definitivas que pretendem ser a panaceia para resolver a problemática da caça ilegal no Brasil. As ideias abrangem desde a regulamentação de alguns tipos de caça (p. ex. a caça de subsistência) até a adoção de políticas públicas e programas educativos que possam desencorajar os sujeitos a caçar e adotar comportamentos ilegais. Contudo, reforçamos inúmeras vezes que, devido ao tamanho continental do Brasil e à sua diversidade biocultural, não existem modelos e soluções que possam ser adotados indistintamente e sem uma prévia implementação em áreas ou projetos pilotos. Por isso sugerimos que qualquer proposta que pretenda revogar ou alterar a atual Lei de Proteção à Fauna (Lei 5.197/67), como os diversos Projetos de Lei (PL) que estão atualmente em tramitação no congresso, deverá ser necessariamente respaldada por uma base científica robusta, um amplo consenso público e uma adequada capacidade institucional que responda às necessidades de pesquisa, monitoramento e fiscalização. Na ausência destes elementos, a pressão da caça ilegal sobre as espécies continuará de forma descontrolada em todos os biomas brasileiros.

Por fim, respeitosamente convidamos os autores da crítica a responderem ao nosso artigo na revista PECON, pois acreditamos que seja uma ótima oportunidade de contribuir para o avanço da complexa discussão sobre a caça no Brasil e no mundo.

Integrantes da RedeFauna
André P. Antunes, Carlos Durigan, Carlos Frederico Alves de Vasconcelos Neto, Daniely Félix-Silva, Dayse S. S. Ferreira, Dídac Santos-Fita, George Henrique Rebelo, HanielBizri, João Vitor Campos-Silva, João Valsecchi, Juarez Pezzuti, LísleyPereira Lemos Nogueira Gomes, Marina A. R. M. Vieira, Marcela Alvares Oliveira, Natália Pimenta, Pedro de Araújo Lima Constantino, Tiago Juruá Damo Ranzi, Rogério Fonseca, RossanoMarchetti Ramos.

Referências

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7 comentários em “A caça no Brasil, seus dogmas e tabus: uma réplica a Borges e colaboradores”

  1. Uma correção aos autores: mudar ou regulamentar a legislação para permitir o manejo de fauna não é afrouxar leis ambientais, nunca foi. É dar lugar à razão e às evidências em todo o mundo.

  2. Além dos muitos aspectos considerados aqui, vale acrescentar que a caça pode garantir a floresta em pé (e toda a biodiversidade que ela contém). Para populações tradicionais, o valor da carne de caça é insubstituível (Nunes et al. 2019; Biological Conservation 236:171-179). A mesma lógica pode ser aplicada no caso de caçadores esportivos, e mesmo o turismo de caça, agregando valor às áreas naturais. O maior vilão da conservação é o desmatamento para expansão agrícola (e venda de madeira), que dizima milhares de hectares de áreas naturais e toda a fauna contida nelas. O valor da caça pode fazer frente a isso, e justificar a manutenção de florestas. Caçadores (e potenciais exploradores de atividade de caça) serão os principais interessados em manter populações viáveis das espécies caçadas, e podem ser atores fundamentais da conservação (inclusive investindo recursos para isso). Precisamos derrubar esse paradigma da simples proibição da caça como forma de conservação!

    • Exatamente, Erich. O recurso natural só se mantem se tiver valor econômico. Hoje no Brasil a floresta vale mais deitada do que em pé, evidentemente.

      Basta se observar que em TODOS os países de primeiro mundo hoje (sem exceções) a caça amadora esportiva regulamentada é estimulada e considerada uma das principais formas de proteção à fauna, flora e meio ambiente.

  3. Bom dia a todos.
    Lendo tudo,esmiuçando aqui, ali, formalizando dezenas e dezenas de argumentos e por aí vai…

    Mas sinceramente, srs e sras, o indivíduo ter prazer em matar, sem necessidade como fonte de alimento, algum problema psíquico, este indivíduo tem. Prazer em matar, hoje no século 21, em 2019. Me desculpem , mas tem problema mental.

    Abraços

    • suas convicções pessoais e sociais não podem ser superior a diversidade da ação humana e suas atividades, se considerar superior e achar psicologicamente superior só porque não caça e é contra esta atividade humana só entristece o debate e provoca perdas significativas nas oportunidades sustentáveis de uso das áreas naturais e biodiversidade, a favor ou contra temos que ser realistas o problema principal é como conservar nossos biomas sem destruir ou provocar grandes mudanças estruturais … gerar empregos, renda, turismo, comercio, gastronomia, fiscalização, pesquisa … apesar de muitos virarem a cara contra a regulamentação e uso da caça, ela tem mostrado em todo o mundo uma excelente ferramenta em conjunto com muitas outras de fonte de conservação e recuperação da biodiversidade .. Antes a caça do nosso lado regulamentada e controlada do que do outro furtiva, sem controle, predatória, sem renda sem preservação …. Caça regulamentada trara mais vida, mais recursos, mais empregos, mais fiscalização, mais comercio, mais turismo do que morte e destruição da vida natural…..

      • "suas convicções pessoais", vem da área da saúde.
        Quem já entrou em aviários(produção de pintos, produção de ovos, galpão, abatedouros), granja de suínos(vá nas maternidades, ver as gaiolas parideiras), confinamentos de bovinos (muitos, muitos sem sombra), abatedouros diversos,.Sabe que a morte deve vir rápida e na certeza da necessidade.
        Como também vivo na área da saúde, onde observamos a vigilância de tudo e inclusive os psicóticos e demais transtornos.
        Reafirmo , prazer em matar não é normal.

        Estudem também e vejam a zoologia, etologia , biologia da conservação e demais. E saberão o quanto estas espécie lutam para se manter em seu habitat, com todo tipo de adversidade (falta de comida, endogamia, fogo criminoso, predadores,etc, etc)

        Não precisam receber chumbo quente de alguém que "se acha" no direito de fazer por fazer. Ajudados por faros de caninos domésticos e armas de precisão e grande poder de fogo, sendo muito desigual esta relação. Já é muito dificil se manter, com tudo que existe. Aí vem o Homem (senhor de tudo), dizer que eu adoro a natureza (na mira de uma arma e no cano quente da mesma)
        Inté

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