Colunas

A pauta climática e suas negociações precisam ser sobre as pessoas

O que esperar da COP26 e por que a presença da sociedade civil neste espaço pode ser mais importante do que nunca

30 de agosto de 2021
  • Engajamundo

    Acreditamos que se mudarmos a nós mesmos, o nosso entorno e nos engajarmos politicamente, podemos transformar as nossas realidades

  • Giselli Cavalcanti

    Ativista climática, psicóloga ambiental e mobilizadora de campanhas na defesa de causas socioambientais.

  • Isvilaine da Silva Conceição

    Isvilaine da Silva Conceição é ativista por justiça Climática, Racial e de Gênero. Formada em Engenharia ambiental pelo Centro Universitário de Volta Redonda.

  • Paulo Ricardo de Brito Santos

    Bacharelando em Energia e Sustentabilidade, Coordenador do grupo de trabalho sobre Mudanças Climáticas no Engajamundo e Campaigner.

O cenário global passa atualmente por vários momentos extremos da nossa história. No campo socioambiental, não só o contexto político é turbulento – várias partes do planeta estão vivenciando eventos extremos que parecem se tornar cada vez mais frequentes. 

Que a crise climática é um dos maiores desafios que precisamos lidar atualmente, nós já sabemos – e o recente relatório do IPCC reforça esta urgência com uma mensagem mais clara: agir é urgente. Neste cenário de urgência, se aproxima um dos momentos mais importantes no cenário mundial para clamarmos por ambição climática, a COP26. Faltam poucos dias para a realização desta Conferência – a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – e são muitas as expectativas para este momento.

A inclusão de perspectivas sociais nos temas de negociação das COPs tem um longo histórico, em que as mais diversas formas de organização da sociedade civil possuem seu lugar de protagonismo na luta. A Conferência era, e ainda é, um espaço polêmico, ao que muitos atores ativamente responsáveis pela crise climática – grandes empresas poluidoras, por exemplo – ainda ocupavam um espaço de fala muito grande, mantendo o enfoque dos diálogos apenas acerca de manter o aquecimento global abaixo de 1.5º graus celsius e esquecendo que para alguns, há efeitos mais palpáveis que precisam ser tratados urgentemente, como o fato de seus territórios estarem, literalmente, em chamas. 

Foi através de muita luta, advocacy e ativismo que a sociedade civil conseguiu ir se inserindo no contexto das Conferências, apesar de ainda ocupar um espaço muito decorativo, ao que não nos é dado poder de voto ou local de fala. O Engajamundo, como organização de juventude, faz parte ativa desta construção dos espaços de sociedade civil. Estando presentes nas COPs desde 2015, reforçamos a importância das juventudes – os herdeiros da crise climática e que mais são afetados por esse histórico de inação ou insuficiência de comprometimento – estarem presentes nestes espaços. 

Neste ano de 2021, até segunda ordem, a COP irá ocorrer em Glasgow, Escócia, onde as nações irão discutir temas fortemente associados à pauta da Recuperação Econômica Verde – como avançar ou terminar a regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris referente aos mercados de carbono; Revisão do Compromisso de Financiamento Climático de US$ 100 bilhões; e revisão e fortalecimento das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). 

Até o momento, as metas apresentadas pelos países não são o suficiente para frear a crise climática a tempo. As métricas de “até 2030” ou “até 2050” para seus comprometimentos são meramente ilusórias e não condizem com a realidade – não precisamos de ação para daqui a 10, 20 anos, precisamos de ação agora.

as metas apresentadas pelos países não são o suficiente para frear a crise climática a tempo.

O Brasil, vale lembrar, enfrenta uma ação de Litigância Climática, em que está sendo processado pela juventude brasileira por ir na direção oposta ao do comprometimento necessário e diminuir o nível de ambição climática na revisão de NDC apresentada no ano de 2020. As taxas de desmatamento e perda de direitos ambientais que seguem crescendo, com denúncias em corte internacional e nacional se acumulando fazem  com que diversos parceiros e investidores passem a olhar para o país com desconfiança. Enquanto isso, os membros do governo insistem em manter as supostas aparências, rebatendo que tais “acusações” não são verdadeiras – apesar dos fatos e da ciência não mentirem.

O cenário de pandemia traz ainda um contexto de preocupação. A vacinação segue em ritmo lento não apenas no Brasil, mais na maior parte dos países do Sul-global, assim como existem restrições de viagem impostas para chegar em Glasgow  Com os custos para participação por um lado e por outro a falta de interesse dos governos na presença da sociedade civil, é difícil não pensar que o discurso de que a COP que está por vir será ‘uma das mais inclusivas de todas’ é meramente demagógico. 

Sendo temas de grande interesse econômico, é fácil que aqueles que detêm os privilégios e que ainda não sentem os efeitos das mudanças climáticas em suas vidas pensem única e exclusivamente em onde a crise climática dói: em seus bolsos – e assim, deixem de lado olhares que trazem recortes importantes para as decisões, garantindo que possam pensar não apenas em recuperar o lucro, como em de fato criar um novo modelo de desenvolvimento que possa remodelar a economia tendo as pessoas e o clima como o centro das discussões. 

Abertura da COP 25, em Madrid. Foto: UNFCCC / Flickr

É possível, então, compreender o quanto uma COP que não inclua a sociedade civil pode ser desastrosa para o planeta e perigosa para as pessoas. Afinal o exercício da fiscalização e controle social é um dos mecanismos essenciais a nível internacional e nacional para garantir que não se esqueça o que de fato importa neste debate.

É nesse contexto que a nossa participação como juventude brasileira se reforça e se torna ainda mais relevante, apesar das barreiras impostas. Garantir que jovens brasileiros estejam na COP – vacinados e seguros – é garantir discussões que possam ser inclusivas de fato e que recoloquem o país no centro das negociações climáticas. É do nosso interesse que recuperemos a nossa imagem internacional de nação que preserva sua natureza, mas para que isso aconteça, precisamos de compromissos verdadeiros e ambiciosos, não apenas uma miragem do que o país poderia (e deveria) ser. 

Investidas em demonstrar e defender um Brasil que só existe no papel e não se comprova na prática, além de pressa em encerrar discussões podem levar a ainda mais desigualdades sociais e econômicas, falta de transparência e cooperação internacional e, acima de tudo, a violação do direito intergeracional à vida. 

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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