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Trilhas sobre Trilhos: a Trilha Verde da Maria Fumaça como iniciativa de transformação no Brasil

Localizada entre a Serra do Espinhaço e o sertão mineiro, a trilha ferroviária une história e natureza ao longo do percurso de cerca de 100 quilômetros

Rosália Moreira ·
2 de agosto de 2021

A Trilha Verde da Maria Fumaça é uma ecovia localizada em Minas Gerais, no Centro Norte do estado, com aproximadamente 100 quilômetros entre serras e os riachos pertencentes às bacias do Rio das Velhas e do Jequitinhonha, que liga as vertentes da Serra do Espinhaço ao sertão mineiro.

Antes de se tornar a atual Trilha Verde da Maria Fumaça (TVMF), a ecovia era o então Ramal Ferroviário Diamantina-Corinto, trecho que foi inaugurado em 1914 pela Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), que depois o repassou à Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB), em 1923. O percurso total do ramal ferroviário era de 145 quilômetros e cortava os municípios de Diamantina, Datas, Gouveia, Monjolos, Santo Hipólito, Curvelo e Corinto. Na década de 70, o ramal foi totalmente desativado e parte do trecho entre os municípios de Monjolos a Corinto se transformou em rodovia. Trinta anos depois, a TVMF surgiu delimitando seu trecho entre Monjolos e Diamantina, caracterizado como ecovia pelas suas características de trilha.

Durante esses 30 anos, parte da estrutura, como trilhos e dormentes, foi retirada do local, restando apenas as estações, algumas casas de turma e os pontilhões. Ainda assim, a trilha guarda um patrimônio natural e cultural que surpreende os visitantes: galerias fluviais, enormes fendas que constituem verdadeiros portais, cachoeiras, pinturas rupestres, além do encontro com pessoas das comunidades que viveram na época em que o trem passava por ali. A memória dos contemporâneos da Maria Fumaça é uma experiência complementar ao visitante que se interessa pelas várias histórias e “causos” locais.

A trilha configura-se como importante marco da memória ferroviária brasileira e como incentivadora da valorização do patrimônio turístico. Suas características geográficas e culturais oportunizam o acesso de caminhantes, ciclistas, crianças, idosos e demais grupos à história do ramal ferroviário desativado de Diamantina. A trilha é ainda instrumento de apoio e incentivo às comunidades do entorno para agregar maior valorização e preservação da memória cultural de seu povo.

Desde o ano 2000, foram realizadas três expedições no trecho do antigo ramal ferroviário com a finalidade de conhecer o potencial da trilha e contribuir com melhorias na sua estrutura. A Organização da Sociedade Civil Caminhos da Serra (OSC) sempre esteve à frente na coordenação das expedições, convocando os participantes e envolvendo-se ativamente nas decisões. As travessias ocorreram respectivamente nos anos 2000, 2005 e 2017.

Atualmente, mesmo não ainda não totalmente estruturada, a Trilha Verde da Maria Fumaça já vem sendo muito utilizada pelos moradores da região e por visitantes para prática de caminhadas e passeios ciclísticos. Como ainda não há um monitoramento do trecho, não é possível saber o número exato de pessoas de outras cidades que vieram desfrutar dos encantos dessa rota turística. Contudo, nas redes sociais encontram-se facilmente vídeos, imagens e depoimentos de aventureiros que realizaram o percurso. Todos eles se dizem encantados com a beleza das paisagens vistas.

Antiga estação do Rodeador, incorporada hoje no percurso da Trilha Verde da Maria Fumaça. Foto: Arquivo Caminhos da Serra

Passeios ciclísticos em grupo são organizados por agências de Diamantina, Curvelo, Montes Claros, Gouveia e outros; passeios de caminhantes acontecem diariamente (observamos um fluxo maior de caminhantes e ciclistas entre o município de Diamantina e a Comunidade de Conselheiro Mata). Ainda que seja frequentada por vários grupos, é notável a presença cada vez maior de mulheres e famílias com crianças que são atraídas pelos atrativos culturais e naturais da trilha.

Trilhas que têm por base ramais ferroviários têm um enorme potencial, principalmente quando comparamos com modelos semelhantes e já consolidados de outros países como a Rails to Trails nos Estados Unidos e a Vías Verdes na Espanha. Estes modelos são iniciativas de pessoas físicas (voluntários) e do poder público que propuseram a transformação de milhares de quilômetros de ferrovias abandonadas em espaços para ciclistas, caminhantes e cavaleiros. Os trilhos dão lugar à trilha, que passa a receber um aproveitamento turístico e desportivo com sustentabilidade. Além disso, as trilhas ferroviárias possuem características próprias, como o fácil acesso – principalmente por serem de baixa elevação – curvas suaves e paisagens fascinantes.

No Brasil, como em outros países, há diversos outros ramais desativados similares à Trilha Verde da Maria Fumaça, com grande potencial não aproveitado e que podem vir a se tornar uma trilha ferroviária. O caminho para consolidar um projeto que realize essa transformação é árduo, principalmente por envolver grupos de interesses opostos e as políticas públicas que devem ser desenvolvidas para tal. Contudo, é necessário identificar esses locais e iniciar o trabalho de campo para visualizar a possibilidade de efetivar essa ação. A Trilha Verde da Maria Fumaça é um exemplo de que há sempre uma alternativa para o uso consciente da memória, da história e da natureza para o bem de todos. Basta conhecermos e acreditarmos!

Assista a live da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso em parceria com ((o))eco sobre a Trilha Verde da Maria Fumaça:

*Rosália Moreira é voluntária da ONG Caminhos da Serra, que atua na Trilha Verde da Maria Fumaça

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Rosália Moreira

    Voluntária na ONG Caminhos da Serra que atua na Trilha Verde da Maria Fumaça

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