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Transespinhaço: trilha que conecta pessoas e destinos

A Trilha Transespinhaço cruza mais de 50 áreas protegidas e 40 municípios ao longo da Serra do Espinhaço, e é potencial para geração de renda no interior de Minas Gerais

Diego Firmato ·
17 de março de 2021

O projeto da trilha de longo curso “Trilha Transespinhaço” é um movimento voluntário que tem a participação da sociedade civil e de representantes de órgãos públicos das esferas federal, estadual e municipal, que abrange 41 municípios mineiros. A expectativa é traçar um percurso de aproximadamente 1.000 quilômetros, que faça a conexão entre 53 áreas protegidas ao longo da cadeia da Serra do Espinhaço.

Até o momento, diversos trechos da trilha já receberam sinalização rústica, com placas de madeira pintadas à mão, enquanto o restante do traçado está em fase de validação. Os trechos mais avançados encontram-se no Parque Estadual do Pico do Itambé (PEPI), no Parque Nacional da Serra do Cipó (PARNACIPO), no Parque Estadual do Biribiri e no trecho entre Milho Verde e Capivari, ambos distritos do município de Serro e localizados dentro do Monumento Natural Várzea do Lajeado e Serra do Raio assim como da Área de Proteção Ambiental Águas Vertentes (APAAVE).

A implantação da trilha consiste em uma representação coletiva, sob a tutela da Federação de Montanhismo e Escalada do Estado de Minas Gerais (FEMEMG). As atividades são conduzidas por coletivos de voluntários divididos inicialmente em quatro GTs (grupos de trabalho) ao longo das regiões de atuação do projeto. Cada grupo é composto por diversos profissionais como montanhistas, guias de turismo, gestores de unidades de conservação e representantes de universidades.

A Associação de Escaladores da Serra do Espinhaço (AESE) adotou dois trechos da trilha, realizou doação de materiais para sinalização e é voluntária nos trabalhos de campo do GT nº 3. Um dos trechos adotados é justamente o que liga Milho Verde e Capivari, onde a sinalização já está praticamente pronta, sendo 12,2 quilômetros sinalizados nos dois sentidos, num total de 24,4 quilômetros. Na próxima etapa será feita a instalação de mais cinco mourões, para o refinamento da sinalização, com os pórticos de entrada e saída das trilhas. Após esta ação, começará a sinalização do segundo trecho, entre a Fazenda Santa Cruz e Milho Verde, com 9,65 quilômetros de ida e volta, num total de 19,3 quilômetros.

Também há interesse em adotar mais um trecho, entre o Parque Estadual Pico do Itambé e o Parque Estadual do Rio Preto, com georreferenciamento até a Escola Municipal de Covão já feito, em parceria com a APAAVE e o PEPI.

Voluntários em trecho da Transespinhaço. Foto: José Ricardo/Aese

Em todos os trabalhos, a AESE conta com o apoio da equipe do Instituto Estadual de Florestas (IEF), responsável pelas unidades de conservação estaduais, como a MONA Várzea do Lajeado e Serra do Raio e APA Águas Vertentes. Tais parcerias são de grande valia, visto que a prática da escalada na Serra do Espinhaço acontece em diversos pontos ao longo de sua cadeia montanhosa, com alguns setores bem próximos aos trechos da trilha nos arredores de Milho Verde. Assim, a AESE abraçou totalmente a sua implantação.

É uma enorme satisfação ser voluntário deste projeto tão grandioso e poder colaborar com a preservação da natureza e com a valorização que a trilha trará para o turismo em diversas regiões, com fortalecimento do turismo de base comunitária e da economia solidária.

Como condutor ambiental, guia turístico e montanhista vislumbro o desenvolvimento e a concretização da “Transespinhaço” como mais uma alternativa de trabalho para pessoas que, assim como eu, trabalham com a condução ambiental e guiada em trilhas e travessias. Além dos atrativos que a própria trilha oferece, também existem muitos outros destinos em seus entornos, que poderão ser visitados pelos turistas caminhantes. Todo este movimento agregará ainda mais potencialidade ao turismo regional, conectando vários trechos das travessias e dando acesso a lugares pouco desenvolvidos economicamente, como pequenos vilarejos mineiros com grandes saberes e fazeres tradicionais, como o queijo. Portanto, essas regiões ganharão novas formas e possibilidades de geração de renda que podem trazer a melhoria da qualidade de vida para diversas famílias no interior.

O turismo de base comunitária não é um segmento, mas sim um modo de fazer turismo que valoriza as comunidades tradicionais e as riquezas da terra. A ideia por trás deste conceito é promover um turismo mais justo e solidário, que coloque as populações locais no protagonismo em todas as etapas de implantação (planejamento, execução e monitoramento), levando em consideração a autonomia, o desenvolvimento social, ambiental, cultural, econômico e étnico, bem como a sustentabilidade das atividades propostas.

Quanto mais pessoas e forças unidas, melhor será para a implantação da tão sonhada trilha de longo curso “Transespinhaço”. Então, quem quiser se voluntariar junto ao projeto: vem com a gente!

Assista a live da Rede Trilhas em parceria com ((o))eco sobre governança:

*Diego Firmato é condutor ambiental, presidente da Associação de Escaladores da Serra do Espinhaço (Aese) e voluntário da Trilha Transespinhaço.

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Comentários 4

  1. H.L.S. diz:

    Olá Diego, tudo bem?

    Onde posso encontrar o mapa da trilha completa e das areas sinalizadas?
    Obrigado.


  2. Tlio Madureira diz:

    Parabéns pela ação, sucesso garantido!!!


  3. rico Silva diz:

    Parabéns pelo trabalho, TBC é construção coletiva, maravilhoso. Senti falta do Serra do Intendente.


  4. jtruda diz:

    Excelente artigo e excelente trabalho, parabéns e gratidão a todos os envolvidos na construção do Sistema Brasileiro de Trilhas!