Análises

Nem os conservadores defendem mais os combustíveis fósseis

Pela primeira vez, a Agência Internacional de Energia admite que, para evitar a catástrofe climática, mais nenhum investimento em petróleo, gás e carvão deve ser feito

Ilan Zugman ·
18 de maio de 2021

Em uma guinada inédita, a Agência Internacional de Energia (AIE), organização internacional que tem como objetivo coordenar as políticas energéticas de seus estados-membros, reconheceu hoje que o mundo precisa parar imediatamente de investir em petróleo, gás e carvão, se quiser evitar os cenários mais catastróficos da crise climática.

Fundada em 1974, como resposta à crise internacional do petróleo, e abrigada na estrutura da Organização pela Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a AIE percorreu um longo caminho até finalmente reconhecer a necessidade de um modelo de desenvolvimento compatível com o objetivo do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento da Terra em 1.5˚C.

O relatório Net Zero até 2050: um roteiro para o setor energético global, lançado nesta terça-feira, estabelece mais de 400 pontos que determinam o caminho crítico para alcançar o “net zero” (emissões líquidas zero) até 2050. As principais recomendações da publicação da AIE que o mundo alcance esse objetivo são:

  1. Nenhuma nova expansão ou investimento em petróleo, gás ou carvão além do que já está comprometido, medida que deve começar a valer imediatamente.
  2. A geração de energia solar e eólica fornecerá 68% de toda a demanda global de eletricidade.
  3. As emissões totais de CO₂ relacionadas à energia até 2050 devem chegar a zero.
  4. A AIE sugere, inclusive, um cronograma de metas para o setor, sintetizado no gráfico abaixo.
Crédito: AIE.

Traduzindo, esse cronograma lista os seguintes marcos:

2021 – Fim dos investimentos em projetos de combustíveis fósseis

2035 – Fim das vendas de automóveis a combustão 

2040 – Setor global de energia elétrica alcança emissões líquidas zero (net-zero)

2050 – Setor global de energia (não só a elétrica) alcança emissões líquidas zero (net-zero)

Não há mais como defender os combustíveis fósseis

O relatório é notável porque a AIE é vista como uma organização relativamente conservadora e que, no passado, minou consistentemente o potencial das energias renováveis. Além disso, os estudos da AIE são frequentemente utilizados para moldar as decisões de governos e de setores da indústria.

Com o documento lançado hoje, a AIE finalmente reconhece que não há espaço para novos projetos de combustíveis fósseis dentro de seu caminho para 1,5˚C. Entretanto, seu cenário depende fortemente de projetos “net zero” que vêm sendo utilizados por governos e empresas poluidoras como uma estratégia para disfarçar a falta de ação climática, mantendo um cenário de “business as usual”. 

Em outras palavras, devemos reconhecer o avanço que esse relatório representa, por nomear claramente o problema – os combustíveis fósseis –, mas lembrar que a solução proposta ainda é insuficiente.

A AIE admitir que não dá mais para defender a produção de combustíveis fósseis deixa as empresas de petróleo, gás e carvão ainda mais isoladas. A ciência é tão clara sobre a necessidade de uma transição energética urgente, e as evidências práticas do impacto da crise climática ficaram tão visíveis em todo o mundo que nem mesmo as organizações mais conservadoras estão hesitando em defender o caminho da descarbonização. Porém, falta derrubar o mito das emissões líquidas zero como resposta. Podemos – e precisamos – ser muito mais ambiciosos do que isso.

Não temos tempo de esperar por soluções do futuro

Outro ponto que merece destaque negativo é o fato de a AIE afirmar que a metade das reduções das emissões virá de tecnologias que estão atualmente em fase de demonstração ou de protótipo. Essa é, aliás, uma das falhas frequentes das propostas de emissões líquidas zero.

De acordo com Sven Teske, professor associado e diretor de pesquisa do Institute for Sustainable Futures, Universidade de Tecnologia de Sydney, a AIE está apostando suas fichas em tecnologias não-comprovadas de captura e armazenamento de carbono. Sem contar que retirar CO₂ da atmosfera é técnica e economicamente muito mais difícil do que evitar a emissão. 

Sven Teske afirma o seguinte: “As principais tecnologias para descarbonizar o sistema global de energia estão prontas para o mercado, ou já são competitivas em termos de custo ou estarão dentro dos próximos cinco a dez anos. São elas: tecnologias solares e eólicas, tecnologias de baterias, mobilidade elétrica e várias tecnologias para fornecer calor a processos industriais. Não há necessidade de esperar por mais pesquisas. A transição para um fornecimento completo de energia renovável até 2050 pode começar agora”.

Para companhias de petróleo, gás e carvão, essa conclusão pode ser dolorosa, mas não adianta tapar o sol com a peneira. Não há mais tempo para ganhar tempo. Precisamos de políticas públicas que incentivem a expansão da infraestrutura e o financiamento a energias limpas e facilitem o acesso do consumidor a essas energias. E isso deve acontecer não de forma paralela com a expansão dos fósseis, mas substituindo-os. A era dos combustíveis fósseis tem que acabar. O futuro será deles ou da humanidade.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Ilan Zugman

    lan Zugman é diretor para a América Latina da 350.org, organização que trabalha pela transição energética e pela justiça climática em todo o planeta, em conjunto com movimentos sociais e com base na ciência.

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