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Travessia percorre o alto das montanhas da Serra da Mantiqueira. Foto: Duda Menegassi.

Travessia percorre o alto das montanhas da Serra da Mantiqueira. Foto: Duda Menegassi.

A previsão de tempestade não é a notícia mais animadora quando se está às vésperas de embarcar em uma trilha de dois dias. O local da travessia, entretanto, eram as montanhas da Serra da Mantiqueira, um dos principais berços do montanhismo brasileiro e, independente dos pessimismos meteorológicos, eu estava empolgada. Como carioca, o Parque Nacional do Itatiaia, a menos de 200 quilômetros de distância do Rio de Janeiro, já era um velho conhecido, porém nunca havia feito uma trilha por lá. Agora, mesmo com a ameaça de chuva literalmente sobre nossas cabeças, tinha certeza de que esta seria uma travessia memorável.

O percurso em questão, escolhido para ser o sétimo palco das 10 travessias de aniversário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), foi a Travessia da Serra Negra. São dois dias de caminhada que somam cerca de 31 quilômetros no total. A distância, nesse caso, é um detalhe ofuscado por outro número, a altitude. O ponto mais alto da travessia está a aproximadamente 2.530 metros de altura em relação ao nível do mar. O parque nacional não é um estranho às altitudes superlativas uma vez que é o lar do Pico das Agulhas Negras, com 2.791 metros, o ponto mais alto do estado fluminense e o quinto do Brasil.

Quando saímos em um micro-ônibus na manhã do dia 28 de outubro, em direção à parte alta do parque, as nuvens escondiam o horizonte e boa parte da paisagem. A nebulosidade não seria um problema desde que não chovesse. Uma vez que começássemos a trilha, não teríamos escolha a não ser manter os dedos cruzados para que um temporal não desabasse sobre nós enquanto estivéssemos tão perto dos céus e expostos aos raios.

Os primeiros metros de caminhada da Travessia da Serra Negra. Foto: Duda Menegassi.

Os primeiros metros de caminhada da Travessia da Serra Negra. Foto: Duda Menegassi.

O nosso grupo era formado por cerca de 20 pessoas, como o gestor do parque nacional, Gustavo Tomzhinski e outros servidores do ICMBio, entre eles três coordenadores: da Divisão de Fomento a Parcerias, Carla Guaitanele; da Coordenação de Concessões e Negócios, Larissa Moura Diehl; e da Coordenação Geral de Uso Público e Negócios, Pedro da Cunha e Menezes. Diversos montanhistas da região e voluntários da Trilha Transcarioca também participaram da travessia.

Descemos do ônibus na portaria da parte alta, conhecida como Posto Marcão, onde é feita a cobrança de ingresso dos visitantes. A poucos metros dali está o início do Circuito dos 5 Lagos, por onde começa a nossa caminhada nos céus, ou pelo menos essa é a impressão quando se está a mais de 2.400 metros de altitude.

A vegetação é típica das alturas, rasteira, arbustiva e monocromática. Em vez de árvores, destacam-se as formações rochosas. Os campos de altitude são um dos ecossistemas associados à Mata Atlântica, bioma predominante na unidade de conservação, e como o nome indica, ocorre apenas nas alturas, mais especificamente acima dos 1.500 metros. Apesar das condições mais inóspitas, são ecossistemas ricos e com alto nível de espécies endêmicas. Um exemplo é o famoso sapo flamenguinho (Melanophryniscus moreirae), animal símbolo do Parque Nacional do Itatiaia, e endêmico das áreas de altitude da Serra da Mantiqueira.

Um sapo flamenguinho flagrado no caminho durante a travessia. Foto: Duda Menegassi.

Um sapo flamenguinho flagrado no caminho durante a travessia. Foto: Duda Menegassi.

Durante nossa caminhada nesse trecho inicial, encontramos vários sapinhos. Quando parados, suas costas escuras se confundem com a rocha, mas basta se moverem para denunciarem sua presença por causa das suas patas vermelhas chamativas. Encontramos até mesmo um casal durante seu acasalamento. Nada mais justo, pois estamos em pleno período reprodutivo da espécie, que vai de setembro a abril, ao longo da época mais úmida. Nos outros meses do ano é praticamente impossível encontrar os sapos flamenguinhos que ficam refugiados em buracos em um estado parecido com a hibernação.

A trilha segue por entre as pedras e, nesse trecho sobreposto ao Circuito 5 Lagos, é sinalizada por estacas de madeira pintadas de vermelho na ponta. Após dois quilômetros de caminhada, chegamos à Cachoeira 5 Lagos, um dos atrativos do percurso. Apesar da temperatura, tanto ambiente quanto da água, não a tornar convidativa o suficiente para um mergulho, a paisagem é de tirar o fôlego. A cachoeira se debruça na beira da montanha e despenca displicentemente morro abaixo, enquanto a sinuosidade da serra se estende por todas as direções e mostra a imponência da Serra da Mantiqueira.

O impressionante visual da Cachoeira dos 5 Lagos. Foto: Duda Menegassi.

O impressionante visual da Cachoeira dos 5 Lagos. Foto: Duda Menegassi.

A Serra da Mantiqueira é uma cadeia de montanhas que se estende por cerca de 500 quilômetros e cruza três estados São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e alterna altitudes que vão de 1.200 a 2.800 metros. É através desse trajeto nas alturas que nasceu a ideia da trilha de longo curso intitulada Transmantiqueira, cujo traçado ainda não está definido. A proposta, entretanto, é clara: criar um caminho pelas montanhas da serra e aproveitar trilhas já existentes, como a própria Travessia da Serra Negra, para construir um trekking de mais de 700 quilômetros de extensão.

Entre os participantes da travessia estava Jefferson, brasileiro que este ano percorreu de ponta-a-ponta a Appalachian Trail, uma das mais icônicas trilhas de longo curso do mundo, localizada nos Estados Unidos. Foram 131 dias de caminhada e ele conta que os americanos se surpreendiam ao saber que ele viera do Brasil só para fazer o trekking. “Não existem trilhas de longo curso por lá?”, perguntavam. E de fato, além da Trilha Transcarioca, com humildes 180 quilômetros diante dos 3.500 da Appalachian, não, não existem. Ainda. Porque aos poucos, projetos como a Transmantiqueira começam a sair do papel e dar um novo fôlego – e dimensão – ao montanhismo brasileiro.

Por falar em fôlego, a nossa travessia seguiu por entre as pedras, na beirada da montanha, por um caminho que pode ser considerado vertiginoso por quem não fica confortável com alturas. O trecho é exposto, ou seja, uma queda pode ser perigosa e por isso exige atenção. Porém pode ser feito sem necessidade de “escalaminhadas”. Felizmente, a chuva se manteve afastada durante essa parte da caminhada. Estávamos com sorte.

O tempo até mesmo abriu para que pudéssemos contemplar o incrível visual panorâmico de imensidões fluminenses e mineiras que nos rodeava. O parque está bem na divisa entre os dois estados, mas a maior parte da travessia é feita do lado mineiro.

Por volta do quarto quilômetro, encontramos uma bifurcação e seguimos na direção da Cachoeira do Aiuruoca, apontada pela placa. Antes de alcançarmos a cachoeira, entretanto, passamos pela área de nascentes do rio Aiuruoca, que é considerado o rio com a nascente mais alta do Brasil, a 2.450 metros. O rio percorre um extenso caminho montanha abaixo ao longo do qual cria inúmeras cachoeiras.

A Cachoeira do Aiuruoca prestes a desaparecer por detrás da nuvem. Foto: Duda Menegassi.

A Cachoeira do Aiuruoca prestes a desaparecer por detrás da nuvem. Foto: Duda Menegassi.

Descemos gradualmente em direção ao Vale do Aiuruoca, por onde passa o rio, e assistimos a mudança na vegetação, que aos poucos se transforma em floresta. Os arbustos da altitude dão lugar às árvores, e o clima mais seco dá lugar à umidade. A paisagem ganha contornos e cores mais tradicionais da Mata Atlântica. A trilha passa próxima à Cachoeira do Aiuruoca e, mesmo sem vê-la, é possível ouvir o barulho da queda d’água de 40 metros. Apenas um quilômetro depois, consegui enxergar a cachoeira, mas apenas por breves minutos antes de uma nuvem se intrometer e fazê-la desaparecer por detrás da neblina.

Paramos para descansar próximo da marca de dez quilômetros, em um local estratégico onde existe um pequeno abrigo com visual privilegiado. De lá, enquanto descansava e recarregava as energias com um pedaço de queijo mineiro, contemplava outra cachoeira formada pelo rio Aiuruoca em sua saga montanha abaixo. Ao redor, araucárias (Araucaria angustifólia), um dos símbolos da Serra da Mantiqueira, emolduravam a paisagem. Não pelo cansaço, mas pela vontade de curtir aquele cenário, foi difícil levantar e seguir caminho.

A descida até o ponto de pernoite é íngreme, com uma declividade não aconselhada para fins de manejo e conservação da trilha, o que se comprova pelo grande nível de erosão do percurso. A condição do terreno estava ainda pior por causa da chuva da véspera, o que transformou a terra em lama e as botas em patins em alguns trechos.

Após oito horas e um total de 16 quilômetros de caminhada, alcançamos a casa da Dona Sônia, que criou ali uma pousada e área de camping para receber os montanhistas que fazem a travessia. A opção de hospedagem no chalé é puro luxo depois de um dia intenso de trilha, com direito à banho de água quente. São três chalés, cada qual equipado com vários beliches e camas. A pousada conta também com um refeitório no qual recarregamos o combustível com uma deliciosa truta e um inesperado pudim de sobremesa.

Os chalés da pousada da Dona Sônia, nosso ponto de pernoite. Foto: Duda Menegassi.

Os chalés da pousada da Dona Sônia, nosso ponto de pernoite. Foto: Duda Menegassi.

O guia de turismo Rodolfo Guedes, especializado em travessias na Serra da Mantiqueira, é um frequentador antigo da pousada. Ele lembra que há 12 anos, quando começou a trazer grupos para realizarem a travessia, os moradores tinham medo de apoiar os montanhistas por causa do impasse da regularização fundiária, “mas a Sônia comprou a ideia, acreditou no turismo e conseguiu aumentar sua renda. Como resultado construiu três chalés e hoje é uma das defensoras da trilha”, conta Rodolfo.

A propriedade de Sônia ainda não foi regularizada, mas seu papel como ponto de apoio ao turismo pode favorecer o acordo de um Termo de Compromisso que permita que ela e sua família continuem ali. “Essas questões dependem de uma análise técnica e jurídica, mas nós enxergamos de forma positiva que a gente possa ter a comunidade sem impactar o parque, obviamente, se beneficiando e estimulando um turismo sustentável”, explica o gestor do parque. A regularização fundiária é um dos principais desafios da unidade de conservação que, apesar de ser a mais antiga do país, com 80 anos de existência, possui apenas 52% da sua área regularizada. Durante a própria travessia, passamos por algumas cercas de propriedades ainda habitadas que ainda não foram regularizadas.

Depois de uma boa noite de sono, aproveitamos a última regalia da pousada: um bom café-da-manhã antes de partirmos para nossa última etapa da caminhada. O segundo dia começa com um trecho que recebe a alcunha de “Subida da Misericórdia”. O motivo deste nome logo fica evidente e mais do que justificado no percurso íngreme que, em três quilômetros, sai de uma altitude de 1.700 metros para 2.194 metros. É praticamente só subida, sem misericórdia.

O trecho final da Subida da Misericórdia. Foto: Duda Menegassi.

O trecho final da Subida da Misericórdia. Foto: Duda Menegassi.

Subir, entretanto, vale a pena e permite uma visão panorâmica de toda região. Para todos os lados, reinam montanhas a perder de vista, entre elas algumas icônicas da região, como o Pico do Papagaio, no lado mineiro, e a Pedra Selada, no lado fluminense. Alcançamos o cume do segundo dia de travessia e, a partir de agora, nossa caminhada segue pela cumeeira em descida gradual que nos levará em direção ao nosso destino, a cidade de Maringá.

Cruzamos uma pequena área de floresta aonde ouvimos a vocalização de uma ave conhecida como saudade (Lipaugus ater). A origem do nome, inspirada no seu canto melancólico, serve como um prenúncio do sentimento que não tardarei em sentir quando lembrar desses dias que passei imersa nas vastidões da Serra da Mantiqueira.

Início da descida pela cumeeira em direção ao município de Maringá. Foto: Duda Menegassi.

Início da descida pela cumeeira em direção ao município de Maringá. Foto: Duda Menegassi.

Enquanto eu caminhava lentamente para apreciar o cenário montanhoso que me rodeava e registrá-lo em fotografias, o pelotão da frente encontrou um grupo de 10 motoqueiros subindo pela trilha. O motocross é proibido nas trilhas do parque, uma vez que a prática cria valas, erode o solo, gera proliferação de caminhos, alargamento do leito e degrada a vegetação. O encontro com caminhantes surpreendeu os motoqueiros que foram orientados a retornar e, intimidados pelo tamanho do nosso grupo, deram meia volta. O alto impacto de atividades como o motocross pode ser visto no resto da trilha, extremamente erodida, onde as marcas dos pneus das motos ainda podiam ser vistas.

É difícil fiscalizar um parque com 28 mil hectares, uma rede de 120 quilômetros de trilhas abertas ao público, com uma equipe de apenas 18 servidores, como é o caso do Parque Nacional do Itatiaia. Por isso, visitantes podem ser aliados para multiplicar os olhos dentro da unidade de conservação. “No caso específico das trilhas, quando elas são utilizadas com frequência pelos visitantes, a própria presença deles ajuda a inibir ilícitos como caça, desmatamento, ou mesmo o motocross”, comenta Gustavo.

A erosão intensa transformou a trilha em uma vala. Foto: Duda Menegassi.

A erosão intensa transformou a trilha em uma vala. Foto: Duda Menegassi.

Por volta de meio-dia, os primeiros pingos anunciaram que a chuva prometida pela previsão do tempo e da qual até então havíamos escapado, nos pegara. Em questão de minutos, uma pesada chuva desabou sobre nós, nos obrigando a apressar o passo. Seguimos em ritmo acelerado apesar da lama e do vento forte que às vezes nos atingia em cheio. Por cerca de uma hora, a paisagem virou um borrão e tudo que eu conseguia me concentrar era na trilha e em não escorregar, além de torcer para que o vento não derrubasse nenhum galho sobre nós.

Felizmente, quando a chuva virou garoa, tudo indicava que havíamos escapado ilesos e, um a um, cada integrante do grupo chegava inteiro. A esta altura a trilha havia se transformado em uma estrada de terra, um sinal de que cruzávamos a fronteira do parque com a zona rural do entorno. Descemos pela estrada de terra rodeada de pastos e de eucaliptos até chegarmos em uma bifurcação que indicava o último atrativo da nossa travessia: a Cachoeira Santa Clara.

A cachoeira forma um pequeno e raso poço e não resisti a dar um mergulho, junto com outros cinco corajosos que enfrentaram a água gelada. Revitalizada para percorrer o trecho final, andamos por mais cerca de dois quilômetros até chegarmos ao município de Maringá (RJ), nossa linha de chegada, após 15 quilômetros de caminhada. A profusão de pousadas, restaurantes e agências mostra que a cidade pulsa pelo turismo dos atrativos naturais do entorno. Aproveitar a vocação turística das áreas naturais pode ser uma poderosa ferramenta de conservação. E, em especial nos parques, essa deveria ser a sua missão. Como ressalta o gestor, Gustavo, “as pessoas frequentam e gostam do parque, cobram de nós, servidores, e do ICMBio, e defendem o parque. Esse é o maior tesouro deste e de todos os outros parques: a capacidade de cativar as pessoas”.

A Cachoeira Santa Clara, último atrativo da travessia. Foto: Duda Menegassi.

A Cachoeira Santa Clara, último atrativo da travessia. Foto: Duda Menegassi.

De amarelo, o percurso da Travessia Serra Negra. Em vermelho, os limites do Parque Nacional do Itatiaia.

De amarelo, o percurso da Travessia Serra Negra. Em vermelho, os limites do Parque Nacional do Itatiaia.

 

Travessia da Serra Negra

Onde: Parque Nacional do Itatiaia (RJ)

Distância: 31 quilômetros

Pernoite? Sim. O pernoite é realizado na pousada/camping da Dona Sônia.

A contratação de um guia não é obrigatória, porém como a trilha não é autoguiada, é recomendada.

 

 

*Duda Menegassi é jornalista de ((o))eco e a convite do ICMBio está acompanhando as dez travessias em unidades de conservação que a serem completadas em 2017, em comemoração aos dez anos do órgão ambiental.

 

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