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O guia Bruno lidera o grupo na travessia por entre os horizontes de montanha. Foto: Duda Menegassi.

O guia Bruno lidera o grupo na travessia por entre os horizontes de montanha. Foto: Duda Menegassi.

A palavra de ordem no Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais, é andar. Para chegar em alguma das cachoeiras da unidade, por exemplo, o visitante é obrigado a encarar no mínimo 7 km de caminhada. A vocação não poderia estar mais clara com a implementação de uma trilha de longo curso. O trekking de 40 km tem como companhia constante as nuvens, o céu e as montanhas. Para onde quer que se olhe, lá estão esses três personagens, os protagonistas da travessia. E os montanhistas não são mais que coadjuvantes privilegiados da imensidão mineira.

Os caminhos de horizontes vastos foram o palco para quarta travessia comemorativa do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O aniversário de 10 anos do órgão ambiental foi celebrado por um grupo de aproximadamente 30 pessoas. Entre elas estavam o coordenador geral de Uso Público e Negócios (CGEUP) do ICMBio, Pedro Menezes; o gestor do parque, Flávio Cerezzo; além de representantes do Instituto Estadual de Florestas (IEF) de Minas Gerais e das prefeituras de Jaboticatubas e Santana do Riacho, municípios do entorno.

A caminhada soma 40 quilômetros e percorre cenários de Cerrado, de campos rupestres na altitude, e termina com um gostinho de Mata Atlântica, no sopé do povoado de Serra dos Alves, no limite sul do parque. A Serra do Cipó é uma zona de encontro entre os dois biomas, com o bônus da altitude, que transforma a unidade em área com grande incidência de endemismos, ou seja, de espécies que são exclusivas daquele habitat. Além disso, o Cipó é parte da grande cadeia de montanhas da Serra do Espinhaço, considerada a única cordilheira do Brasil. E que, em 2005, ganhou o título de Reserva da Biosfera e o reconhecimento de “berçário das águas”.

Prontos para conhecer de perto a biodiversidade e beleza cênica do parque, iniciamos a travessia na manhã de uma sexta-feira de julho (14/07). No roteiro, três dias de trilha nos esperam. A primeira etapa é a mais longa, com 17 quilômetros. O trekking começa em Alto Palácio, próximo a uma das bases de brigadistas, onde uma placa sinaliza o começo do percurso.

Placa que marca o início da travessia, em Alto Palácio. Foto: Duda Menegassi.

Placa que marca o início da travessia, em Alto Palácio. Foto: Duda Menegassi.

O dia amanheceu com o frio típico da serra, mas rapidamente esquentou quando começamos a movimentar o corpo. A travessia já começa nas alturas, a 1.350 metros de altitude, mas os primeiros 6 quilômetros são de subida, ainda que gradual. Enquanto subíamos, o vento gritava nos nossos ouvidos e nos empurrava, ora pela frente, ora pelos lados, infelizmente nunca pelas costas, para nos impulsionar para cima. Guia de ecoturismo na região há 10 anos e voluntário do parque, Bruno estimou a velocidade do vento em aproximadamente 29 nós, algo em torno de 54 km/h. Elemento comum na serra, o vento forte adicionou um charme aventureiro à travessia.

Charmes, aliás, não faltam no percurso. Como um intrigante círculo de árvores maiores, destoantes e indiferentes à vegetação baixa do entorno. Provavelmente uma mata de galeria, usufruindo dos privilégios de uma das incontáveis nascentes da Serra do Cipó.

Por volta das 11h, depois de 6.5 km de caminhada, começamos a descida que alcançará seu ápice, ou melhor, seu sopé, no Vale do Travessão, uma das paisagens mais famosas do parque nacional. No meio do caminho, entretanto, está um outro atrativo, menos conhecido entre os visitantes: pinturas rupestres. Em uma solitária e proeminente pedra, que com certeza passaria batida se Bruno não tivesse chamado nossa atenção, os desenhos de cor alaranjada retratam veados e o que parece ser um canguru (?!) ou um cavalo – mas quem sou eu para julgar os talentos artísticos do homem primitivo? Datadas com idades entre 8 e 2 mil anos, as pinturas revelam o passado da região, onde existem registros humanos de 12 mil anos atrás.

Pinturas rupestres são um atrativo inesperado na travessia. Foto: Duda Menegassi.

Pinturas rupestres são um atrativo inesperado na travessia. Foto: Duda Menegassi.

Em um tempo anterior à especulação imobiliária, o homem primitivo com certeza soube escolher bem onde morar. Isso porque, a apenas 1,5 km dali está o Vale do Travessão. O nome é uma referência ao seu histórico como lugar de passagem, por onde era possível atravessar o cânion no sentido norte – sul, como fazemos agora. O vale também representa um divisor de bacias hidrográficas que separa as águas do rio São Francisco, a oeste, onde predomina o Cerrado; e as do Rio Doce, a leste, zona de domínio da Mata Atlântica.

Nada melhor descreve o Vale do Travessão do que: impressionante. Os paredões de rocha se precipitam sobre o vale, soberanos, enquanto o rio do Peixe serpenteia lá embaixo, minúsculo entre os gigantes de pedra. Impressiona também a vegetação, que não se intimida, e sobe das margens do rio aos cumes, desfazendo com o verde a sobriedade das montanhas.

Depois de descer aos 1.000 metros de altitude para atravessar o vale, é hora de recomeçar a subida e voltar às alturas. Faltam 7,5 km para chegarmos no ponto de pernoite, a Casa de Tábuas. Enquanto subíamos a serra, o dia nublado permitiu frestas de sol e o resultado dos fechos de luz por entre as nuvens iluminando e sombreando aquele cenário montanhoso produziu efeitos similares ao divino.

O impressionante Vale do Travessão. Foto: Duda Menegassi.

O impressionante Vale do Travessão. Foto: Duda Menegassi.

Carlos Drummond, o poeta, escreveu que “Minas não é palavra montanhosa, é palavra abissal”. Se não poderia concordar mais com a segunda afirmação, ela me faz questionar a primeira, porque os tais espantos causados pelas paisagens de Minas Gerais são sim, bem montanhosos. E na Serra do Cipó isso se escancara com horizontes construídos de infinitos morros. Para todos os lados e nos mais variados formatos e alturas, eles dão a verdadeira dimensão do que é uma cordilheira. A Serra do Espinhaço se estende por mais de 1.000 quilômetros e vai do norte de Minas Gerais ao sul da Bahia, na Chapada Diamantina, em uma linha praticamente reta, como uma espinha, o que originou seu nome. A Serra do Cipó equivale a parte sul da cadeia, com altitudes que variam entre 650 e 1.670 metros.

Calcula-se que o surgimento da Serra do Espinhaço começou há cerca de 2 bilhões de anos, quando a região ainda era um oceano, através do choque entre placas tectônicas. No encontro das placas, houve o soerguimento de uma por cima da outra. O resultado foi o surgimento de uma crista rochosa onde todas as pedras se inclinam na mesma direção. É visualmente impressionante ver como as rochas se projetam diagonalmente com uma força como se, de fato, tivessem acabado de romper o ventre da terra. Quem pensa que as pedras não se movem, não conhece o Espinhaço. A peculiaridade pode funcionar até como bússola natural, sempre apontando o Oeste.

Fechos de luz cortam as nuvens e trazem ares divinos ao dia nublado. Foto: Duda Menegassi.

Fechos de luz cortam as nuvens e trazem ares divinos ao dia nublado. Foto: Duda Menegassi.

Chegamos na Casa das Tábuas no final da tarde. O abrigo é, literalmente, uma pequena casa construída rusticamente com tábuas de madeira, porém seu fogão à lenha garante um ambiente acolhedor na noite fria mineira. Sob os últimos raios de luz solar, todos rapidamente montaram suas barracas nos arredores do abrigo, que funciona como ponto de apoio dos brigadistas do parque. Durante a noite, quando uma neblina espessa caiu, antecipando a chuva forte que viria na madrugada, mesmo as cores das barracas mais vibrantes se perderam, camufladas pela bruma. A primeira noite na Serra do Cipó, em meio à névoa, parecia um cenário encantado de filme.

A Casa de Tábuas, abrigo do primeiro pernoite, envolta na névoa matinal. Foto: Duda Menegassi.

A Casa de Tábuas, abrigo do primeiro pernoite, envolta na névoa matinal. Foto: Duda Menegassi.

O segundo dia da travessia – por entre as nuvens

Pela manhã, a neblina persistia e agora se confundia com as fumaças das nossas respirações. A temperatura fez mineiros e cariocas baterem queixo lado a lado, sem distinção, e obrigou todos a deixarem o acampamento devidamente agasalhados. A quilometragem do segundo dia de travessia é de 12 quilômetros e, no caminho, alcançaremos o ponto mais alto do trekking: 1.614 metros de altitude.

Partimos em meio às brumas, com uma visibilidade baixa que às vezes não permitia que enxergássemos nem 50 metros à frente. Estamos dentro da nuvem e vez ou outra sentimos as gotículas de uma garoa exclusiva das alturas. No caminho, enxergamos o suficiente para nos maravilharmos com uma canela-de-ema gigante, uma das peculiaridades da Serra do Cipó, com mais de 500 anos de vida. Para se ter uma ideia, o indivíduo mais velho da planta encontrado no parque foi datado com aproximadamente 900 anos.

A neblina intensa escondia o entorno e, combinada com a vegetação rasteira, provou-se um desafio de orientação. Tanto que o próprio guia se confundiu e, quando vimos, não sabíamos por onde ir. Felizmente, conseguimos recuperar o prumo certo. A experiência – ainda que curta – de se perder, provou que ainda é preciso investir bastante em sinalização e manejo na trilha. A profusão de caminhos devido à vegetação baixa também colabora para que até montanhistas mais experientes possam se perder por ali. Atualmente, a única sinalização são algumas estacas com a parte superior pintada de amarelo. O parque não obriga a contratação de guias para quem quiser fazer o trekking, mas é recomendável (e prudente) a companhia de alguém que conheça os caminhos da unidade.

A travessia foi oficialmente inaugurada em outubro de 2015 e o trabalho de sinalização e manejo ainda está em andamento, com apoio dos voluntários e dos brigadistas - uma vez que a trilha também funciona como via de acesso para combater incêndios no interior do parque.

Em meio à neblina e ao clima inóspito, a Serra do Cipó floresce. Foto: Duda Menegassi.

Em meio à neblina e ao clima inóspito, a Serra do Cipó floresce. Foto: Duda Menegassi.

Diante da neblina e do frio, o clima parece inóspito, mas a Serra do Cipó surpreende com flores e cores que brotam na paisagem como se ali houvesse uma primavera particular. De acordo com Bruno, a melhor época para conhecer o “jardim do Brasil”, como descreveu o próprio Burle Marx, é no verão. Quando o capim-estrela, espécie de gramínea com flor em formato estelar na ponta, transforma os campos em verdadeiras constelações terrestres; e quando as sempre-vivas estão todas em flor. Assim como as orquídeas, as bromélias e as canelas-de-ema, além de outras pequenas flores das mais variadas cores e formatos que, juntas, enfeitam o relevo acidentado das alturas. O parque já registrou, inclusive, espécies micro endêmicas de flora, ou seja, que só acontecem em um determinado e restrito lugar, como a Coccoloba cereifera, cuja área de ocorrência é inferior à 30 km². É um atrativo à parte da travessia descobrir a riqueza dos campos rupestres e ver como, mesmo sob condições extremas, num solo sob rochas de quartzito, raso e ácido, a vegetação consegue florir.

Quando começávamos a descida final para alcançar o abrigo de pernoite, por volta das 13h, o tempo abriu e revelou os horizontes escondidos até então pela neblina. Foi como se o visual da serra nos tomasse de supetão e, de repente, caísse a ficha de onde estávamos, para garantir mais um “uau” antes de encerrar o dia. Os últimos dois quilômetros com os horizontes descortinados em contornos de montanhas foram um presente sob medida. Pouco depois de chegarmos nos Currais, nosso ponto de pernoite, as nuvens novamente invadiram os céus e nublaram a paisagem.

Os Currais são outro lugar de apoio aos brigadistas. Durante a época seca, quando os incêndios são mais comuns e perigosos, eles fazem plantão dentro do parque. Naquela noite de sábado, cinco deles estavam na casa. Ao todo, a unidade conta com uma equipe de 36 brigadistas. A estrutura do abrigo é simples: uma fossa séptica, um fogão à lenha e, o luxo, a possibilidade de conseguir um banho morno com água esquentada direto no balde. Dispensei a mordomia para me banhar no rio próximo ao camping para renovar as energias e sentir na pele as águas límpidas – e congelantes, confesso - que nascem no Cipó.

Os brigadistas de plantão nos Currais, um dos abrigos da travessia. Foto: Duda Menegassi.

Os brigadistas de plantão nos Currais, um dos abrigos da travessia. Foto: Duda Menegassi.

O terceiro dia de caminhada

O terceiro e último dia de trekking começou às 9h30. Faltam apenas 11 quilômetros para concluirmos a travessia e, como um presente de despedida da serra, o dia amanheceu aberto, com pedaços de céu azul. O tempo limpo foi especialmente generoso quando estávamos em meio a uma espécie de planície cercada de morros e, mais uma vez, a imensidão mineira exibiu sua natureza abissal, como diria Drummond.

Diante dessa verdadeira paisagem cinematográfica, a equipe da Caravela Filmes, que acompanhou toda travessia, tirou o drone da mochila para tentar traduzir em imagens aéreas de alta resolução o que transborda nos olhos de quem está lá, ao vivo. A gravação faz parte de uma futura série sobre os parques nacionais – da qual já sou audiência garantida.

As imensidões da Serra do Cipó. Foto: Duda Menegassi.

As imensidões da Serra do Cipó. Foto: Duda Menegassi.

Depois de 5 km praticamente planos, uma leve subida nos coloca no topo da Serra dos Alves. “Agora é só descida”, adianta o gestor. De fato, sairemos dos 1.400 metros para menos de 800 metros de altitude no nosso ponto de chegada. Próximo ao sexto quilômetro, uma placa sinaliza os limites do parque. De agora em diante a travessia segue no território da Área de Proteção Ambiental (APA) Morro da Pedreira que, com seus quase 100 mil hectares de extensão, envolve o parque nacional, com 33 mil. Ambas unidades são federais e atuam de forma integrada pela conservação na região.

Apesar de hoje o trecho estar tecnicamente fora do parque, a previsão do gestor é de que a área seja futuramente anexada, com uma ampliação da unidade. O novo território, de cerca de 1.600 hectares, viria a partir de uma compensação ambiental da Vale, e abrangeria esta parte final da travessia. De acordo com Flávio, “a previsão é de que até 2018 ocorra a conclusão da regularização fundiária e o repasse das terras pela Vale à União”.

A trilha serpenteia morro abaixo até que, numa curva, o cenário se expande em forma de cânion. Lá embaixo, corre o rio Boca da Mata e, em cima, uma pedra forma um morrete que se posiciona como um mirante estratégico, na beira do precipício. Do alto, é inevitável se impressionar ainda mais com o visual de infinitudes da Serra do Cipó. Mais adiante, com localização igualmente privilegiada, está uma casa abandonada. No meio do cânion, entre as paredes rochosas, ela parece se precipitar em direção ao horizonte. Atualmente desocupada, com a ampliação ela pode se tornar um futuro abrigo para travessia.

Por cima do cânion do rio Boca da Mata, um visual de imensidões. Foto: Duda Menegassi.

Por cima do cânion do rio Boca da Mata, um visual de imensidões. Foto: Duda Menegassi.

Na medida em que descemos, o ambiente vai mudando e a vegetação rasteira vai se transformando em floresta. São as influências da Mata Atlântica, que predomina na parte leste do parque. Antes da chegada, um último obstáculo, uma pinguela, uma ponte banguela, onde as tábuas de madeira estão rusticamente presas por cabos de aço enferrujados pelo tempo. Terminamos a travessia no começo da tarde, a tempo de um almoço de comida caseira na comunidade de Serra dos Alves. Os 40 quilômetros podem parecer muito comparado a outras trilhas de longa duração, mas é só o começo para o Parque Nacional da Serra do Cipó. De acordo com o gestor, “a nossa perspectiva é ampliar o percurso para cerca de 70 quilômetros, com diferentes opções de composição de trajeto”. Existe até a opção de criar uma travessia circular, que alcançaria a quilometragem 85. Afinal de contas, a palavra de ordem por aqui é andar - e cada passo vale a pena.

 

O caminho de 40 km percorrido nos três dias de travessia, com os pontos de pernoite. Em vermelho, os limites do parque.

O caminho de 40 km percorrido nos três dias de travessia, com os pontos de pernoite. Em vermelho, os limites do parque.

 

Travessia Alto Palácio x Serra dos Alves

Onde: Parque Nacional da Serra do Cipó (MG)

Distância: 40 quilômetros

Pernoite? Sim. São dois pernoites, realizados em dois abrigos, Casa de Tábuas (km 17) e Currais (km 29).

Para realizar a travessia é necessário fazer o agendamento no ecobooking. É recomendado contratar um guia local.

 

 

*Duda Menegassi é jornalista de ((o))eco e à convite do ICMBio irá acompanhar as dez travessias em unidades de conservação que serão realizadas em comemoração aos dez anos do órgão ambiental.

 

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