Download PDF
Autógrafo. Foto: Felipe Baraldi

Autógrafo. Foto: Felipe Baraldi

 

Encantamento. Esse é o sentimento da bióloga Maria Antonietta Castro Pivatto quando o assunto são as aves e é esse sentimento que ela espera provocar nos seus leitores com o seu primeiro e recém-lançado livro “Passarinho e outros pios - as aves do nosso cotidiano”. Tietta, como é mais conhecida, trabalha com observação de aves há mais de 15 anos e faz com que os pássaros de seus contos voem junto com as asas da sua imaginação.

Ao todo, são vinte histórias que vão do dia a dia ao extraordinário. Ao longo delas, o objetivo de Tietta é mostrar que no cotidiano há espaço para a observação das aves. Nas páginas finais, um mini-guia dá informações ao leitor sobre todas as espécies apresentadas no livro. Não é preciso ser biólogo, ornitólogo ou muito menos observador profissional, basta esse encantamento, segundo ela, a chave para a preservação. “Nosso governo tem um posicionamento político muito mais desenvolvimentista do que com foco na sustentabilidade. Minha arma nessa luta é fazer com que as pessoas percebam a beleza das aves, pois se a gente não cuidar do espaço em que elas vivem, não vai ter nem passarinho, nem tamanduá, nem macaco, nem flor, não vai ter nada”.

Leia a entrevista de ((o)) eco com a autora:

Livro Passarinho e outros pios

Livro "Passarinho e outros pios"

 

((o))eco: No seu livro você aborda os pássaros através de contos, diferente da linguagem mais técnica que costumamos ver associadas ao universo da biologia e ornitologia. O que motivou esta escolha?

Tudo que existe no Brasil sobre observação de aves é relacionado a guias de identificação, seja com fotografias ou com ilustrações. Lá fora, principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, é comum haver livros de histórias, contos, coletâneas com crônicas de observadores de aves, algo que ainda não vi aqui no Brasil. E como eu sempre gostei de escrever, me deu esta vontade. Um dos motivos para fazer uma coisa tão diferente da literatura acadêmica é para que ela tocasse não apenas os biólogos e os ambientalistas que já têm dentro de si essa preocupação com a conservação, mas tocar as pessoas comuns, aquelas que nem dão atenção ao passarinho na rua. Espero que, com a leitura, elas se sintam curiosas para aprender sobre os passarinhos, especialmente em cidades.

((o))eco: Como foi o processo de construção dos contos?

Eu costumo brincar que não faço ideia de como se começa um livro. De repente numa noite, eu acordei com insônia e uma história pronta na cabeça. A história ficou me cutucando até que eu levantei, fui pro computador, digitei tudo e voltei a dormir. E assim foi o primeiro conto, o “Cucos e sabiás”. Aí comecei a escrever e a me empolgar com a ideia de juntar estas histórias.  Alguns contos foram realmente inspirações, mas quis colocar as experiências que os observadores e as pessoas comuns têm com as aves. Por exemplo, o conto de abertura, que ilustra a capa, fala sobre um operário que mora numa casa super simples de comunidade e acorda bem cedo pra ir trabalhar, e um dia se surpreende quando acende a luz da cozinha e se dá conta de que um beija-flor fez ninho no fio da lâmpada da cozinha. Aquilo pra ele é uma coisa fantástica. Por que uma coisa colorida, tão bonita e delicada foi buscar abrigo justamente na casa simples e rude dele? Hoje mesmo eu vi uma matéria falando de algo semelhante, um beija-flor que fez ninho no orelhão. Tem várias histórias dessas no nosso dia a dia.

Fiz um conto “Entre cordas e lentes” pensando nos meus amigos fotógrafos de natureza. Aliás, os observadores de aves brasileiros têm essa característica de serem muito mais fotógrafos, a maioria nem tem binóculo. Tem um conto em que eu descrevo um trabalho de campo de um ornitólogo, mas para não ficar aquela coisa chata, inseri um fator surpresa. São formas de colocar o cotidiano das pessoas, tanto dos profissionais, veterinário, biólogo, pesquisador, fotógrafo, ornitólogo, que trabalham com isso, quanto das pessoas comuns.

 

Trecho do conto “A vida por um fio” do livro “Passarinho e outros pios”, por Tietta Pivatto

“Os dias de José sempre foram cinzas. O bairro pobre onde mora era um labirinto de casinhas sem colorido, tijolos expostos sem reboque ou pintura. Paredes, calçadas, tudo cinza.

(...)

Até que um dia amanheceu diferente. Ao acender a luz da cozinha para tomar seu café, José percebeu um movimento perto da lâmpada, pendurada no fio elétrico no meio do cômodo. Tinha alguma coisa presa no fio, formando um pequeno cone. Olhando com atenção, viu com admiração que tinha um par de olhinhos observando seus movimentos. Era um ninho! Um minúsculo beija-flor construiu um ninho no fio da lâmpada e ele nem percebeu!

(...)

Uma avezinha tão delicada foi escolher justamente sua casa simples para morar…”

 

((o))eco: Como tem sido a resposta dos leitores a esta escolha?

Acho que todo mundo fica meio inseguro quando publica um livro, mas eu tenho tido um retorno bem legal. As pessoas estão se identificando, se emocionando, lendo os contos para os seus filhos, dando o livro de presente. É o que eu quero. Porque as primeiras pessoas que compraram foram pessoas ligadas à observação de aves, pois o lançamento foi no Avistar [Encontro brasileiro de observação de aves], agora eu já estou tendo pessoas interessadas que estão fora deste núcleo. É um pouco de literatura, mas é também um pouco de educação ambiental, eu não queria estigmatizar com este conceito, mas sei que lá no fundo, quando você se encanta, você vai olhar os passarinhos de forma diferente.

((o))eco: Como você vê esta atividade no Brasil e, mais especificamente, em Bonito, onde você morou por quinze anos?

O turismo de observação de aves no Brasil está crescendo muito. Para dar um exemplo, em 2004, durante meu mestrado, tive muita dificuldade em encontrar material de pesquisa porque não existia quase nada sobre observação de aves no Brasil. Em 2006, o Guto Carvalho organizou o primeiro encontro de observação de aves que foi o Avistar Brasil, ainda com pouquíssimas pessoas. Em 2008, veio o Wikiaves que é um marco super importante nesse desenvolvimento porque as pessoas começaram a colocar suas fotos de aves em uma plataforma destinada a gerenciar esse conteúdo. Isso provocou um boom. Hoje são mais de 20 mil pessoas cadastradas no Wikiaves e a gente estima que existam cerca de 40 mil no Brasil que se consideram observadores de aves, desde aqueles fotógrafos viajantes profissionais, aos fotógrafos de final de semana, aos que só observam, aos que são consumidores de livros, aos que participam de clubes, é um perfil bem variado e crescente.

 

Birding em Festival aves. Paraty, RJ. Foto: Tietta Pivatto

Birding em Festival aves. Paraty, RJ. Foto: Tietta Pivatto

 

((o))eco: Você também tem um blog sobre observação de aves, o Bonito BirdWatching, qual o papel dele?

Quando eu lancei o blog, em 2009, o objetivo era incentivar a observação de aves em Bonito, porque lá existe um potencial muito grande para essa atividade pelas espécies da região. No início, eu coloquei matérias para ensinar mesmo como começar a observar, os equipamentos necessários, essas coisas. Quando eu saí de Bonito, passei a direcionar o blog aos meus trabalhos, minhas consultorias e minhas saídas para observação de aves.

((o))eco: Birdwatching é ecoturismo? Como é o trabalho de conciliar o turismo com a ideia de conservação e preservação da fauna e flora?

Eu tenho trabalhado com os SEBRAE’s, especialmente no Rio de Janeiro e Espírito Santo, para levar a observação de aves como uma alternativa de desenvolvimento sustentável para regiões com potencial, especialmente áreas de entorno de parques nacionais e estaduais. Assim, eu insiro outras pessoas na cadeia produtiva do turismo de observação de aves. Se eu tenho 30 mil, 40 mil pessoas querendo viajar para ver aves, é preciso ter uma infraestrutura para recebê-las. Isso inclui o hotel, que vai servir um café-da-manhã às 5 da manhã, um guia especializado em aves que conheça os melhores pontos para observação e apoio do governo local, que invista na melhoria das estradas e em políticas de conservação de aves. Eu tenho focado nisso: a observação de aves como alternativa econômica. Porque o meu objetivo maior com tudo isso é conservação. Estamos num momento crítico, a gente está perdendo áreas, e nosso governo tem um posicionamento político muito mais desenvolvimentista do que com foco na sustentabilidade, e a minha arma nessa luta é o encantamento. É fazer com que as pessoas percebam a beleza das aves e que se a gente não cuidar do espaço em que elas vivem, não vai haver nem passarinho, nem tamanduá, nem macaco, nem flor, não vai haver nada. A gente precisa dos rios, das matas, tudo que os biólogos sabem, mas que as pessoas comuns às vezes não têm consciência. Então quando eu as sensibilizo com o passarinho ou quando eu levo para um dono de pousada, um artesão, que eles podem ganhar dinheiro com a observação de aves e que, para isso, a gente tem que cuidar do parque nacional ali do lado, eu estou colocando força nesse meu objetivo de conservação. Sozinha não faço nada, mas se eu tiver 30 mil pessoas apaixonadas por aves, já ficamos mais fortes na hora de ficar indignado com alguma ação absurda contra o meio ambiente.

 

Parque Nacional das Emas. Foto: Simone Mamede

Parque Nacional das Emas. Foto: Simone Mamede

 

((o))eco: De que forma o turismo pode incentivar iniciativas de conservação?

O turismo tem uma capacidade grande de influenciar as decisões políticas.  A gente vê a transformação de áreas que nem eram tão valorizadas em lugares incríveis para o turismo. Bonito, por exemplo, vinte anos atrás, era uma cidadezinha perdida quase na fronteira com o Paraguai. Por causa das belezas naturais, começou a chamar atenção das pessoas. Os próprios fazendeiros e proprietários começaram a perceber que precisavam proteger aquilo. Vinte anos depois, Bonito é uma referência em ecoturismo. Tem seus conflitos, como todo o município, inclusive um conflito sério na dificuldade do governo local em lá criar Unidades de Conservação, por pressão ruralista. O turismo é o responsável por muitas dessas iniciativas. Se não houvesse tantas pessoas naquela região com seu emprego e sua renda dependentes da atividade turística, essa área teria virado um grande pasto há muito tempo.

((o))eco: Quais os projetos futuros?

A minha empresa, a Maritaca Expeditions, também é editora, inclusive o selo do livro é dela, e a ideia é lançar outros títulos relacionados a esse tema de observação de vida silvestre e natureza. Já lançamos o Guia de Campo de Bonito e temos outros projetos, como um guia de beija-flores. Pretendo também lançar um e-book sobre estrutura para observação de aves.

Equipe Maritaca Expeditions. Foto: Fred Dentello
Beija-flor-de-fronte-violeta. Penedo, RJ. Foto:Tietta Pivatto Besourinho-do-bico-vermelho. Bonito, MS. Foto: Tietta Pivatto Gavião-pega-macaco. Caparaó, ES. Foto: Tietta Pivatto João-de-barro. Brasilia. Foto: Tietta Pivatto
Mocho-do-banhado. Americana. Foto: Tietta Pivatto Mocho-do-banhado. Americana, SP. Foto: Tietta Pivatto Picapauzinho barrado. Parque Nacional Restinga Jurubatiba. Foto: Tietta Pivatto Tiê-sangue. Penedo, RJ. Foto: Tietta Pivatto
Corruíras. Itatiaia, RJ. Foto: Tietta Pivatto Bem-te-vi. Parque da Luz, SP. Foto: Tietta Pivatto Urutau e filhote. Brasilia. Foto: Tietta Pivatto Saíra-militar. Paraty, RJ. Foto: Tietta Pivatto Trinta-reis. Caraguatatuba, SP. Foto: Tietta Pivatto

 

 

Leia Também

O olho por trás das lentes que registram Bonito

Manaus: horizonte perfeito para a observação de aves

Novo round sobre o destino das UCs dos banhados de Bonito