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Os autores Silvio Marchini e Edson Grandisoli. Foto: Divulgação.

Os autores Silvio Marchini e Edson Grandisoli. Foto: Divulgação.

Curupira. Saci. Cuca. As lendas que nasceram dentro das florestas brasileiras há muito povoam as páginas dos contos infantis. No livro “Seres reais e imaginários da floresta”, Silvio Marchini traz mais do que apenas criaturas fantásticas: há ensinamentos que fazem dessas lendas lições de conservação. A partir da relação desses seres imaginários com a floresta, as histórias de dez personagens lendários amazônicos convidam os leitores a repensarem sua relação com a natureza e seus seres reais, os animais e plantas. Embora tenha sido lançado pela Editora Evoluir em dezembro do ano passado, na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, na Alemanha, ainda não existe previsão sobre quando ele estará disponível no circuito comercial.

Biólogo especializado em conservação, Marchini é autor do livro “Guia de convivência gente e onças” (2009). “Seres reais e imaginários da floresta” foi escrito em conjunto com o também biólogo Edson Grandisoli, seu parceiro no projeto Escola da Amazônia, fundado pelos dois em 2002. Silvio acredita que o livro é pioneiro em juntar os saberes da ecologia com as histórias do imaginário popular de quem vive na região amazônica. O objetivo dessa “ecologia fantástica”, segundo ele, que mistura ficção com realidade, é unir aprendizado e encantamento em prol da conservação. “O que realmente move a nossa relação de cuidado com a floresta é a conexão afetiva”, acredita Silvio.

Leia a seguir a entrevista que ((o))eco fez com o autor:

((o)) eco: De onde surgiu a ideia de escrever junto com o Edson Grandisoli um livro que unisse realidade e ficção para contar um pouco mais sobre a Floresta Amazônica?

Silvio Marchini: O Edson Grandisoli e eu somos biólogos de formação e nós sempre nos dedicamos a envolver as pessoas em prol da conservação das florestas. Em 2002, criamos o Escola da Amazônia que desde então vem envolvendo crianças e jovens em atividades tanto na Amazônia quanto em grandes centros urbanos como São Paulo. E nós sempre reconhecemos que a raiz do problema de conservação, não só das florestas, tem menos a ver com ecologia do que com moral, ética e valores. E os mitos e as lendas amazônicas costumam ter exatamente essa mensagem, a moral da história, que ensina a fazer melhor uso dos recursos naturais. Então a gente resolveu juntar essas duas coisas e esse é o primeiro e único livro que eu conheço que junta a realidade da ecologia convencional com a história de seres fantásticos. Existem vários livros de ecologia e vários livros de lendas, mas nesse livro a gente explora como os animais e as plantas da floresta inspiram a criação e a perpetuação dos mitos e como os mitos, por sua vez, ensinam aos homens condutas para o melhor uso dos recursos e uma melhor relação com os seres da floresta. É, em última análise, um livro de ecologia, porque a ecologia trata da relação entre seres vivos, mas é uma ecologia diferente, uma ecologia fantástica que envolve os seres encantados da floresta.

((o))eco: Conte um pouco sobre os personagens e as histórias que aparecem no livro.

Silvio: O livro aborda dez seres imaginários e suas relações com os seres reais. A gente fala de alguns bem conhecidos como o Curupira e o Boitatá, assim como a mais conhecida das lendas da Amazônia, que é a do Boto Encantado. Mas a gente também fala de algumas lendas menos conhecidas, como a do Anhangá, um veado branco de olhos vermelhos que protege a caça na floresta. Aquele que caça um filhote que ainda não desmamou, por exemplo, corre o risco de ver o Anhangá e a sua visão traz febre e às vezes loucura. O Anhangá é quem protege todos os animais dos caçadores. Logo na primeira página do livro nós explicamos que os seres imaginários atraem muito a atenção e a curiosidade porque são histórias de medo. As pessoas têm um certo medo desses seres, mas essas criaturas fantásticas só punem aqueles que desrespeitam os animais, as plantas e a floresta.

((o))eco: Três mil exemplares do livro foram doados para projetos sociais e escolas. Qual o potencial do livro como ferramenta de educação ambiental?

Silvio: O livro já foi doado para escolas e projetos sociais em 15 cidades. Tanto na Amazônia, como Belém, Manaus, Porto Velho, Rio Branco; mas também em cidades fora da Amazônia, como Curitiba, no Paraná; e São José do Rio Preto, Sorocaba, Piracicaba, no interior de São Paulo. Nossa expectativa é de que o livro possa contribuir significativamente para educação ambiental. Durante toda nossa vivência de Escola da Amazônia e no trabalho com as crianças, ficou muito claro para nós que o encantamento cumpre um papel muito importante na educação.

((o))eco: Qual a importância de levar esse tipo de conteúdo para crianças, em particular àquelas que estão distante da região amazônica?

O autor Silvio Marchini. Foto: Rafael Hoogesteijn.

O autor Silvio Marchini. Foto: Rafael Hoogesteijn.

Silvio: São duas realidades muito diferentes. 61% do território brasileiro é Amazônia, mas a cerca de 80% dos brasileiros vivem longe dela. Na Escola da Amazônia a gente sempre lidou com esse abismo que existe entre aqueles que moram na Amazônia e os que estão fora da Amazônia. Para maioria dos brasileiros a Amazônia é algo distante e “eu não tenho nada a ver com ela”. Na Escola a gente sempre fez essa ponte de levar jovens dos grandes centros urbanos para conhecer a Amazônia. Lá a gente promove essa interação entre os jovens das escolas públicas locais com os jovens de escolas particulares do Brasil e é incrível como eles aprendem uns com os outros exatamente por causa desse abismo cultural de experiência e vivência entre eles. Esse livro vai ser atraente pros dois lados. Na Amazônia a gente espera que ele cumpra um papel importante porque lendas e mitos na sociedade urbana são apenas histórias, mundos distantes e encantados, mas na Amazônia rural esses mitos são crenças mesmo. As pessoas lá acreditam nesses seres e esses seres ditam regras que são importantes para elas. Em lugares remotos como só a Amazônia ainda tem, é esse medo do sobrenatural que ditam as regras de como usar os recursos naturais. O seringueiro que tem medo da Mãe da Seringueira, que é o espírito que castiga o seringueiro ganancioso que faz sulcos profundos demais na árvore ou que extrai o látex com uma frequência alta demais, ele vai respeitar a árvore. Por outro lado, a árvore é a fonte de recurso para ele e respeitando a árvore, ela vai sobreviver e ele vai ter uma chance melhor de sobreviver. Esse livro trata de histórias que têm um valor utilitário e eventualmente um valor de sobrevivência para quem vive na Amazônia. E longe da Amazônia, nos grandes centros urbanos, esse livro deve cumprir o papel de encantar, de chamar atenção para beleza e a fantasia da floresta. Acho que isso é algo que conecta à floresta. A gente não vai salvar a floresta, os animais e as plantas por causa da ecologia, do papel ecológico e tudo isso que a gente aprende na ecologia tradicional. O que realmente move a nossa relação de cuidado com a floresta é a conexão afetiva. O livro trata disso, de criar e fortalecer essa conexão, essa motivação moral e ética de cuidar da floresta.

((o))eco: De que forma a literatura pode incentivar iniciativas de conservação?

Silvio: Eu sou um exemplo de como histórias e os seus seres imaginários podem encantar e mudar pessoas. Eu fui fazer biologia e me dedicar à conservação das florestas porque quando eu era criança me encantei com as histórias do Monteiro Lobato. O Saci, a Cuca, o Reino das Águas Claras… E nosso livro é uma tentativa de passar um pouco desse encantamento e trazer mais crianças para o nosso lado, o lado da conservação.

((o))eco: Você escreveu “Gente e onças: conflitos e convivência”, um livro mais factual e, agora, “Seres reais e imaginários da floresta”. De que forma estes títulos se complementam nessa missão de estimular a conservação através da literatura?

Silvio: Um livro que ensine a como fazer, que é o caso do guia de convivência gente e onças, pode cumprir um papel importantíssimo na conservação. Mas é importante perceber que nem sempre é a falta de conhecimento e informação que causa aquele comportamento humano que ameaça uma espécie ou um ecossistema. Existem casos em que as pessoas têm informação, mas não se importam. Aí não adianta fornecer informação factual de como fazer, você tem que adotar uma outra linguagem para fazer com que as pessoas se importem. Eu espero que o papel de “Seres reais e imaginários da floresta” seja causar o encantamento e com isso criar a empatia, mudar uma percepção. Livros podem cumprir várias funções desde ensinar como fazer, quando o problema é falta de informação, até o de sensibilizar e despertar um sentimento. E acho que nisso o “Seres reais e imaginários da floresta” vai fazer uma contribuição importante. Eu acredito que esse livro é pioneiro ao trazer a discussão de maneira integrada nessa ecologia fantástica, trazendo o valor simbólico e afetivo dos seres para com isso melhorar a nossa relação com eles e com a floresta.

((o))eco: De que forma os quase quinze anos de Escola da Amazônia te ajudaram nesse processo de se aproximar das pessoas, em especial crianças e jovens, para conscientizá-las sobre a importância da conservação?

Silvio: O que a gente sempre fez na Escola da Amazônia e que é a essência do meu trabalho como pesquisador é usar a pesquisa para direcionar esses esforços de conservação e nos mostrar qual é a raiz daquele problema de conservação. É por que as pessoas não sabem? Ou é por que as pessoas sabem, mas não se importam? É por que as pessoas sabem, se importam, mas não têm alternativas? É por que as pessoas têm as alternativas, mas não têm as habilidades para adquirir aquele novo comportamento? A pesquisa nos mostra como escolher a melhor ação de manejo e conservação. A conservação é interdisciplinar e não vai ser resolvida somente com ecologia, a gente precisa de ciências sociais também, do campo de relações humanas. Um dos grandes aprendizados na Escola da Amazônia tem sido perceber que o que realmente vai mudar a nossa relação com a floresta e o que a gente realmente precisa passar para crianças e jovens não é somente informação ecológica. Não são apenas os seres reais da floresta que nós precisamos discutir com as crianças e os jovens. O que realmente move o ser humano e em particular a nossa relação com a floresta e tudo que ela abriga é sentimento, é encantamento.

 

Capa Título: “Seres reais e imaginários da floresta”
Autores: Silvio Marchini e Edson Grandisoli
Ilustrações: Rômolo D’Hipólito
Editora Evoluir

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