Download PDF
O Baobá da Praça da República, o mais amado da cidade (foto: Celso Calheiros)

O Baobá da Praça da República, o mais amado da cidade (foto: Celso Calheiros)

O Recife não é muito arborizado, mas ninguém consegue apontar, com precisão, quantos baobás existem na cidade. E o motivo não está no triste destino desta árvore ameaçada de extinção, pelo contrário. Os baobás encontraram no Recife uma atenção especial, foram sendo informalmente adotados, plantados, suas mudas cultivadas e alguns dos defensores dessas grandes árvores, de tronco largo e casca sensível não titubeiam em dizer: Recife é a cidade dos baobás.

O primeiro a identificar essa relação dos moradores da cidade com os baobás foi o antropólogo jamaicano John Rashford, professor da North Carolina University, em passagem pelo Brasil justamente para estudar a árvore – natural do continente africano, mas presente em vários países americanos. Ao visitar o Recife, ficou encantado com quantidade de baobás que a cidade possuía e, mais ainda, com o grande número de pessoas que se dedicavam a plantar, cuidar das árvores e preparar novas mudas para outros interessados.

No Recife já foi produzido documentário sobre as pessoas contando histórias a respeito dos seus baobás preferidos, existem 11 árvores tombadas pela prefeitura, mais de 20 mudas foram plantadas no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a escola Instituto Capibaribe plantou um na praça próxima e instituiu o dia do baobá aos alunos, há roteiro dos principais exemplares na cidade e, quem quiser uma muda para plantar, consegue sem esforço e a custo zero.

O baobá mais conhecido do Recife está na Praça da República, que fica entre o Teatro de Santa Isabel e os palácios do Governo e da Justiça. O baobá da Praça da República está na crônica política por ter testemunhado diferentes posses e deposições, faz parte da boemia teatral, abriga namorados vespertinos e vândalos de diferentes horas – seu frondoso tronco está repleto de iniciais, corações, nomes e proclamações.

O baobá da Praça da República também pode ser visto em caixas de sapatos ou álbuns que guardam as fotografias de recifenses em diferentes épocas. O funcionário da UFPE Fernando Batista, fã de baobás e contato do professor John Rashford durante suas passagens pelo Recife, conta que são comuns fotos familiares ao pé do baobá. “Encontra-se com facilidade a foto amarelada do filho criança, do mesmo filho mais velho e, depois, a foto mais recente do filho com o neto ao colo, todas ao pé do baobá”.

O grande fá dos baobás

Gilberto com os frutos de baobá

Gilberto com os frutos de baobá

Flor de baobá na Faculdade de Direito (fotos Celso Calheiros)

Flor de baobá na Faculdade de Direito (fotos Celso Calheiros)

A árvore não faz anéis no seu tronco irregular, logo não é possível apontar a idade que os baobás alcançam. Sabe-se que são resistentes aos anos, vivem mais de cem anos sem dúvida, mas nenhum estudioso assume o que alguns entusiastas gostam de afirmar: que elas vivem mais de 2 mil anos. Um destes admiradores é o motorista Gilberto Vasconcelos, que mantém o site Bioma Urbano (http://www.wix.com/biomaurbano/baobas). Ele criou e atualiza o mapa dos baobás em Pernambuco e possui uma sementeira improvisada em sua casa. Lá cultiva centenas de mudas da árvore. Sua ambição é verdejante: plantar cem mil mudas. Seu projeto é estadual: “Gostaria de plantar uma árvore em cada município pernambucano”.

Gilberto é uma pessoa simples que se interessou pelos baobás quase que por acaso. Sua relação com a natureza começou com sua infância de menino pobre, no município de São José do Laje, Alagoas, quando ainda menino se tornou cortador de cana-de-açúcar. “A vida era dura, mas eu morava entre duas reservas de Mata Atlântica e adorava brincar por lá”. Jovem, Gilberto foi para Belém do Pará e depois foi morar no Recife. “Fiquei impressionado com a falta de árvores”. Aos 40 anos, cansado de uma angústia que não o largava, rezou. “Pedi uma saída e daí veio esta vontade de plantar baobás”. Gilberto já plantou mais de 3 mil árvores, a maioria baobás. Sente-se livre da tristeza.

A peça infantil A árvore de Júlia, encenada em 2008 e 2009 no Recife, é outro exemplo ilustrativo. O texto trata da proteção de um baobá por uma menina que se recusa a deixar a árvore ceder espaço para a construção de uma fábrica. A produção da peça cuidou de distribuir mudas de baobás em diferentes apresentações e de plantar uma muda nos jardins da Faculdade de Direito do Recife – onde trabalha Fernando Batista, que além de cicerone do professor John Rashford foi um dos consultores para assuntos de baobás junto ao pessoal da Árvore de Júlia.

Além da muda plantada pelos produtores e elenco, a Faculdade de Direito tem outro exemplar, adulto, em seu jardim. Ele faz parte do catálogo de onze árvores tombadas pela Prefeitura do Recife. Desse grupo, o que tem o maior tronco, é o que está na margem do Rio Capibaribe – que corta o Recife e caracteriza a cidade por suas pontes.

O sobrevivente

Às margens do rio Capibaribe, um forte baobá que resistiu a diversas enchentes (foto: Celso Calheiros)

Às margens do rio Capibaribe, um forte baobá que resistiu a diversas enchentes. Foto: Celso Calheiros

O baobá do Capibaribe é um sobrevivente, conta Fernando Batista. Ele recorda que na grande cheia do rio, em 1975, a cidade foi inundada e houve pânico. Ao lado do baobá, algumas mangueiras foram arrastadas. O baobá tudo viu e não se mexeu. No governo seguinte, o rio foi alargado como parte das obras para se evitar novas enchentes. Quem perdeu terra foi justamente a margem do baobá. Mas ele continua onde sempre esteve. No entanto, longe dos olhos dos admiradores, por estar quase que escondido entre a lama do rio e o mato alto que cresce em volta.

Mesmo entre os que não se intitulam admiradores dos baobás, a espécie está lá, com sua marcante presença. Empresário de projetos inovadores, Frederico Cardoso Aires é um admirador da natureza, cultiva mudas de espécies consideradas em extinção por paixão e por se preparar para investir em reflorestamento. Na sua casa, encontram-se mudas de visgueiros, ubaias, abius entre tantas outras. Baobás, inclusive. Fred tem mais de mil sementes que prepara para transformar em mudas. O grande vaso com centenas de sementes prestes a se tornarem mudas está na sala da sua casa.

O cenógrafo e artista plástico Maurício Castro Filho também ressalva nenhuma admiração particular por baobás, mas sim pela natureza em geral. Mesmo assim, estuda onde plantar duas mudas em seu sítio, que já teve introduzida barriguda, urucum, cedro, jatobá. Maurício também faz parte daqueles que, quando criança, foram fotografados no baobá da Praça da República. Agora, espera suas mudas crescerem para fotografar o filho.

O cientista chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Silvio Meira, é recifense por adoção e, no Recife, conheceu essas árvores frondosas e centenárias. “Eles levam muito tempo para crescer e vivem muito – como as coisas que quero construir no trabalho”. O líder do principal instituto de tecnologia da informação da cidade plantou três baobás na praça em frente ao Cesar. “Para mim, os baobás representam a história, o passado dos africanos que vieram construir este país, o presente, da reverência que temos, no Recife, por eles, e o futuro, pois sempre me pareceu que eles iriam estar aí, por todo o sempre...”, profetiza Silvio Meira.

 

*Celso Calheiros é repórter em Recife