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Para salvar suas aves, o Brasil conta com o trabalho pioneiro e pouco conhecido da Crax – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre. A Ong luta há 19 anos para devolver à natureza espécies que andam sumidas dos habitats originais e reintroduziu quase 650 animais desde 1987.Com sede em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, a organização contribui para a recuperação de ecossistemas. Em Minas Gerais, realizou soltura em cinco diferentes áreas. O Rio de Janeiro também já foi contemplado. Dentre tantos méritos da associação, um merece destaque. Não fosse o empenho da Crax em salvar da extinção o mutum-de-Alagoas, o animal hoje só poderia ser observado em livros acadêmicos.

O sucesso do trabalho, segundo o fundador e presidente da Crax, Roberto Azeredo, tem uma receita simples: observar como vivem na natureza e proporcionar à ave um ambiente o mais parecido possível. “É uma vida inteira de dedicação. Todo o conhecimento foi aprendido na prática, com muitas idas a campo. “Segundo ele, livro algum ensina a técnica de reprodução passo a passo, com detalhes. “Não está escrito em lugar nenhum a temperatura e umidade que deve ter a chocadeira, nem o período de incubação de uma espécie silvestre. Aprendemos sozinhos.”

A Crax tem em seu criatório cerca de 100 espécies de aves, todas brasileiras. Trabalham principalmente com as da Mata Atlântica por ser um bioma que está quase desaparecendo. “Das 100 espécies, damos ênfase à reprodução de mais ou menos 30, pelo grau de ameaça que atingiram”, explica Azeredo. Perguntado sobre o número de aves que já nasceram ali, ele pensa por alguns minutos, mas não chega a uma resposta. “Não tem como saber. Foram tantas que até perdi a conta.” Atualmente, a associação tem área de 60 mil m², 400 viveiros e mais de duas mil aves.

De volta ao lar

Além da reprodução em cativeiro, a Crax tem ótimas experiências com a reintrodução de 10 espécies silvestres. A soltura de aves como o mutum-do-bico vermelho (Crax blumenbachii), jacutinga (Pipile jacutinga), macuco (Tinamus solitarius), e jaó (Crypturellus noctivagus) ocorre desde 1990, sempre patrocinada por empresas interessadas em equilibrar ecossistemas. “O grande obstáculo é conseguir recursos. O trabalho é de longo prazo. Não basta reintroduzir os animais sem que haja um acompanhamento”, destaca Azeredo.

Para realizar a soltura, os integrantes da Crax procuram seguir um método que proporcione tranqüilidade e conforto às aves. Abrigam os animais em sacos de plástico e caixas de papelão, com o objetivo de protegê-los durante o transporte. O trajeto até o local onde será feita a reintrodução é percorrido no período da noite, momento em que as aves estão mais calmas – na maioria das vezes dormindo. Se chegam ao destino antes do amanhecer, esperam os primeiros raios de sol para iniciar o processo, sempre buscando o bem-estar dos bichinhos. Na área de soltura os animais contam com um viveiro apropriado, local onde ficarão em adaptação por até 30 dias. “Procuramos sempre reintroduzir pássaros jovens, com pouquíssimo tempo em cativeiro. Assim, não se acostumam aos criatórios e ficam mais preparados para enfrentar os perigos de fora”, explica o vice-presidente da Crax, James Simpson.

Peculiaridades

Devolver aves à natureza é um aprendizado constante. A cada soltura, exemplares de determinada espécie revelam aspectos antes desconhecidos. Foi durante uma reintrodução de mutum-do-Sudeste (Crax blumenbachii) que a equipe da Crax aprendeu que este bicho gosta mesmo é de ficar perto de gente. “Uma fêmea de mutum, certa vez, adotou uma casa que ficava dentro da área de soltura. Foi morar junto com as galinhas da dona do sítio. O pessoal gostou tanto da ave que ela tinha até apelido”, recorda Simpson. Mesmo depois de retirado de lá duas vezes, o pássaro voltou para ver seus “donos”. “Da segunda vez, levamos o bicho para um lugar 20 km distante da casa. Três dias depois, ele estava lá de novo.”

Manso, o mutum-do-Sudeste tem como hábito caminhar bastante, o que facilita sua observação. “É mais fácil de segui-los. Dá até para ver o que eles gostam de comer e utilizar a descoberta em cativeiro.” O trabalho com a espécie começou em 1975 e, de lá pra cá, mais de mil exemplares nasceram por ali. “Já estamos reintroduzindo alguns animais na Reserva Ecológica de Guapiaçu, no estado do Rio de Janeiro. É o nosso primeiro trabalho fora de Minas”, conta Simpson.

Todo projeto de reintrodução contempla planos de vigilância da área de soltura e acompanhamento dos pássaros. Casas de observação são construídas em locais estratégicos, para que os biólogos verifiquem se os animais continuam por ali. “Fazemos um poço artificial de água perto da casa para atrair os bichos. Mas eles são muito espertos. As janelas e portas têm de ser discretas. Assim, os pássaros não percebem que estão sendo vistos.”

Diferentemente do mutum-do-Sudeste, a capoeira (Odontophorus capueira) e o inhambu-açu (Crypturellus obsoletus) são ariscos. Assim que a porta do viveiro de adaptação é aberta, eles voam para longe, de modo que ninguém mais possa encontrá-los. “Os biólogos que acompanham os projetos têm artifícios para atrair os bichos. Já estão acostumados a andar pela mata em silêncio e conhecem os horários mais fáceis de avistar as aves. Também utilizam apitos para ver se os pássaros respondem”, diz Simpson.

Principais espécies

Motivo de orgulho para a Crax, o mutum-de-Alagoas (Mitu mitu - foto) é endêmico da Mata Atlântica e encontra-se criticamente ameaçado de extinção. Em 1979 a espécie chegou a contar com apenas cinco exemplares em cativeiro. Graças a um trabalho de reprodução desenvolvido pela zoobotânica Maria Nardelli, no Rio de Janeiro, o número de indivíduos aumentou para 44. Em agosto de 1999, o criatório de Nardelli fechou por dificuldades financeiras e 24 pássaros que viviam ali foram enviados, com a autorização do Ibama, à Crax. Neste momento os esforços da Ong a transformaram em uma das grandes responsáveis pela perpetuação da espécie. “Hoje estamos chegando perto de cem aves”, comemora Azeredo.

Simpson conta que o mutum-de-Alagoas tem suas particularidades. A agressividade do macho, por exemplo, faz com que os casais tenham de morar em gaiolas separadas. Só se encontram na hora da cópula e, mesmo assim, não deixam de ser observados. “Não sabemos se essa índole é natural do bicho, manejo incorreto ou se decorrente de consangüinidade”, comenta. Com quase cem indivíduos no centro de pesquisa, ele avalia que já é possível pensar em projetos de soltura das aves. O local está em discussão. “Certamente, vamos reintroduzir numa reserva em Alagoas. Estamos fazendo um trabalho de educação ambiental no entorno para conscientizar a população sobre a importância do animal. Tudo indica que soltaremos três casais.”

A reprodução da harpia (Harpia harpyja), maior ave de rapina do mundo, é outra grande conquista da Crax. A associação conseguiu a reprodução da espécie em cativeiro de forma natural, façanha nunca antes alcançada nas Américas. “Normalmente a fêmea bota os ovos, eles vão para a chocadeira e depois são cuidados pelos pesquisadores. Conseguimos que os pais reproduzissem e criassem naturalmente”, conta Azeredo, ressaltando que o feito ocorreu 84 dias depois de receberem o primeiro casal. “Foi tudo muito rápido. Estudei a metodologia adotada por alguns institutos que criam harpia e desenvolvi um método próprio.” No ano passado, a Crax comemorou o nascimento do décimo exemplar da águia.

A harpia também está ameaçada de extinção. Por se situar no topo da cadeia alimentar (normalmente come macacos, cotias, preguiças, entre outros), é diretamente afetada quando seu habitat é exaurido. “Se acabam as matas e o alimento, começa a atacar criações. É aí que o pessoal mata”, diz Simpson. Mas se depender dos projetos da Crax, a luta pela preservação da espécie continuará a todo vapor. “Seremos os pioneiros na experiência de reintrodução da águia. Estamos negociando patrocínios para que isso ocorra o mais rápido possível.”

Trajetória

Quando comprou seu primeiro passarinho, o administrador de empresas Roberto Azeredo não imaginava a dimensão que o então passatempo iria tomar. O hobby teve início ainda na década de 70. Com o passar dos anos, o número de aves foi crescendo com a mesma rapidez que aumentava a paixão pelos bichinhos. A infra-estrutura de que dispunha estava ficando pequena para a quantidade de animais que insistia em colocar naquele espaço. Cuidadoso, resolveu criar a Crax para ampliar seu criatório.

A história de Simpson não é diferente. “Lembro que no jardim da infância eu sempre fugia das aulas e ia para o galinheiro da escola”, recorda o agrônomo. O encontro de Azeredo e Simpson, embora por acaso, foi providencial. “Foi tudo coincidência. Trabalhávamos no Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas, quando descobrimos a paixão comum. Mas eu só gostava e ele já tinha um trabalho desde 1970”, comenta Simpson.

Para o futuro, os planos desses amantes das aves são ambiciosos. Simpson e Azeredo estão em busca de mais patrocinadores para a Crax. Hoje, por exemplo, eles têm de inibir a reprodução de algumas espécies por falta de espaço e recursos para manutenção. “Queremos aumentar estrutura e equipe da associação. O momento é muito favorável para conseguir novos parceiros, porque as empresas estão mais conscientes da importância do meio ambiente. A sociedade também está se preocupando mais”, conclui o vice-presidente.