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Squatina varii depositado no Museu Nacional, Rio de Janeiro. Espécime coletada na década de 90 foi fundamental para a descrição. da nova espécime. Foto: Diego Francisco Biston Vaz.

Uma nova espécie de tubarão-anjo foi descrita na região do mar afetada pelos rejeitos da barragem da Samarco. Batizado de Squatina varii, esse cação vive no fundo do oceano, entre os estados do Espírito Santo e Alagoas, provavelmente no talude continental, a área em declive que limita a plataforma continental.

“Parte dessa população foi afetada pelos dejetos da Samarco”, afirma um dos responsáveis pela descrição, o biólogo Diego Francisco Biston Vaz, hoje aluno de doutorado no Instituto de Ciência Marinha da Virgínia, Estados Unidos. “Na costa do Espírito Santo, a plataforma continental é muito curta, então os dejetos que entraram quilômetros na água chegaram ao talude”, completa.

O rompimento da barragem, ocorrido em novembro de 2015, foi o maior desastre ambiental do país. Ela descarregou mais de 60 milhões de toneladas de rejeitos de mineração no Rio Doce, em Minas Gerais. Dezenove pessoas morreram e milhares ficaram desabrigadas. A lama atingiu também cidades do Espírito Santo e Sul da Bahia e chegou ao mar. Toneladas de peixes foram mortos e a bacia hidrográfica pode demorar anos para se recuperar dos danos.

Tubarão diferenciado

Os cações-anjo são encontrados em águas tropicais e temperadas. Eles vivem no fundo do mar, onde conseguem se camuflar à espreita de presas. O corpo achatado e barbatanas peitorais longas dão a eles uma aparência distinta de outros tubarões. “É um tubarão diferenciado, porque ao longo da história evolutiva, ele sofreu adaptações e modificações que os habilitaram a explorar o habitat bentônico, ou seja, a explorar o fundo do mar”, explica Diego.

Foto: Alfredo Carvalho-Neto/Projeto TAMAR.

Visualmente, a nova espécie se diferencia de outros tubarões-anjo encontrados no Brasil na ausência de manchas brancas no dorso. Existem outras diferenças. A Squatina varii possui um número maior de vértebras do que os parentes que vivem no Atlântico Oriental. Há diferenças também nos aparelhos reprodutivos dos animais. Os registros indicam que a nova espécie pode chegar a pouco mais de 1,3 metros de comprimento.

A descrição da nova espécie, batizada em homenagem ao ictiologista Richard Peter Vari, foi publicada no início de mês de março na revista científica Copeia, da Sociedade Americana de Ictiologistas e Herpetologistas. Os estudos se basearam em coletas realizadas no fim da década de 1990, durante o programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (ReviZEE), que pertencem ao Museu Nacional, que fica no Rio de Janeiro.

Diego Vaz conta que o estudo esclarece uma confusão que havia na identificação de cações-anjo no Brasil. Antes de descrever a espécie, ele havia encontrado exemplares de Squatina varii identificados como de uma espécie que vive no Hemisfério Norte, a S. dumeril. Mas a confirmação só veio depois que recebeu a informação de que havia 13 espécimes adultos, entre machos e fêmeas, de cações-anjo no Museu Nacional, que haviam sido coletados anos antes.

“Eu pude olhar a morfologia do clásper, que é o órgão intromitente (órgão de reprodução masculino), que muitas vezes dá a evidência de que as espécies são diferentes”, conta o biólogo. “Eu tive a chance de examinar tudo isso e ter clareza para dizer que esses tubarões-anjo que ocorrem de Alagoas ao Espírito Santo são uma espécie nova”, completa.

De acordo com ele, existem pelo menos 10 espécies de tubarão-anjo no Oceano Atlântico. Entre os que vivem em águas que banham as Américas, três são encontrados no Sul e Sudeste do Brasil, S. argentina, S. oculta e S guggenheim. São espécies classificadas como “ameaçadas” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), devido a pesca. Como os tubarões-anjo são peixes com um ciclo de vida longo, eles demoram para se reproduzir, esclarece Diego Vaz.

 

Saiba Mais

Artigo: “New Species of Squatina (Squatiniformes: Squatinidae) from Brazil, with Comments on the Taxonomy of Angel Sharks from the Central and Northwestern Atlantic”. Diego F. B. Vaz and Marcelo R. de Carvalho.

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